Matilda sobre álbum de estreia: "é uma carta aberta sobre quem eu sou"

Entrevista à cantora que a 28 de maio vai apresentar o disco no espaço Gracinha, em Lisboa.

A cantora e compositora portuguesa Matilda editou na sexta-feira (22 de maio) o álbum de estreia ao qual deu o nome "De Corpo Inteiro".

"Depois de um ano a desvendar, single a single, o universo emocional que a habita, a artista apresenta finalmente o trabalho completo, um álbum de pop e R&B íntimo, corajoso e profundamente pessoal", conta o comunicado de imprensa sobre o disco. 

MATILDA, neta do histórico Carlos do Carmo, cresceu "rodeada de música e arte, influenciada por uma família com uma ligação profunda à cultura portuguesa. Longe de se deixar paralisar por essa herança, a artista encontrou nela inspiração para construir um caminho radicalmente seu, após uma jornada de autodescoberta e superação de desafios pessoais que se reflete em cada faixa deste álbum", acrescenta a nota.

"De Corpo Inteiro" vai ser apresentado ao vivo pela primeira vez no dia 28 de maio, no espaço Gracinha, em Lisboa. 

Entrevista completa a Matilda

Antes de metermos o foco no teu disco de estreia, vou ter de perguntar como foi crescer com um avô como o Carlos do Carmo… 

Tenho a sorte de ter crescido rodeada de artistas. E o privilégio de ter estado ao lado de pessoas como ele e como os amigos dele. Mas, para mim, foi crescer como se cresce com qualquer avô. O meu avô era o melhor do mundo. Era o meu melhor amigo. Falávamos todos os dias. E o que eu sinto é a falta do meu avô.  

Claro.

E não do meu avô do fado. Mas, claro, que sinto falta de ouvi-lo a cantar. Acho que toda a gente sente. Mas, graças a Deus, podemos ouvir o meu avô cantar sempre que quisermos.  

Sei que quando tinhas 12 anos cantaste com ele, certo? 

É verdade. Quando tinha doze anos cantei com ele no Cruzeiro do Fado. Não fui propriamente cantar com ele. O meu avô é que me chamou ao palco a meio de um concerto. 

Não sabias que isso ia acontecer?

Não. Eu tinha implorado para que acontecesse mas achava que não ia acontecer. E, de repente, o meu avô chamou-me. E cantei o fado com ele. Na verdade, o meu avô ficou calado porque pedi-lhe para cantar um fado da Mariza. Nem sequer foi um fado dele. Cantei o 'Rosa Branca'. Foi muito giro. 

Ele deve ter ficado babado, orgulhoso…

Sim, ficou. No final do concerto as pessoas foram pedir autógrafos ao meu avô e eu aproveitei o momento para também dar alguns. (risos)

Certamente que recebeste muitos conselhos do teu avô em relação à escolha da música como profissão...   

Sim. Ele disse-me sempre para ter calma e para fazê-lo quando apenas quando estivesse pronta para trazer a minha verdade para a arte e para a música. E foi precisamente o que fiz. Por isso, é que esperei tanto tempo para fazer este álbum. Deu-me conselhos que ficam e espero que se notem na minha música. Disse-me para cantar com intensidade emocional e para ter cuidado com as palavras. São duas coisas que vou levar comigo sempre, claro. 

Quando é que disseste a ti própria que ias mesmo seguir o caminho da música?  

Cantar é uma necessidade. Tentei não seguir este caminho, mas foi maior que eu. A música chamou-me. Precisava mesmo de fazer este álbum e de dar este passo. Precisava de deitar cá para fora tudo o que tinha de sair. Este projeto foi uma viagem enorme de autoconhecimento. Acho que o ponto de viragem teve mais a ver com a minha maturidade e com a capacidade de assumir isso.

Começaste a tocar guitarra e piano aos 14 anos, certo?

Já toco piano desde os cinco, seis anos. Mas não sou pianista. (risos). Toquei piano durante muito tempo e depois por volta dos 14 anos comecei a aprender a tocar guitarra. Mas isso aconteceu porque nessa altura eu e a minha irmã mais velha, que também canta, andávamos a cantar em bares e em discotecas. Como era a minha irmã que tocava, eu queria ser mais independente. Então, tentei aprender. Mas percebi que a voz é que era o meu espaço. E era giro porque nós íamos atuar em sítios nos quais nem tinha idade para entrar. Eu cantava mas logo depois tinha de me ir embora porque não me deixavam ficar ali. 

Mas isso dá alguma estaleca. O que é que aprendeste com a experiência? 

Aprendi, por exemplo, que os públicos são todos diferentes. (…) Cantámos em sítios inimagináveis. Aprendi sobretudo sobre o público mas também aprendi alguma coisa sobre os palcos. O meu maior show foi no BBC. (risos) Mas essencialmente aprendi sobre o público e um pouco sobre o palco. 

Porque é um contacto muito próximo… 

Muito próximo. O concerto no [bar em Lisboa] BBC foi espetacular. Estava completamente cheio, esgotado. Eu e a minha irmã ficámos mesmo muito felizes. Eu era uma miúda. Tinha apenas 15 anos. 

Mas, entretanto, algo aconteceu e acabaste por seguir jornalismo… 

Não aconteceu nada em especial. Eu sempre adorei estudar. Adoro ler, adoro escrever. E também adoro câmaras. E como ainda receava dar o passo na música achei que o jornalismo juntava tudo. Decidi aventurar-me. Até porque a minha família sempre me disse que não havia pressa em fazer música. Sempre me disseram que mais valia acabar os estudos para ter alguma estabilidade. Como sempre adorei estudar, não foi muito complicado fazer isso. Mas quando comecei a trabalhar foi mais difícil continuar a resistir [à música]. Foi nessa altura que tomei a decisão [de voltar à música]. Foi uma decisão que demorou a ser tomada mas veio com tudo. Agora já não largo. 

O teu disco chama-se "De Corpo Inteiro". O que é que é significa para ti? 

Este título significa a minha entrega de corpo inteiro a este projeto e às letras que escrevi ou coescrevi. É um álbum muito íntimo que fala sobre a minha evolução como pessoa. Fala sobre uma viagem de autoconhecimento. Chama-se "De Corpo Inteiro" porque acho que as pessoas vão conhecer-me de corpo inteiro. Vão conhecer as minhas fraquezas, a minha força e os meus sonhos. Se escutarem o álbum todo de seguida, e espero que o façam, creio que vão ficar a conhecer-me melhor. Gostaria que isso acontecesse. Quero dar-me a conhecer. Quero mostrar o meu universo, quem sou, quem é a Matilda. Quero dizer que vim para ficar, de corpo inteiro.  


Sendo um disco tão íntimo, como foi criar as atmosferas musicais para cada canção? 

Acho que aconteceu tudo organicamente. Há músicas que surgiram de poemas escritos por mim e que depois enviei à Inês Apenas com quem colaborei no disco. A construção do álbum foi sendo feita de uma forma muito orgânica, não muito pensada. As músicas foram encaixando umas nas outras. Há músicas que podiam não ser tão acústicas, mas nós quisemos mantê-las assim. São canções cruas, funcionam dessa maneira. E há outros temas mais intensos que nos levam para um lugar mais escuro que também faz parte de quem sou. Acho que este álbum é mesmo uma carta aberta sobre quem eu sou. Estou a entregar-me. E espero que as pessoas gostem tanto do disco como eu gosto.  

Essa viagem emocional andou por que paragens? Não querendo ir às tuas profundezas, a não ser que queiras, mas sendo algo tão pessoal, gostaria de saber por onde andaste…  

Acho que antes tentava sempre caber no espaço dos outros. Fazia-o inconscientemente. Este álbum ajudou-me a descobrir quem realmente sou, onde quero estar e o que é que realmente ocupo em matéria de espaço. Durante muito tempo fui várias versões para várias pessoas. Não sei se o fazia para me proteger ou se para proteger os outros. Mas acabei por me perder um pouco. E o álbum fala de todo o processo, desde a amores, a amizades, a perdas. (…) É uma viagem por todas as minhas dores. Mas, por outro lado, a música final, que se chama 'Fama e Proveito', diz para aproveitar e que agora vim para ficar. É um pouco irónica. Acho que este álbum é especial. Não sei se vou conseguir repetir um álbum tão íntimo. Quero muito que o oiçam. Estou muito ansiosa.  

Ao longo da vida, vamos descobrindo várias versões nossas, consoante o que nos acontece. Ainda terás muita matéria para escrever. Neste momento, escolheste uma versão ou um pouco de várias versões? 

Eu não escolhi nada. Acho que sairam várias versões minhas. Só vão perceber quando ouvirem o álbum. É uma viagem que começou onde eu era e vai até onde quero ser. Ao longo desse caminho, passo por várias versões minhas mas, na verdade, nunca estive tão próxima de quem realmente sou. 

Também falas em ser vulnerável e em insegurança. Acho isso admirável e um grande sinal de força…

Exatamente. 

Assusta-te essa exposição ou sentes que é algo que te torna mais forte? 

Este álbum ajudou-me a perceber exatamente o que estás a dizer. Ser vulnerável e falar abertamente sobre isso torna-me mais forte. Eu demorei muito tempo até conseguir assumir os meus problemas e as minhas dores. Achava que isso é que era ser forte. E agora, a meio do processo do álbum, percebi que ser forte é assumir as nossas vulnerabilidades, as nossas inseguranças e dar espaço aos outros para serem empáticos connosco e para nos ajudarem. Isso é que é ser forte. Isso é que é força. É darmos força aos outros, mas também deixarmos que nos deem a nós. É muito isto o que quero transmitir com este álbum.

Também falas em ser mulher. Falas sobre as contradições, os paradoxos de ser mulher, sendo que os homens também os têm. Como foi andar a passear por essas essas reflexões e pensamentos? 

Eu não sabia que tinha tanta coisa para dizer sobre estes assuntos. (risos). Tenho uma música muito especial no álbum, que se chama ‘Mar nos Meus Olhos’. É uma canção que foi escrita para a minha avó, que, no fundo, foi quem me deu esta bagagem, esta força, esta voz feminista. A minha avó ensinou-me sobre a força das mulheres e sobre a força da vulnerabilidade. Acabou por sair tudo muito naturalmente. Mas só durante o processo de escrita do álbum e da criação da música é que percebi o quanto estava ligada a este tema. Não foi nada pensado. Foi muito natural. 

E o que dirias a uma mulher que esteja agora num fosso de insegurança, triste e que duvide de si?

Diria para se permitir a sentir tudo e para não ter medo de pedir ajuda. Pedir ajuda é das coisas mais importantes. Vai dar-nos mais força para sermos mais fortes do que aquilo que achamos que estamos a ser. 

O teu disco também tem histórias de amor. E no texto que descreve o álbum podemos ler o seguinte: “há uma que permanece, é o meu chão no meio do caos, a linha invisível que liga o início ao fim”. Gostaria que comentasses esta frase…

Pronto, é real. Tenho um amor que vem de há muitos anos e que continua comigo. Aliás, começou por ser meu amigo. A nossa amizade começou quando tinha catorze anos, precisamente na altura em que andava nas discotecas a cantar. E depois, quando tinha vinte anos, passou a namorado. Agora já tenho trinta. Ele é muito diferente de mim em tudo. Não gosta muito de aparecer e não gosta muito de pessoas. É uma pessoa muito mais reservada.


Nós somos o balanço um do outro.  E neste caminho que fiz, ele foi mesmo o meu balanço. O processo de fazer o álbum acabou por ser complicado para mim. Comecei a conhecer-me demasiado bem, a chorar como nunca chorei. Comecei a sentir coisas que nunca tinha sentido. Sem o meu namorado não teria conseguido acabar o álbum. Isso é certo. 

Pode ser um processo extenuante, muito intenso. 

É um processo intenso, mas eu adorei.  

Há outra frase que diz, "este álbum é sobre existir por inteiro”. O que é existir por inteiro? 

Acho que já falámos sobre isso. Existir por inteiro é sermos quem somos. É sermos para os outros, sermos para nós e sermos verdadeiros. Este álbum é sobre ser verdadeiro, sobre a honestidade e sobre vulnerabilidade. Acho que isso é ser por inteiro. É ser vulnerável, honesto e transparente. Espero que este álbum me faça ser por inteiro. 

Isso é ouro sobretudo uma sociedade que está tão ligada à inteligência artificial, às fake news, aos filtros do Instagram… 

Também acho. É cada vez mais preciso ter esta verdade. É muito fácil deixarmo-nos absorver por coisas que não interessam e tornarmo-nos pessoas que não somos. É fácil ficarmos iludidos com coisas que não importam. E, portanto, acho que sermos por inteiro é o mais importante que podemos ser

A 28 de maio vais apresentar o álbum ao vivo no espaço Gracinha, em Lisboa. O que é que estás a preparar para o palco?

É um concerto aberto ao público. Pode ir quem quiser. Podem ir famílias, pais, filhos e avós. E gostava muito que também fosses. Vai ser um concerto íntimo, à semelhança do álbum e dos temas que estivemos a falar. Vai manter-se dentro deste meu universo, vai ser o meu concerto de estreia e será a primeira vez que vou cantar com banda ao vivo. Vamos ter convidados surpresa. Eu tenho um feat. no álbum com o Azart e ele também vai cantar comigo. Acho que vai valer muito a pela.

Do que é que mais te orgulhas neste disco? 

Orgulho-me de tudo. Orgulho-me do processo, do que consegui fazer, das músicas, das pessoas que me rodearam e que, ao longo do caminho, ficaram as minhas pessoas. Sem elas também não teria conseguido.  

No comunicado de imprensa sobre o álbum e sobre ti, também lemos o seguinte: "está pronta para se revelar por completo, devagar, mas sem medo." Quero saber o que é que visualizas no teu horizonte enquanto artista? 

Estou agora a lançar o meu álbum, portanto, o que visualizo é cantar este álbum para o mundo durante os próximos tempos. Visualizo que as pessoas se apaixonem pelo álbum e me conheçam. E, se tudo correr bem, que gostem de mim para que eu possa fazer mais álbuns e cantar em todo o lado. Mas um passo de cada vez. Estou mais focada no agora. O que vejo para este ano é cantar, cantar, cantar e dar-me a conhecer às pessoas. Só depois é que vou pensar mais à frente. 

Estás preparada para o feedback de quem possa também autodescobrir-se com as tuas canções? 

Adorava. Se receber uma mensagem de uma pessoa a dizer que a ajudei, faz com que tudo o que estou a fazer valha a pena.