Matt Simons, o homem que não se vai ficar por aqui

Talento em estado bruto esta noite no Lisboa Ao Vivo.

Depois de um banho de multidão na noite anterior numa feira de Castro Daire, Matt Simons apareceu este sábado com o seu visual de boina com um muito bem soletrado em português, "boa noite, Lisboa".

A formação que o acompanha no Lisboa Ao Vivo é um quarteto da Holanda, o país que o músico nova-iorquino escolheu para viver, desde que o destino o resgatou, por causa do êxito viral nos Países Baixos, com 'With You', que Matt Simons preferiu guardar para a parte final do concerto desta noite.

'Bonnie & Clyde' inicia a atuação de hora e meia, já com Matt Simons sentado aos teclados, seguido por 'Summer with You', que acerta em cheio na despedida da estação que se fazia sentir neste dia tão chuvoso que cumpria a mudança sugerida pelo calendário. 

Esta pop arrebitada, quase a espreitar o rock, também gosta de pular para as eletrónicas em temas como 'Lose Control', onde os cinco músicos em palco mostram corpos disponíveis para a dança. Os beats vão sendo um dos combustíveis deste concerto.

Uns minutos mais adiante, parece que entramos num universo pop descaradamente dos anos 80, em 'Tonight' ou em 'It's You', soando a Joe Cocker mas sem a voz rouca do malogrado cantor, na mesma órbita soul de uns Simply Red.

Mais tempo vai estando em palco, melhor o vamos conhecendo. Começamos a perceber o essencial, que Matt Simons é um músico autêntico. No que canta. E no que diz. E quando elogia o nosso país da forma que o faz, sentimos que está a ser franco. Mais tarde, mostra uma simpatia boémia para com os horários tardios dos concertos em Portugal, chamando-nos de "party animals", tudo por causa de uma atuação sua no Crato que começou à uma da manhã. Ele é um tipo porreiro, não há dúvida.

Gosta de cantar, pondo a mão no peito. E quando a balada é tão fogosa, como 'When the Lights Go Down', tem que cantar de olhos fechados. 'After the Landslide' é tão intimista que Matt Simons canta-o a sós em palco, deixando mais margem para mostrar o seu poder vocal.

Quando chega o momento de 'Open Up', agitam-se os smartphones no ar, esta era uma das canções que o público mais esperava, enquanto Matt Simons se solta dos teclados e se aproxima dos espetadores, tal como tanto gosta.

Simons vai explicando algumas das suas canções. Diz-nos por exemplo que 'Last to Know' é a história da mulher que disse a toda a gente que ia deixar o seu namorado, menos ao próprio. Quando essa música atinge um dos seus cumes emocionais, o cantar pega num trecho do seu ídolo Stevie Wonder, 'Isn't She Lovely', para escalar mais um pouco na montanha sentimental.

Quem é dado à soul, pode muito bem ter uma filiação jazzística e isso fica bem à vista no bluesy 'I'm Already Over You'. Faz de conta que estamos no Festival de Montreux. Ao bom estilo do jazz, distribuem-se solos pelos vários músicos, até Matt Simons mostrar mais um dote seu, o de saxofonista.

No encore, o anjo protetor Joe Cocker aparece ainda com mais peso, de forma incendiária, na versão ao seu modo da canção dos Beatles 'With a Little Help from My Friends', que o malogrado cantor transfigurou de forma eterna e que Matt Simons volta a lembrar. Antes de confraternizar com os seus fãs, o músico norte-americano despede-se com mais uma prenda: o bem disposto 'We Can Do Better'.

Cada espetador do Lisboa Ao Vivo não se vai esquecer deste concerto. E vai querer repetir a experiência. Os amigos também saberão. Fica a ideia de que Matt Simons não se vai ficar por aqui.