Marta Martínez Novoa: "Confundimos bondade - especialmente nas mulheres - com ser submissa, dócil e sempre agradável"
A psicóloga e autora do livro "Ser Sempre a Boazinha Cansa" admite que as mulheres são mais vulneráveis a pôr-se em segundo plano
Muitas mulheres põem a família, as relações, o trabalho e as responsabilidades de "cuidado" em primeiro lugar.
Num dia com as horas contadas pode estar a deixar-se constantemente em segundo plano. Se sente que este é o seu caso nada tema: Marta Martínez Novoa, psicóloga e autora do livro "Ser Sempre a Boazinha Cansa", explica quais os "sintomas" que podem ser identificados no nosso dia a dia para que se possa mudar o padrão.
Quando uma mulher segue o padrão de estar em segundo plano, é fácil de identificar?
Não é assim tão fácil. Isto tem acontecido muito em Espanha, e acredito que também em Portugal, porque temos uma cultura bastante semelhante. Há muitas normas sociais no dia a dia que fazem com que as mulheres sintam que são melhores quando são doces, sorridentes, agradáveis, amáveis. Portanto, é difícil encarar como um problema algo que a sociedade está constantemente a reforçar como positivo.
Não é fácil de identificar, mas muitas vezes o que vemos em consulta não são apenas os sintomas que mencionei antes. É o cansaço, a culpa em relação a tudo, muita raiva reprimida. Associamos isso a esta necessidade de agradar e percebemos: afinal, talvez não seja assim tão bom ser sempre tão submissa, tão dócil, tão “boa”.
O que podem as pessoas fazer para identificar e começar a mudar esses pequenos hábitos?
Em primeiro lugar, diria que a melhor forma de identificar é perceber se estás constantemente cansada a nível mental e emocional, se sentes que estás sempre a reprimir a irritação até ao ponto de explodires por algo insignificante, se percebes que nunca há espaço para ti na tua própria vida - que nunca és a protagonista da tua vida - então há um problema.
Depois, o que fazer? Proponho sempre um primeiro passo que, apesar de não levar diretamente ao resultado final, ajuda a sair do ponto onde se está: aprender a ouvir-se a si própria. Um exercício simples: dedicar 10 a 15 minutos por dia para estar sozinha e perguntar sinceramente “Como estou? Como me sinto realmente? O que preciso? Há algo na minha vida que me incomoda? O que está a correr bem?”. Parece simples, mas raramente paramos para fazer isto.
Ajuda muito, pelo menos, numa coisa essencial: reconhecer aquilo de que eu preciso, algo que muitas vezes fica completamente em segundo plano.
Quais são os primeiros passos para mudar, pouco a pouco, esse comportamento?
Primeiro, o treino de autoescuta: perceber o que eu quero e o que eu preciso.
O passo seguinte é perceber se estou a conseguir ser eu própria nas minhas relações. Ou seja, se essas necessidades que identifiquei estão presentes na minha relação amorosa, na família, com amigos.
Se perceber que não, terei de começar a fazer algo difícil, mas essencial: estabelecer limites. Aprender a dizer “não”, primeiro em pequenas situações e, mais tarde, em situações maiores. Só isso já é uma excelente forma de começar a quebrar este padrão.
Ser “boazinha” não é mau em si, o problema né quando isso ultrapassa o limite.
Exatamente. O problema não é a bondade, claro que não.
Num mundo como o nosso, queremos que as pessoas sejam boas. Mas, por vezes, confundimos bondade - especialmente nas mulheres - com ser submissa, dócil e sempre agradável. É importante perceber que podemos ser boas e ao mesmo tempo dizer “não”, expressar as nossas necessidades, estabelecer limites e dar prioridade a nós próprias de vez em quando.
Esse é o grande passo que ainda nos falta dar.
Como psicóloga, acha que este problema tem vindo a aumentar?
Estamos num momento complexo.
Por um lado, parece que certos discursos mais conservadores em relação às mulheres estão a regressar. Ideias como “senta-te como uma senhora”, “não faças barulho”, “fica tranquila em casa”. Isso está, infelizmente, a voltar a ganhar visibilidade. Mas, por outro lado, também houve avanços, como o feminismo, que têm ajudado a trazer esta questão para o debate. Hoje temos mais consciência de que há muitas formas de ser mulher e muitas formas de ser “boa”.
Vivemos uma espécie de dualidade. Temos por um lado as conquistas da igualdade, por outro um crescimento do conservadorismo.
Exatamente. Por isso, é fundamental continuarmos a falar sobre estes temas, para não perdermos tudo o que foi conquistado ao longo de tantos anos.
O problema afeta mais do que uma geração?
Foi curioso: quando escrevi o livro, pensei num público entre os 25 e os 40 anos. Mas, quando comecei a fazer apresentações, apareceram mulheres de todas as idades: 60, 70 até 80 anos. Muitas disseram-me que só então perceberam que isto também lhes acontecia, sempre o tinham visto como algo normal.
Se isso já acontece nas gerações mais novas, imagine nas mais antigas. A boa notícia é que todas podemos trabalhar isto, em qualquer idade.
É mais difícil para as mulheres mais velhas reconhecerem isto como um problema?
A educação das gerações mais velhas era muito baseada na ideia de que a mulher devia calar-se, não se queixar. Por isso, é mais difícil perceberem que pode ser um problema — sobretudo quando está em excesso.
Lembro-me de uma senhora dizer-me: “Mas eu gosto de cozinhar para toda a família”. E isso é ótimo se a faz feliz. O problema não é cuidar dos outros, é quando deixamos de ter espaço para nós próprias e vivemos exaustas por colocar sempre os outros em primeiro lugar.
É um problema universal?
Foi algo que me surpreendeu. Quando o livro começou a ser publicado em países tão diferentes - Portugal, Brasil, Japão, Estados Unidos - percebi que era, de facto, um fenómeno global. Mesmo em culturas muito distintas, as mulheres continuam a ser pressionadas por estes mesmos padrões.
Espero que, pouco a pouco, consigamos quebrá-los.
O livro "Ser sempre a boazinha cansa" já chegou às livrarias portuguesas.
