Direta obrigatória para Nuno Markl? Cerimónia dos Óscares pode ser "algo realmente inesquecível"
"A ousadia deve sempre ser premiada." Quem o diz é Nuno Markl numa conversa sobre Óscares, cinema e inteligência artificial.
A 97.ª edição da entrega das estatuetas de Hollywood que acontece este domingo, 2 de março, no habitual Dolby Theater, em Los Angeles, nos Estados Unidos, é o mote para a conversa com o humorista, Nuno Markl. Conan O’Brien será o anfitrião da cerimónia e esse facto, por si só, merece uma noite em claro para Markl.
Candidatos a melhor filme, o que é que destacas?
Nesta altura, há sempre aquela questão entre o meu gosto pessoal e o que pode realmente acontecer. Acho que, entre todos os filmes, este foi um ano muito rico em boas produções, sem dúvida, e em filmes bastante ousados, o meu favorito é Anora, que vi duas vezes e, pela terceira vez, em pedaços, só porque acho incrível. É uma fusão de comédia e drama absolutamente perfeita. No entanto, todos os filmes são bons e bastante ousados. Sou daquelas pessoas que têm algumas reservas quanto a Emilia Pérez; não sei se funciona exatamente. Mas, lá está, acho que um filme que ousa deve ser louvado. Há muita gente que gosta também, e acredito que a ousadia deve sempre ser premiada. Mas diria que este talvez seja o ano do Conclave. Tenho esse pressentimento. Gostei muito do filme e, aliás, é uma obra da qual gosto cada vez mais à medida que me lembro dela. Não é o meu favorito; acho que The Substance é um filme super ousado e incrível. Ainda assim, tenho a sensação de que este pode ser o ano do Conclave.
Quem ainda não viu nenhum filme, qual recomendas? Quais são os que não podem mesmo faltar?
Olha, recomendo Anora e o Brutalista num ecrã de cinema – penso que ainda está em exibição. É um filme feito em VistaVision, o que acho que é um verdadeiro milagre nos dias de hoje. Acho que o cinema tem de retomar a sua natureza de evento para as pessoas, e isso não será fácil, porque as pessoas estão muito agarradas ao sofá e ao conceito de ver filmes em casa. Mas não há nenhum filme aqui que eu ache que não vale a pena ser visto. Acho que todos valem muito a pena, e talvez o mais importante de todos seja Ainda Estou Aqui. Não será o melhor enquanto cinema, mas é o filme de que 2025 precisa.
Isso leva-me a outra questão, que são os discursos e declarações que vir a ser ditas na cerimónia...
Eu, para já, enquanto fanático de Conan O'Brien, estou a considerar, pela primeira vez em muitos anos, fazer uma direta para ver tudo e, depois, obviamente, vir trabalhar para num bonito estado... Mas acho que esta é uma das edições dos Óscares mais aliciantes, porque sinto que, perante tudo o que está a acontecer, as pessoas têm muito a dizer. Não estou a imaginar que alguém vá bater em alguém na cerimónia, mas acho que há uma eletricidade no ar, trazida pela atualidade e pelos tempos que estamos a viver, e que pode fazer desta edição dos Óscares algo realmente inesquecível. Por isso, olha, direta.
Tem havido alguma polémica em torno do uso da inteligência artificial. Achas que isso já será um tema nesta cerimónia?
Lembro-me de se ter falado disso a propósito de Brutalista e da correção de alguns sotaques, porque as personagens não falam apenas inglês – são húngaras –, e houve ali afinação feita com inteligência artificial.
Acho que, se a inteligência artificial for usada como uma ferramenta de retoque, como neste caso, ou como um auxílio que de forma alguma diminua a importância do trabalho humano, então é uma ferramenta tão interessante quanto foi a World Wide Web quando apareceu. Enquanto pessoa que escreve, depois de ouvir o Paul Schrader – grande realizador e argumentista – dizer que a inteligência artificial tem um potencial muito interessante para argumentistas, fiquei a pensar nisso. Não para escrever um argumento inteiro, porque sairia uma porcaria, mas para ajudar na estrutura, como um puzzle. Isso não me choca. O que me choca é ficarmos escravos da tecnologia e surgir um filme inteiramente feito por inteligência artificial. Isso vai correr mal. A IA não consegue, por exemplo, fazer comédia. Não percebe o sentido de humor. É muito lógica e pode ser útil para estruturar coisas, mas o humor é algo que… quando a inteligência artificial fizer uma boa piada, aí acho que será inquietante.
Por fim, relativamente aos atores, quem destacarias? Principais, secundários?
De novo, são todos incríveis, cada um à sua maneira. Olhando para os principais, acho que o Adrien Brody está fabuloso. O Timothée Chalamet incorpora o Bob Dylan de uma maneira que eu não pensei ser possível. Gosto muito dele como ator, mas não é daquelas escolhas óbvias em que pensamos "este tipo vai fazer de Bob Dylan". O Colman Domingo, também no Rustin, está incrível. É um filme muito bonito, e acho que ele tem uma presença muito calorosa e cativante. O Ralph Fiennes está extraordinário em Conclave. Todas as emoções que passam por aquele homem durante o filme são incríveis. E o Sebastian Stan também. É muito interessante a forma como ele está em The Apprentice, porque vês o making-of do Trump na maneira como ele interpreta o papel. No início, pensas: "Isto não se parece com o Trump", mas, aos poucos, vês que ele vai moldando a personagem até se transformar um bocado naquilo que conhecemos do Trump de hoje. É um grande trabalho de ator. Na categoria de Melhor Atriz, as minhas favoritas são a Mikey Madison, a Demi Moore e a Fernanda Torres. Seria giro que a Fernanda Torres ganhasse, não é? E há essa possibilidade. Mas talvez seja algo entre a Demi Moore e a Mikey Madison, diria. Quanto aos atores secundários, adoro – e acho que seria incrível – que um "completo estranho" (entre aspas, porque ele já tem uma carreira) como o Yura Borisov, de Anora, ganhasse. Ele é um absoluto prodígio de contenção. A sua cara transmite milhões de coisas ao mesmo tempo, sem sabermos exatamente o que se passa, mas percebendo que muita coisa está a acontecer. Mas acho que talvez seja o Kieran Culkin, que tem sido muito consagrado com A Real Pain. É um filme ótimo e, de certa forma, ele faz dele próprio, mas de uma maneira que… Bom, não é fácil. Se me pedissem para fazer de mim próprio num filme, duvido que o fizesse tão bem como ele faz. Ele prova que há uma arte em interpretar-se a si mesmo, e esta personagem é muito inspirada nele. Por fim, na categoria de Melhor Atriz Secundária, diria que… talvez a Zoe Saldana. Por muitos problemas que acho que Emilia Pérez tem, acho que a interpretação dela é tão intensa, tão forte, que pode muito bem ser ela a levar o prémio. Tenho essa sensação.

