Marta Crawford, a doutora do sexo

Psicóloga clínica e sexóloga, levou a educação sexual à televisão.

Marta Crawford é psicóloga clínica e sexóloga. Levou a educação sexual à televisão nacional, lutou pla legalização da Interrupção Voluntária da Gravidez e foi uma das responsáveis pla criação do Dia Nacional da Saúde Sexual. 

Lembra-se do tempo que passou nos Estados Unidos?

Lembro-me, apesar de ser muito pequenina. Foi na altura do 25 de Abril, portanto, eu nasci em 1969, tinha de quatro para cinco anos. Portanto, tenho memórias de cheiros, memórias de sítios - que eu não sei se são das fotografias que temos lá em casa -, mas tenho muitas memórias de cheiro. É engraçado, havia uns cheiros particulares que fixaram e ficaram na minha memória para sempre. Tenho a ideia de ser tudo muito a cores, colorido, quente, água, piscina - que havia no condomínio onde morávamos e passávamosva muito tempo lá dentro. Tenho uma memória muito de cor, não é?

Depois, quando voltei para Portugal, vim para uma escola que chamava das batas brancas, em que se comia o pão seco com manteiga e, portanto, foi um choque em termos do estilo. Lá brincávamos na escola, fazíamos bolinhos, fazíamos coisas artísticas, tinha toda essa faceta. Naquela primeira fase, aquela escola tinha essa memória, batas brancas e pão seco com manteiga.

Havia diferença entre dois países que viviam fases completamente diferentes. 

Claro, completamente. Os meus pais estavam lá a estudar. A minha mãe foi fazer o doutoramento e o meu pai foi fazer o mestrado e, portanto, levou as duas filhas, eu e a minha irmã mais velha. Entretanto, a minha mãe ia grávida, portanto, a minha irmã Susana nasceu já lá. Dizíamos que era a Susana Americana. Quando acabou o doutoramento, ainda ficou lá. O meu pai veio à frente com as duas filhas mais velhas. Depois veio a Susana e a minha mãe. 

Antes de chegar à sua profissão, passou pelas artes. O que lhe despertou o interesse em ser pianista ? 

Quando comecei a tocar piano terá sido porque os meus pais acharam que eu podia tocar. Lembro-me que a minha prima também tocava piano e, portanto, comecei a ter aulas de piano com a mesma professora. Ela morava na Portela, muitas vezes até ensaiava ou treinava no piano da minha prima, antes de ter um piano. Deduzo que terá sido fruto familiar: ela está a tocar, também terei mostrado interesse e comecei a tocar. Depois de facto gostei muito porque o piano é uma coisa de outro mundo, digamos que é para mim o instrumento.

Comecei a tocar, tive aulas das escalas e lembro-me que essa parte era para mim um bocadinho aborrecida. Aquilo repetia, repetia, repetia, repetia... Era muito repetitivo e aquilo dava cabo de mim, mas tinha de fazer porque tinha de estudar, tinha de apresentar o trabalho feito. Fiz uma preparação para me candidatar ao Conservatório Nacional e lá aprendi as musiquinhas que era suposto apresentar, ainda hoje sei uma delas, e estava tão nervosa - era muito reservada, tímida, nervosa. Estava num auditório gigante, um piano de cauda que eu nunca tinha tocado, preto brilhante, e eu ali pequena a fazer a minha audição. Depois não fiquei, fiquei muito traumatizada, pensei: "Se calhar, não sou assim tão boa nisto". Acabei por ir para a Academia dos Amadores de Música, depois tive lá outra professora e andei em solfejo, portanto, estava ligada a essa música e fiquei sempre apaixonada, apesar de depois me ter afastado. Para seguir e evoluir tinha que estudar muito. Não me apetecia estudar daquela forma. Gostava de ouvir a música, a melodia e ficar a tocar de olhos fechados e inventar. Como tinha aquela coisa de tocar, sempre pela pauta, não arriscava a fazer qualquer tipo de improvisação.

Agora é curioso, anos mais tarde, retomei. Tenho um piano no Alentejo, onde vou com muita frequência e toco as músicas que aprendi na altura, completamente modificadas pela improvisação. Então é um gozo tremendo. No fundo, era o que eu queria do piano, poder tocar sem amarras, sem sentir que estou a fazer mal ou bem, não quero saber. Até o erro torna-se uma oportunidade para fazer uma coisa mais engraçada, é nessa fase que estou. Portanto, não fui pianista, gostaria muito de ter sido pianista, como gostaria muito de ter sido outras coisas artísticas, porque tenho uma paixão enorme pelas expressões artísticas.

Este percurso que faz mais voltado às artes também se acaba por refletir no liceu, porque frequenta a António Arroio. Como é que era a escola naquele tempo? 

Lembro perfeitamente porque ainda por cima fiz do 7.º até ao 9.º ano no Liceu Dona Leonor. Era um dos liceus da altura mais conservadores, com professores do antigamente e tudo muito rígido. Lembro-me que foi muito rígido para mim. Quando fui para a António Arroio, era um outro mundo. Aí era o oposto. Eram duas escolas que eram completamente contraditórias em termos do registo das pessoas: estar a apanhar sol, faltar às aulas, aquele lado artístico, mesmo dos professores. 

Havia todo um registo que era completamente diferente do Liceu Dona Leonor. Para mim foi muito interessante, gostei imenso da António Arroio. Fiquei com muitos amigos dessa altura da António Arroio, uma das minhas primeiras paixões também foi na António Arroio e andava apaixonada por aquela área. Pensava que desenhava bem, pensava que eventualmente também iria ser uma pintora. Cheguei lá e percebi que os meus colegas eram tão brilhantes comparados com aquelas graças que desenhava e pintava. Aliás, lembro-me que a minha irmã, que também passou por lá, acabou por levar a minha capinha com todos os meus desenhos, entregou à professora e teve a nota máxima. Portanto, não era assim tão mau quanto isso. Fiquei sem os desenhos porque desapareceram na escola.

É certo que quando a pessoa acaba por ver outros trabalhos e começa a perceber que eventualmente gosta de desenhar, de fazer, mas não é aquela coisa. Fui tendo essas perceções ao longo do tempo, depois também vem então a minha faceta de teatro, que era uma das áreas que também apreciava.

Começa na música, passa pelas artes plásticas e chega ao teatro. O que a leva a esta nova arte?

Na adolescência, lembro que comecei no IJOVIP (program de inserção de jovens na vida profissional) a fazer curso de expressão teatral. Como sempre fui bastante reservada e tímida, quando era preciso inventar uma personagem, percebi que tinha permissão para me expressar e então expressava-me ao máximo. Chorava baba e ranho, fazia coisas que pareciam um bocado fora, mas aquilo saía e eu sentia-me depois bem, porque conseguia criar uma personagem qualquer e ser muito emocional. Era sempre coisas muito emocionais, assim, baba e ranho. Comecei a achar piada. Houve uma altura que eu queria ir para o Actor Studio, pensei mesmo e comecei a ver as coisas para Nova Iorque. Ainda por cima era naquela altura em que víamos o 'Fame', toda a gente via o filme naquela altura. O 'Fame' era uma referência de escola de artes e de paixão. Imaginava que ia para Nova Iorque, que ia para uma espécie de Actor Studio, mas em 'Fame' que não seria a mesma coisa e a minha vida seria efetivamente dentro do palco.

A partir desse curso, acabo por fazer outro na altura dos Fundos Europeus, porque era no IFICT um curso encenação e produção teatral. Quando terminei, faço um casting para 'A Barraca', um grupo de teatro muito emblemático de Lisboa e de Portugal. Faço um casting para uma peça que se chama "O Baile", que era baseado num filme do Ettore Scola na altura. O Hélder Costa fez toda a encenação no sentido da história portuguesa e eu começo a trabalhar com um grupo profissional. Profissionalmente, passo da não experiência para, de repente, um palco. O espetáculo foi no Ritz Club e estivemos quase dois anos ali. Mesmo depois de sair da Barraca ainda foi reposto com outro elenco e foi uma experiência extraordinária. Estamos a falar de Hélder Costa, da Maria do Céu Guerra, da Maria João Luís, da Teresa Faria, estamos a falar de uma série de atores que eu conheci lá, uns também mais novinhos como eu. Entro para um grupo que tem muitas idades e sou a caçula que foi lá para aprender, apesar das minhas reservas quando chegava ao palco a coisa transformava-se e aprendi imenso.

Cresci imenso porque era pequenina e salto pra uma vida que não tinha nada a ver até com a minha família. Vou trabalhar à noite, com uma idade que não era suposto. Vou estar num Ritz Club a fazer espetáculos até às tantas da manhã. Em simultânea, nessa altura, entro para o ISPA por um lado porque queria, por outro também havia essa pressão familiar de fazer um curso superior. Achei que a psicologia era a minha cara, mas naquela altura quando me inscrevo, caio dentro do curso e daquilo que tinha estudado parecia-me interessante. Tinha aquela ideia das psicanálises na altura, dos grandes autores, aquelas coisas que eu também tive na escola secundária quando tive psicologia e achava aquilo muito interessante. Achei que podia fazer esse curso que até era interessante para o teatro, mas foi difícil fazer um curso no ISPA ao mesmo tempo em que eu faltava as aulas, muitas. Tive várias turmas na faculdade, tenho duas ou três pessoas de referência, mas não tenho uma turma como a maior parte dos estudantes, que estão sempre na mesma turma do princípio ao fim, fica com um relacionamento muito profundo dessa fase da vida. Eu estava dividida. Depois ainda fiz outras peças, foi nessa altura que faço um curso de formação de Commedia dell'Arte, na Gulbenkian, onde o professor era o Filipe Crawford, o meu ex-marido. Daquilo criou-se uma companhia de teatro que se chamava Meia Preta, fundada por ele, por mim, pelo Joaquim Nicolau, pelo André Gago, pela Teresa Faria e pelo Eurico Lopes. Todos tínhamos feito aquela formação em técnica da máscara e, de repente, forma-se um grupo exatamente para trabalhar tudo o que tivesse a ver com a Commedia dell'Arte com a direção de Filipe Crawford. Depois, mais tarde, lá a relação começou e depois por aí fora durante algum tempo.

Qual é o momento enquanto estuda Psicologia,que percebe que este lado da Sexologia a aliciava? 

Acontece um bocadinho aleatoriamente porque na altura, apesar de achar piada ao curso, era um bocado aborrecido. Demasiado teórico. Onde é que está aquilo que eu imaginava? A relação com as pessoas, a clínica... No curso de cinco anos a clínica era mesmo só no último, eventualmente na metade do quarto ano quando se começava a fazer o estágio. Aquela parte toda era muito livros, desde estatística às teorias disto e daquilo. Pouco vivido, pouca relação. Acho que só me interesso efetivamente por seguir essa carreira eventualmente mesmo na fase final do curso, em que começo a ter a oportunidade de fazer estágio, assistir a consultas, fazer consultas ou mesmo nas aulas em que eram mais role-playing. Era isso que me entusiasmava imenso, percebi que eu era eminentemente mais prática e mais da relação.

A questão da sexologia surge porque um colega meu de turma vai a um congresso no Porto da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica. Vem entusiasmado, conta-me que tinha sido extraordinário e que tinha já decidido que ia fazer o estágio no Júlio de Matos, na consulta de sexologia. Eu segui-o porque ele foi tão entusiasmante na forma como me falou das pessoas que lá estavam, do Afonso Albuquerque que era o diretor da consulta naquela altura. Eu tinha que escolher e segui o Jorge na altura, pela forma como ele falou sobre o congresso. Não me arrependo, felizmente isso aconteceu, porque depois começo a perceber que me sinto à vontade a trabalhar dentro daquela área. Apesar de ser o tema da sexualidade, de ser bastante reservada e mesmo tímida durante a minha adolescência mesmo nesses assuntos, de repente estou perfeitamente à vontade a falar com as pessoas sobre a temática da sexualidade. Sinto que tenho uma ligação que não estou escandalizada, não sou crítica. As pessoas sentem-se bem na forma como vão comunicando comigo e eu começo-me a aperceber disso. Começa a dar-me uma sensação agradável em termos de área profissional. Depois fui investigar, estudar e fazer mais para que pudesse ser especializada nessa área. Mas foi um bocadinho ao caso.

Quando há a passagem do consultório para a televisão, como é que foi recebido o programa 'AB Sexo'?

Pelas pessoas em geral, acho que foi muito bem recebido. É um programa que estreia em 2005, portanto não havia redes sociais na altura, e que, naquela altura, houve uma audiência extrema. Acho que mais de metade da população que tinha televisão viu o programa inaugural, que era ainda por cima sobre sexo oral. As pessoas viram o programa de 2005 a 2007, acho que foi muito bem recebido. De repente não sabiam bem como reagir e depois a reação foi toda unânime, toda muito positiva. Temos reações positivas desde as escolas - do ensino básico quase, às secundárias e às universidades -, às igrejas, às freiras, às empresas. Há de repente as pessoas a apreciar, a forma como de alguma forma ia fazendo o programa. Uma forma leve, alegre, havia ali algum sentido de humor associado, pedagógica. Essa palavra "pedagógica" é muito importante na minha história de vida, científica, leve e desmistificante. A ideia era falar sobre os assuntos sem pudor, como se estivesse a apresentar uma receita culinária. A ideia era que as pessoas se sentissem à vontade. Lembro-me que efetivamente isso não foi logo, no primeiro programa até parto os meus óculos. Sou míope e não tinha óculos, portantofiz tudo sem óculos. Lembro-me que o programa foi uma hora e meia. Na altura, o Moniz disse: "Não, isto vai seguido, vai seguido, não há intervalo" e depois, quando vi a gravação, achei imensa piada porque as pessoas de facto faziam uns olhares de esguelha, atrapalhadas, ao ouvir-me falar de uma forma tão natural sobre a temática da sexualidade, que elas sabiam que estavam a ser filmadas também, mas não sabiam como reagir. Isso era constrangimento.

Existiram outros programas antes de fazer este programa, na altura eu tinha 35 anos, mas era o primeiro que era assim com esta leveza. Não era tão académico, não era um registo mais universitário. Era um registo mais de talk show. De alguma forma mobilizou muitas pessoas. As pessoas comunicaram imenso com o programa, muitos e-mails. Na altura era através dos e-mails, pessoas do país inteiro, perguntas às vezes muito simples que eu achava estranho que pessoas adultas ainda fizessem aquele género de perguntas tão simples que já deveriam estar justificadas ou já deviam ter pensado sobre isso. Foi muito interessante esta minha experiência. Houve uma segunda série em 2006 e as pessoas que me conheciam eram as que iam ao consultório. De repente, a Marta está em todo lado, há aqui um certo alarido da Marta, do jornalismo, dos programas. Era assim uma coisa estranha para o que acontecia, era um risco também para mim. Quando me apresentaram o programa, achei que não era capaz de fazer aquele programa.

Foi a Júlia Pinheiro que me convidou, porque o 'AB Sexo' era baseado num programa espanhol, e mostrou-me uns vídeos com uma espanhola a falar daquilo muito rapidamente, eu pensei: "Eu acho que não sou capaz de fazer isto, esta coisa toda, este salero e tal." Depois ela disse: "Não, Marta, leva aqui estes DVDs ou VHS", já não sei o que que era, "vê e depois decides". Assim foi, depois vi mais um ou dois e achei que era capaz de fazer. O que eu queria era ter a garantia que eu tratava dos conteúdos, ou seja, se eu fosse responsável pelos conteúdos tinha a certeza que não ia ser uma coisa esquisita. Na altura, na TVI, havia um programa muito estranho, já nem sei como é que se chama, mas era assim uma coisa muito horrível e as pessoas naquela altura achavam que aquilo podia ser preocupante. Avisei mesmo na altura na TVI, disse : "A partir do momento que vocês começam a querer mexer nos meus conteúdos, eu não faço o programa seguinte." Aquilo era em direto, não faço o programa. Disse isto várias vezes, porque era a única forma de eu controlar essa circunstância. Podiam escolher convidados - porque aquilo havia uma parte em que eu fazia uma entrevista -, podia haver nos slots das VTs - que eram coisas que era com piadas ou brincadeira -, tudo bem todas as sugestões, mas no conteúdo sou a pessoa mais capaz. Não havia mais ninguém aqui na equipa. Portanto, lamento: ou eu, ou eu. A coisa correu bem. Foram duas séries que foram muito bem vistas. Podia ter havido três, mas estas coisas às vezes têm um timing, nem sei porque continuava com imensas audiências e foi muito interessante. Foi uma experiência muito interessante.

Quando entra nesta experiência há a necessidade de adaptar a forma como comunica?

Era essa a minha dificuldade, porque eu falava no consultório de uma forma mesmo sendo consultas na área da sexologia ou terapia familiar - entretanto faço uma formação e sou psicoterapeuta nessa área. Quando digo que o primeiro programa era sobre sexo oral, mas eu falo sobre sexo anal, sobre tudo, e era descritivo. No primeiro programa aparecem imagens, a explicar às pessoas como é que se lava a vulva, como é que se lava o prepúcio, como é que se faz sexo oral, um felácio, um cunnilingus e há um pormenor... Costumo dizer isto muitas vezes: não é dizer o que sei que as outras pessoas não sabem, mas era para desmistificar. Quando se fala sobre as coisas, elas deixam de ser difíceis, de ser um problema, no fundo ficam diluídas. Ao falar de uma forma tranquila, também tranquilizava as pessoas relativamente às temáticas. Eu permitia às pessoas, através da minha tranquilidade, também serem tranquilos relativamente à temática da sexualidade, o que era interessante. Mas obviamente, eu tive que adaptar, porque eu não falava daquilo.

Como é que eu vou falar? O tom... Lembro que até foi um conselho do meu ex-marido na altura, pensar como se estivesse a fazer uma receita: mistura-se os ovos com a manteiga, depois mistura-se não sei o quê e a farinha, mexe-se tudo muito bem. Obviamente não é a mesma coisa, porque não foi assim que eu fiz o programa, mas foi uma referência de simplificação. Eu entrava, havia uma parte do programa que era formativa no sentido que tinha imagens e explicava as coisas, era ali a parte da aula. Depois as pessoas começavam a telefonar - eram mesmo chamadas que vinham para o programa, não sabia o que é que era antecipadamente, podia ser tudo. Tinha que responder e tinha que me desenrascar naquilo que fosse a pergunta. Depois voltava a ter uma parte mais teórica e tinha um convidado, era um momento um bocadinho mais levezinho, com uns brinquedos sexuais e tal. Depois começam a haver e-mails, que são escolhidos e também respondo. É um programa com muitas necessidades de mudança de postura do princípio ao fim. Portanto, não era um programa em que eu começava ali, meia hora já estava, era bastante exigente. Ainda por cima, em direto, se eu caísse escada abaixo, toda a gente iria comentar ou se me enganasse ou se me babasse. Ainda por cima a primeira vez que eu parto os óculos, acabo por assumir fazer sempre o programa sem óculos. O que me trazia uma certa vantagem, que era não ver a quantidade de pessoas no estúdio a trabalhar, porque aquilo tinha uma equipa enorme. Tive um privilégio imenso de fazer um programa com a melhor equipa que se possa desejar no mundo. Os técnicos, a makeup, cabelos, a minha editora Rosário, todas aquela equipa, todas as pessoas que trabalhavam comigo, ainda sou muito amiga delas. Eu fui lançada aos leões - porque quis, ninguém me obrigou. Aquilo era o mundo daquelas pessoas, elas sabiam o que era em termos de televisão, o que é que seria melhor para mim. Tive que confiar e acreditar.

Eu defendia-me naquilo que eram os conteúdos, mas depois no resto confiava bastante. Fiz uma aprendizagem tremenda com esta equipa muito grande e com isto tudo a acontecer, as pessoas muito entusiasmadas. De facto o programa estava a ter uma audiência extraordinária, as pessoas todas falavam do programa. Comecei as revistas, a ir a todo lado, no fundo e a ser chamada pelo país para falar nas escolas, os padres convidavam-me e, de repente, de facto, começo a percorrer o país de lés a lés, também à conta do programa, porque as pessoas queriam falar levemente sobre os temas da sexualidade.

Acaba por ter três programas em televisão em canais diferentes. 

Tem um logo a seguir o 'Aqui à Sexo', que era um programa no novo canal da TVI 24. É um programa menos interessante, sempre sentada num cadeirão a falar sobre um tema, depois as pessoas faziam telefonemas e eu respondia. Não adorei fazer esse programa. Houve ali algumas coisas e passei de uma produção extraordinária para uma coisa um bocado mais mixuruca e pouco cuidado, para dizer a verdade. Houve situações desagradáveis mesmo de pessoas que telefonaram para lá e não houve cuidado depois em algumas situações de perceberem que isso não poderia acontecer em direto.

Depois faço um programa da minha autoria, na SIC Mulher, que é o '100 Tabus', que é um programa que eu adorei fazer. Tive esta ideia de juntar grupos de pessoas de determinadas áreas: estrangeiros, taxistas, mulheres grávidas, mães, músicos. Era muito variado, toureiros, mulheres que trabalhavam na noite, o programa reunia pessoas desses grupos e era uma conversa com o tema. Era muito engraçado e teve bastante saída e impacto. Também teve duas séries ou três na SIC Mulher. Como tudo chega ao fim.

Mais tarde, acabaram por me convidar para substituir um dos elementos da equipa do '5 para a meia-noite' para fazer a quinta-feira com temática mais sexual. Entro num formato que já é pré-existente, a maior parte dos colegas naquela altura ou eram apresentadores ou eram humoristas e eu nunca me senti apresentadora. Era apresentadora porque falava do tema que era o meu tema, não sou uma apresentadora clássica. Não consigo apresentar um programa sobre carros, nem tortilhas ou os melhores sapatos para usar em Lisboa com a calçada portuguesa. Falava do tema que dominava. O '5 para a meia-noite' era um bocadinho arriscado, fugia a esse meu domínio porque havia ali uma necessidade de ter mais graça. Sempre usei o humor até mesmo na clínica, era uma coisa que para mim fazia sentido. Não foi forçar muito, mas era um formato que não era o meu, não era a minha zona de conforto. Acho que só no último programa é que me senti totalmente à vontade, mas achei piada. Estive a ver, porque entrevistei o Mário Zambujal e, infelizmente, ele faleceu, estava a procurar as imagens e descobri a nossa conversa exatamente num desses programas. Também foi a oportunidade de conhecer pessoas que também tinha imensa admiração, umas que não conhecia, outras passei a conhecer e outras já conhecia.

Foi bom ter um momento de conversa apesar de não ser uma entrevistadora clássica, porque sou psicóloga clínica e é essa a minha essência, sempre, em qualquer coisa que faça.

É interessante porque são programas diferentes, em canais diferentes. O público que tinha também ele era diferente? 

À medida que o tempo foi passando as coisas foram diferentes, em 2005, é a Marta por todo lado. A certa altura, começa a haver outros, não sei se havia muitos programas, já se falava de outra forma. Começa a haver redes sociais, começa a haver uma nova forma de estar nas relações... Há aqui uma grande evolução desde 2005, houve muita coisa que foi acontecendo e naturalmente os públicos iam sendo diferentes. Uma coisa era a novidade, depois era as pessoas habituaram-se, ouviram falar, não era já tão novidade. Sempre fui bastante acarinhada pelas pessoas, apesar dos públicos serem diferentes, porque tentei sempre balizar-me naquilo que achava que era a minha essência da clínica. Ou seja, como deve imaginar, naquela altura em 2005/2006 os convites que tive para fugir ao meu lado clínico ou apresentar-me em família, de aparecer nas revistas, muitos jornalistas e muitos fotógrafos queriam que estivesse a fazer poses deitada. Eu recusei-me a isso tudo. Portanto, limitei a minha vida privada ao máximo. As pessoas sabiam que tinha dois filhos, sabiam quem era na altura o meu marido, mas ninguém entrava em minha casa para fazer coisas, eu barrava isso. Assim como punha os óculos escuros para passar despercebida, também não queria expor a minha família, porque não era o desejo dele expô-los de uma forma que os condicionasse na vida. Mesmo assim levaram por tabela ter uma mãe que toda a gente falava, as pessoas conhecidas falavam muito disso porque estava muito badalada naquela altura.

Não fiquei fascinada com isto, continuei a ser como era. Se calhar, mais à vontade numas coisas, mas não mudei na minha essência. Não emprenhei pelos olhos pelo facto de aparecer na televisão, em todas as revistas e ser capa. Não, eu era igual. Foi uma posição inteligente da minha parte, porque me manteve sempre numa linha que era aquela que eu queria fazer, fosse livros - porque entretanto comecei a publicar -, fosse programas, fosse crónicas, fosse palestras. Havia sempre dentro de mim esse espírito de psicóloga clínica, que estou a trabalhar pedagogicamente em prol da outra pessoa. Não é só para aparecer, é acima de tudo para tentar esclarecer, desmistificar, para tornar mais leve, para chegar a outras pessoas, para dar informação generalizada, porque não havia em 2005. Houve um colega que era médico e uma vez no hospital, disse: "Ò Marta, mas é preciso dizer as coisas como a Marta diz, assim com tantos pormenores?" Nunca mais me esqueci desta frase. E eu disse: "Pois olhe, eu na clínica não faço isto. A pessoa faz?" "Não, não faço." "Alguém faz?" "Não." "Então se calhar, as pessoas precisam desse género de informações de esclarecimento, porque não têm onde perguntar. Se há uma psicóloga clínica que o está a fazer, com formação nesta área, com à vontade, então ainda bem que existe essa possibilidade de fazer. Portanto, não é um problema.

Não queria ser escandalosa, mas a ideia era desmistificar efetivamente. Acho que resultou, daí a aceitação tão generalizada das pessoas. Às vezes dizem-me coisas como: "Quero fazer uma consulta consigo." Ainda há pouco tempo tive essa experiência, quase que fico comovida, não é "Eu não queria fazer terapia de casal, mas depois, quando a minha mulher disse que era com a Marta, lembrei-me que quando eu tinha dezesseis anos e via o programa, que eu ficava fascinado, como era possível. Era reservada, tinha as minhas dificuldades da adolescência", isto era um rapaz, "e de repente, vejo aquela pessoa a falar de uma forma tão calma, tão tranquila, bem disposta. Não queria fazer terapia de casal, mas quando me disse que era a Marta, eu disse logo que sim." Pronto, é engraçado, isto foi uma coisa bastante recente, houve ali uma geração que viu o programa da adolescência, a minha filha tinha catorze anos na altura, as amiguinhas todas viam e todas elas no dia a seguir telefonavam e tinham dúvidas, houve ali uma faixa que bebeu muito disto. Os mais velhos também, os pais, eventualmente, portanto é engraçado.

Os livros e as crónicas são um espaço diferente, a linguagem muda sempre face ao espaço que está?

Os meus livros eram bastante explicadinhos. O primeiro é o 'Sexo Sem Tabus' - tem sempre uma parte para eles, depois uma para elas - e vai falando tudo, como é que é, desde o corpo, como é que se faz sexo, como é que se faz. Era quase como se eu estivesse a fazer o programa, a ideia era ser um livro para todas as pessoas, direto e sem teorias. O livro tinha poucas teorias, só nos quadradinhos para chamar a atenção, uma janela, mas era muito direto. O outro a seguir também, 'Viver o Sexo com Prazer', era um guia para a sexualidade feminina, e o terceiro, era também dirigido às mulheres, 'Diário Sexual'.

O segundo era também muito explicadinho, mas com temas importantes: a IVG, temas da ginecologia, uma série de coisas que era muito interessantes... Quer dizer, em 2007 é a IVG, é segundo o referendo da legalização do aborto.Também tive em campanha nessa altura, fui convidada e andei aí em debates, foi um marco extremamente importante em 2007, quando se conseguiu que as pessoas, as mulheres pudessem recorrer à IVG até às dez semanas de uma forma cuidada, tendo em conta a saúde, devido ao histórico. Muitas mulheres tinham morrido ou tinham perdido a possibilidade até de engravidar noutras ocasiões, à conta de abortos em vão de escada. Era uma coisa terrível e foi uma vitória tremenda.Fico orgulhosa de ter participado nas campanhas, andei a distribuir folhetos e era uma coisa que fiquei contente de me terem convidado a participar. Estava lá no dia da Vitória a fazer discurso com o Duarte Vilar da APF, fizemos um discurso da vitória os dois.

Tocou agora na IVG, não é única causa que apoiou, até porque a Marta também está ligada atualmente a uma rede de apoio para mulheres afegãs. O que a leva a começar estes projetos?

Acho que aqui há duas vertentes. Uma coisa que tem a ver com esta área da saúde sexual reprodutiva. Quando era coordenadora da Comissão do Dia Mundial da Saúde Sexual, lutei, fiz várias campanhas de esclarecimento, o que é que era isto da saúde sexual e a importância. Conseguimos em Portugal ter o Dia Nacional da Saúde Sexual. É o único país do mundo em que foi atribuído no Parlamento. Contactámos a Isabel Moreira na altura que nos ajudou. A nossa comissão fez esse empurrão e por unanimidade conseguimos a criação do Dia Nacional da Saúde Sexual que é comemorado no dia 4 de Setembro.Éo único país desde 2021. É uma coisa muito impactante e eu estive muito envolvida nisso e fico muito contente pelo meu esforço ter chegado a esse ponto. Quando acredito muito nas coisas levo tudo à frente. A questão do 'Museu Pedagógico do Sexo' surge porque eu tive uma epifania, por acaso. Vinha inspirada de um evento e, de repente, aquilo surgiu-me quase num sonho. Aquilo é o que eu tenho de fazer. Depois sou um bocadinho obsessiva. Tenho de fazer, tenho de conseguir, vou atrás. É um bocadinho por paixões. O desafio de ser difícil também me ajuda a ir em frente, se fosse muito fácil se calhar não dava tanta relevância. Há qualquer coisa em mim que me dá pica a dificuldade. A primeira exposição que faço no MUSEX, é 12 anos depois de ter pensado neste museu.

Voltando a outras missões em que estive envolvida. A rede é um bocadinho diferente, em 2021 quando os talibãs tomam o poder em Cabul e no Afeganistão. Vejo aquelas imagens e o que está a acontecer, o que é que isso representa pras mulheres, porque na altura os talibãs dissessem que haveria muito mais apoio às mulheres, igualdade. Quando se começa a ver aquela agonia em tudo, era uma coisa mesmo muito física pra mim. Digo: "Mas o que é que eu vou fazer? Eu tenho que fazer qualquer coisa." Mandava mensagens a pessoas: "O que é que nós podemos fazer?" "Ah, não podemos fazer nada, é tão distante, é tão longe". Acontece que participo numa publicação de alguém que tinha entrevistado uma espanhola que tinha ajudado a vir uma afegã. Aquilo para mim era sobre liberdade, só seremos livres quando todas as mulheres forem livres, estava muito imbuída nesta coisa, mas o que é que eu posso fazer? Eu, esta formiguinha aqui em Portugal, estava-me a angustiar. Decido falar com esta rapariga espanhola, a Laila, pergunto: "Como é que tu fizeste?" "Olha, não sei, nunca tinha feito isso na minha vida, comecei a mandar mensagens às pessoas a tentar fazer uma rede. Começa a mandar mensagens às pessoas." Foi isso que fiz. Comecei a mandar mensagens e foi na base destas mensagens - algumas de Instagram - que comecei a chegar a mais pessoas. Uma dizia à outra, a outra dizia à outra. Chega aos serviços do MNEM, o que é que é preciso fazer. A Laila começa-me a mandar casos de mulheres. As mulheres depois começam-me a mandar e-mails diretos a pedir ajuda para entrar no país, as famílias. Era preciso dinheiro para pagar às pessoas que estavam no Paquistão. Começo a ficar completamente apaixonada no sentido de obsessão, como é que eu vou salvar mulheres. Foi mesmo assim, um bocadinho obsessivo, durante meses quase que não dormia a pensar como é que ajudo.

Há uma mulher em particular, que é uma rapariga que foge para o Irão. A Marmar é jornalista e chega a mim, estou a tentar ajudá-la e percebemos que percebemos que ela teve de fugir sem nada, completamente sozinha, deixou a família, está numa situação muito frágil. Há ali uma situação que achamos que podia ter havido algum tipo de abuso. Já tinha um contato com, a Cláudia Mendes Silva, que também é muito prática comigo. Fizemos uma aliança, as duas, muito forte nisto de tentar arranjar recursos, cada uma à sua maneira, juntávamos e apoiávamos muito. Conseguimos pô-la num hotel, numa cidade do Irão, que já não me recordo qual é que era. Era a única forma de dar segurança de não ser maltratada. Então, pagamos do nosso bolso uma estadia e depois uma refeição, porque à distância a única coisa que a gente podia fazer era através daquelas plataformas de hotéis conseguir fazer um pagamento. Ela vai, mas não tem conta no Irão, está numa situação completamente vulnerável. Começar a ajudá-la, porque ela está extremamente deprimida, o meu lado clínico a tentar por mensagens. Conseguimos depois pô-la em Teerão e conseguimos o milagre de Portugal aceitar aquela viagem. Ainda paguei não sei quantos hotéis. Fui eu que paguei a viagem dela para Portugal do meu bolso, porque o governo não pagava. Acolhia como refugiada, mas não pagava despesas nenhumas. Depois a embaixada em Teerão ainda me apresentou, passado um mês ou dois, a conta do visto e do teste do Covid. Já tinha gasto bastante dinheiro à conta disto, mas para mim era impossível não ajudar, havia montes de mulheres para ajudar, mas aquela conhecia desta maneira. A Marmar vem para Portugal e decide ir para Alemanha. Tudo bem, as pessoas estavam livres, podiam fazer o seu percurso.

A partir daí continuei a ajudar, mas de uma forma menos emocional, menos particular. Arranjei empresas para pagar as estadias, viagens e há famílias que vieram para Portugal. A coisa de ir buscar as pessoas ao aeroporto e estar lá no momento que chegam é muito comovente. O meu trabalho era quando estavam em situação de perigo iminente de ajudar e arranjar as conexões com o Ministério dos Negócios Estrangeiros na altura, do que propriamente depois acompanhar a instalação no país. Aí eu desligava, porque havia outras para trazer. Recebi muitos e-mails, muitas mensagens, fotografias horríveis de acontecimentos que estavam a acontecer em Cabul, de mortes e vídeos deles a fugir. As pessoas mandavam tudo pelos telemóveis. Estava ligada às pessoas aqui que eram os meus contatos, mas também espanhóis, ingleses, australianos. As pessoas iam aparecendo, tudo muito disponível para ajudar e para salvar estas mulheres. É um contexto diferente das outras coisas porque isto é muito sufocante no sentido de estarmos a lidar com uma situação que só pode correr mal, porque tem tudo para correr mal e queremos muito que corra bem. É muito estressante, de tal forma que eu tive que me afastar. Estamos a falar de 2021. Logo a seguir, em 2022, começa a guerra da Ucrânia, as coisas para os afegãos ficam para trás. De repente, há uma guerra nova, mais próxima da Europa e com mais atenção. Desliguei-me e depois tive que me dedicar à exposição e acabei por não voltar.

Neste momento, estou outra vez a passar por uma história parecida com esta da Marmar. Em 2024, começo a receber mensagens da Nazira. Manda-me uma série de e-mails até eu aceder, até sentir que emocionalmente podia ajudá-la, porque eu não queria voltar aquele stress todo que tinha vivido. Ela diz-me: "Eu, mesmo antes de saber quem é a Marta, já tinha ouvido falar de uma pessoa em Portugal que tinha ajudado muitas mulheres". Portanto, havia na comunidade afegã destas pessoas o meu nome, o meu e-mail. Começo a tentar perceber como é que era agora. Escrevo para a Ministra da Presidência, que diz que era a AIMA, começo a falar com uma técnica da AIMA. Era a Nazira e a família, sete pessoas. Ela da etnia Hazara - muito mal tratada pelos talibãs, acham que são pessoas que não interessam, é uma minoria desprezível - muitas vezes raptam os rapazes para  escravatura sexual, chamam-lhe as noivas, das mulheres o que sabemos. Não há grandes hipóteses. A Nazira é jornalista, trabalha numa rádio do Norte do Afeganistão, onde ajuda muitas mulheres e faz alfabetização de mulheres mais velhas. Ela passa a estar na lista dos talibãs e quando tomam o poder, ela é um alvo. A rádio é incendiada, há colegas mortos e ela tem que fugir. A família também porque tem um irmão mais novo adolescente, há um risco grande dos talibãs de quererem raptar e quererem eventualmente abusar e fazer dele aquilo que fizeram com muitos rapazes de Hazara.

É uma coisa chocante. Ela foge com a família ara o Irão, na perspectiva de depois ir para um país terceiro. Desde 2021 estão a tentar sair e não conseguem. Apanham-me a mim, começo a envolver-me e a tentar ajudar a fazer a rede. Aqui disseram-me que só podiam vir se eu arranjasse dinheiro para pagar as viagens, os vistos, todas as despesas de transferência, garantisse que eles tivessem entrado no Irão legalmente com visto - que tinham entrado -, que os passaportes tivessem em condições e que arranjasse uma instituição de acolhimento cá em Portugal que os recebesse durante um ano e fizesse a instalação para eles viveremcom autonomia em Portugal. Andei de volta disso imensos meses a tentar. Já consegui que fosse a JRS, o Serviço Jesuíta a Refugiados, mas depois não havia dinheiro. A AIMA deveria ter dado dinheiro, porque era isso que estava decidido na lei dos refugiados na Comunidade Europeia, não fez nada. Houve aqui uma alteração no governo, não têm sido favorável às questões da imigração, mas os refugiados seria sempre uma coisa diferente porque era uma necessidade. O primeiro e-mail oficial que faço é em abril de 2025. Estamos em abril de 2026 e conseguimos uma engenharia humanitária extraordinária. Em setembro, decido como não há dinheiro, que era expectável que viesse da AIMA, faço um crowdfunding no GoFundMe para a solidariedade portuguesa. Temos 799 a fazerem doações, um valor de 21.600€ que depois é taxado pela plataforma, mas foi o recolhido para ajudar a JRS que precisava de um valor mais alto que isto. Na altura tinha feito um orçamento de 100.000€ , estava a tentar conseguir esse dinheiro porque se a JRS tivesse capacidade financeira para receber estas famílias, então era tudo muito mais rápido. Começo a desesperar em novembro e pensar: "Isto nunca mais enche o Oceano. Como é que vamos fazer?" Nisto aparece uma associação internacional, uma ONG, que também estava a tentar ajudar famílias no Kosovo, também afegãs, e que precisava de um país terceiro porque no Kosovo não têm aquele acordo de Genebra - as pessoas são devolvidas ao país agressor. Falam com a JRS e chegam à conclusão que podem apoiar e que os doadores dessa organização pagariam tudo. Pagariam às famílias, que eram nove que queriam trazer, depois a JRS fala desta tentativa de trazer esta família e percebe que eles podiam também apoiar no que faltava. Conseguimos uma coisa extraordinária, engenharia maravilhosa de conseguir efetivamente ajudar estas famílias com uma instituição. Havia um centro na Vendas Novas, iriam fazer o acolhimento e depois a instalação até a autonomização - que quer dizer que as pessoas vão ter capacidade de pagar suas casas,  de trabalhar e, não são propriamente pessoas que vão viver à conta de subsídios. É mesmo o objetivo de haver estas instituições que fazem este trabalho, é conseguir que estas pessoas depois entrem no mercado também e que sejam autónomas, tenham a sua vida digna, sem sofrimento, e sem medo de morrer. Conseguimos isto no princípio de dezembro, há uma euforia de todas as pessoas, finalmente já tinha comunicado com a Nazira: "Vamos conseguir, vamos conseguir".  Nisto, o governo tira-nos o tapete. Há uma reunião com a JRS com um serviço do Ministério da Presidência: "Não estamos interessados em afegãos". Passado pouco tempo recebo um e-mail da AIMA, da técnica, que tinha sido sempre muito impecável em tudo, a dizer: "Lamentamos, mas neste momento não podemos receber." Foi um choque tremendo, porque durante estes meses todos estivemos a dar esperança a estas pessoas. A família da Nazira, em junho desse ano, o irmão que vivia com ela mais a mulher e os primos tinham sido deportados por causa de um problema dos passaportes. Estavam em Cabul e estava a tentar conseguir trazê-los de Cabulo para o Irão, que era dificílimo, mas houve ali uma janela de oportunidade e depois trazê-los todos em conjunto do Irão pra cá.

Não houve vontade política para que isto acontecesse. Foi mesmo uma coisa muito trágica para mim, para família, acima de tudo. Mas não desisti.

Como foi criado o MUSEX? 

Pensei num museu inicialmente, que era para todas as pessoas em simultâneo, onde pudessem estar crianças, jovens e adultos, em que houvesse a temática da sexualidade em geral. A ciência dentro do museu, que houvesse clínica, que houvesse uma presença da comunidade, sempre um trabalho para comunidade que me importa, educação sexual para todas as idades. Era esse o meu grande propósito, onde houvesse também investigação científica associada sempre ao museu. Era um museu com várias facetas e também era um pensamento bastante megalómano que eu fui tendo, daí se calhar não ter conseguido criar o museu mais cedo, porque achava sempre que tinha de ter tudo. De 2020 para 2021, tenho que agradecer o Isaltino Morais que ficou entusiasmado com a ideia do museu, mas depois transformou-se em "vamos fazer primeiro uma exposição, depois logo vamos ver se há museu ou não". Pede-me para pensar numa exposição. 

Eu como as coisas têm sempre muito a ver com a clínica e já tinha tido tantas mulheres, tantos casais, o tema do prazer sexual feminino era uma coisa tão importante em toda a minha vida que eu queria trazer isso para exposição. Portanto, uma exposição de arte contemporânea com obras de arte de artistas muito conhecidos, desde a Bourgeois à Paula Rego, à Fragateiro, à Sofia Lawrence, muitas artistas portuguesas e estrangeiros. Queria apresentar uma exposição que fosse esta ideia de um percurso, entrar dentro do edifício, que representava um corpo feminino, e que ao entrar houvesse ali duas portas em que as pessoas tinham que escolher entrar com ou sem consentimento, que era também uma temática muito importante para mim - o sexo com consentimento, mesmo nas relações conjugais. Haver sexo porque os dois querem e não porque um insiste sobre o outro. A ideia era que quando havia um consentimento, havia toda uma viagem ao prazer sexual feminino e aí a exposição tinha três partes: uma primeira parte que era dedicada ao cérebro que é o principal órgão sexual, uma segunda que tinha a ver com o corpo e com a pele que é o maior órgão sexual e depois dar relevo ao clitóris - que era o único órgão que tem como função dar prazer. Depois, quem escolhia não entrar com consentimento passava por um lado que tinha a ver com violência sexual contra as mulheres. Tinha obras mais pesadas, o ambiente era mais escuro, haviam obras feitas - por exemplo, a Ana Rocha de Souza fez um filme muito pesado sobre os vários tipos de violência sexual. A ideia era que as pessoas tivessem estas duas experiências diferentes e pudessem ver depois a outra. À saída desta viagem ao prazer sexual levavam um manifesto sobre o que é que é isto do consentimento, a importância de sexo desejado. As pessoas que saíam do lado da experiência de violência tinham um manifesto sobre violência, crime, agressão e abuso sexual para esclarecer bem o que é que é uma coisa e o que é que é outra, o significado de ambas. As pessoas podiam levar aquilo para casa, até tinha uma imagem de uma artista que era a Isabel Barones, que tinha duas imagens artísticas nesse folheto.

Era muito interessante toda esta exposição e ir buscar artistas, no fundo, que contavam esta história que eu queria contar. Muitos deles apareceram lá porque achava que representava o "sexto sentido" na curadoria que se ia fazendo, havia coisas que encaixavam exatamente na narrativa que nós queríamos contar. Foi muito interessante. Foi um investimento bastante alto por parte do município de Oeiras, mas sem ele não seria possível ter aquelas pessoas espetaculares, com aquela cenografia feita pelos especialistas, foi muito impactante. Tivemos nove meses, terminou dia oito de março de 2023. Tivemos mais de 300 ações relacionadas com a própria exposição, workshops, debates, conversas, coisas sempre relacionadas ou com a arte, o prazer sexual ou a violência, com as associações e tudo. Muita gente participou naquela exposição, muitas visitas orientadas desde o primeiro ciclo até aos seniores. Foi muito interessante porque para além disso, também conseguimos fazer estudo científico associado a várias universidades e ter dentro do próprio museu consultas de sexologia e terapia de casal em parceria com a APF. 

Ainda há essa vontade de passar a exposição a um espaço físico permanente? 

Na altura, queria muito um espaço físico. Depois esta experiência de exposição deu uma ideia um bocadinho diferente. Não preciso dos objetos, não preciso do espaço. "Ah, isto é meu, sou eu a dona do museu, ah." Não tenho esse perfil. Pensei: "O que é que me dá gozo?" Foi criar isto, ter a ideia, trazer, juntar, fazer. É isso que eu quero, não vou à procura dee um edifício para montar um MUSEX. Vou considerar o MUSEX, um museu conceito, com estas características clínicas, pedagógicas, viradas para a comunidade, para as universidades, fazer estas agressões.

Vou fazer exposições quando quiser, não passar a ser gestora de secretária. Estou a pensar em duas exposições, uma que é um bocadinho megalómana, mas tem a ver com os direitos sexuais das mulheres e outra menos , mas que é mais fácil com alguma rapidez de pô-la em prática e que também era uma exposição que queria fazer antes, até mesmo de ter feito o 'Amor Veneris'.

Não sinto que tenha que provar nada a ninguém, não faço parte de instituições, nunca fiz. Quer dizer fiz, mas temporária, até como voluntária. Tudo o que eu fiz, por exemplo, na Sociedade Portuguesa de Sexologia foi como voluntária. Para a Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar fui como voluntária. Fui muito voluntária a fazer coisas, não é por isso que fiz pior. Acho que isso dava-me bastante gozo conseguir coisas para as instituições. Estou com essa liberdade, neste momento, de fazer o que eu quiser. Acima de tudo, faço uma coisa que me dá muito gosto que é a clínica e vou fazendo as coisas como quiser . 

A sexualidade ainda é um tabu na sociedade portuguesa? 

Acho que ainda continua a ser de várias maneiras. Acha-se que já não há tabus com a quantidade de informação a que toda a gente tem acesso. É uma ideia general. Agora toda a gente vê nas redes, a pornografia está dispersa... O que é certo é que a clínica não nos diz isso. Há muitos tabus e as pessoas são, de facto, uma construção daquilo das suas famílias muitas vezes. São filhas e netas de alguém. Têm as reservas, preconceitos e as ideias muitas vezes, lá para trás. Com isso não quer dizer que sejam más, acho é que as pessoas depois verbalizam pouco ou têm receio de discutir. Ou então são muito afirmativas no sentido: "Vamos todos ser radicais, agora fazemos..." Mas depois, vejo na clínica que existe uma coisa que se diz e às vezes aquilo que se é, entre aquilo que se diz e o que se é, há uma lacuna e um sofrimento bastante grande. Continuo a achar que há. Também vejo casais de tenra idade que têm ideias muito parecidas com a minha avó, que era muito religiosa.

Mudou muito, sim. É mais permitido, as mulheres têm mais liberdade, podem escolher o prazer e ter prazer, não é preciso ser no casamento. Tudo extraordinário nestes avanços, mas também houve muitos recuos. Esta coisa da sexualidade tem muitos altos e baixos. Nós estamos a ver uma sociedade e miúdos mais jovens com discursos muito misóginos, muito doentios. Ainda agora assistimos uma cena no Brasil de violência coletiva contra uma rapariga. A masculinidade. São rapazes inseguros. Rapazes que fazem aquilo que todos os homens violentos fizeram. Como não tinham argumentos, tinham que usar a agressividade e a força física para abater o outro género. Nós temos que estar sempre numa posição de falar sobre estas coisas.

Não dá pra descansar. Falámos da IVG, quando a exposição inaugurou, nesse mesmo dia nos Estados Unidos tinha regredido a Lei do Aborto. Isto não é uma coisa que dá para descansar, tem que se estar alerta. As coisas estão um bocadinho radicalizadas. Tem de haver um discurso menos radical para tudo para conseguirmos encontrar um outro caminho. É um esforço sempre, estar sempre em campanha, sempre a ajudar. Às vezes, sai do pelo. É bom que haja muita gente a fazer e a falar, a defender a educação e a saúde sexual, os direitos das mulheres, os direitos das minorias e por aqui a fora.

De facto, parece que está tudo feito e que já estamos em 2026, que supostamente já conquistamos tudo, mas estamos a ver. Vemos pelo mundo o estado em que as coisas estão.

Esta entrevista faz parte do Podcast 'Revolucionárias' que pode ouvir no site da rádio, no Rayo ou nas plataformas de podcast.