Mazgani: "dedico este disco Cidade de Cinema ao Pedro Gonçalves"
Primeira incursão na língua portuguesa por parte do cantor português.
Está cá fora desde esta sexta-feira o novo álbum de Mazgani, “Cidade de Cinema”. Aos 50 anos de vida, o músico opera a sua grande metamorfose para a língua portuguesa. O encorajamento veio de um amigo especial, o multi-instrumentista dos Dead Combo, Pedro Gonçalves. Mazgani desvia-se para um caminho sem alcatrão, com obstáculos silábicos desconhecidos. “Cidade do Cinema” é uma prova de superação.
Vou começar por uma pergunta que imagino te estejam a fazer muitas vezes: o que te fez avançar para a língua portuguesa?
Começou tudo com o telefonema do meu amigo Pedro Gonçalves, que já não está connosco. Ele, na altura, desafiou-me a escrever em português e eu falei com ele com muita resistência, como se ele não tivesse noção do que é que era mudar de língua. “Tu não fazes ideia, eu já fui para a América”… Tangas, não é? Medo. Mas depois, como eu já tinha trabalhado com ele e sabia do seu talento, que serviria de amparo, ‘bora lá’. Mas infelizmente, não veio a acontecer, ele estava já muito doente. E eu dedico este disco a ele. Eu sozinho não era capaz.
Vai ser um desafio tornares-te um cantor bilingue em palco.
Não sei. Não sei se isso é uma questão. Ou seja, tenho estado a ensaiar o disco e acho que as coisas, devido às minhas limitações e ao facto de só saber fazer umas músicas muito parecidas umas com as outras, acho que tudo encaixa. O sarilho grande foi quando comecei a escrever. Depois foi a experiência do estúdio. O português é um sarilho, é muito difícil. E facilmente deixa de ser cool se não disseres bem a palavra, que te faz lembrar uma coisa que tu não gostas, etc. O inglês tem plasticidade, podes cantar as páginas amarelas e fica com pinta. O português não permite isso. Essa foi a parte chata. No palco, essa parte está resolvida.
Nunca puseste a hipótese de cantar numa das línguas nativas do Irão?
O farsi? Não, não. Isso ainda é mais austero. A música clássica persa é muito austera. É uma coisa severíssima, que passa de pai para filho, de mestre para discípulo. Eu gosto muito de imaginar que estou a fazer esta coisa. Mas quando tu olhas para estas pessoas, sabes que és uma grande fraude. Aquelas pessoas é que estão numa coisa profissional. É uma vida dedicada. E para um tipo preguiçoso, não me meteria nisso. Está lá a questão da tradição. Era como se eu agora quisesse tocar o reportório do Carlos Paredes.
Neste álbum, tu usas muito uma linguagem religiosa, empregas muitas palavras como “reza”, “Cristo”, “peregrinos”, “anjos”, “pecados”, “ritual”. Isso é uma espécie de mola para letras mais espirituais, como normalmente tu escreves?
Eu nunca tinha feito a psicanálise disso. Parabéns, Gonçalo, eu só soube isso agora mesmo. São coisas que eu amo e adoro. […] São as coisas que me interessam, na verdade, não é? Os anjos e os rituais e os peregrinos, essa coisa toda. Li uma carta da Flannery O'Connor [Mazgani pode estar a referir-se ao livro “The Habit of Being: Letters of Flannery O'Connor”] a dizer a alguém: “não te preocupes com o tema, começa a escrever o tema que há em ti”. E isso pareceu-me um excelente conselho. Portanto, a ideia é ir falando, não é? E a questão da improvisação é a forma como eu escrevo. Não é uma jornada de descoberta. Eu não sou académico, não sou intelectual, sou um tipo que quer cantar. A minha preocupação é ter coisas para cantar. Isso é que é a parte que eu curto fazer.
É como uma viagem, não é? Tu traças a viagem através de palavras.
É uma viagem no sentido de teres o material de que precisas, não é? Precisas de uma guitarra, no meu caso de uma caneta, de um papel. Agora tenho um pianinho, que estou muito contente com ele. E depois não se sabe o que acontece. Esse futuro incerto é o que se aproxima da viagem. Tu não sabes para onde é que estás a ir. Queres que a experiência te mude.
O que queres dizer na canção-título do álbum, ‘Cidade de Cinema’?
Eu lembrei-me do programa do Bénard da Costa, na RTP2, que era “No Meu Cinema”. E eu acho que é isso. Todas essas paisagens que estás a descrever. A Cidade de Cinema é uma coisa do meu cinema. Todas essas paisagens têm essa solidão, onde te achas inteiro e limpo.
Pareces ter aqui um western neste álbum, a canção ‘Pistoleiro Cego’, em que falas de um homem de um olhar duro e de coração puro. Quem será este homem?
É o meu pai. É uma canção sobre o meu pai. Era um bom homem, muito forte, muito inquieto.
“Destemido”, tal como cantas?
Completamente. Era um homem de uma coragem física muito impressionante, mas também de uma coragem intelectual. Foi um pai bom, muito honesto sempre comigo, no sentido de me descrever a vida como ele a via. A minha mãe vê pelos olhos da bondade, que são os olhos que me fazem muita falta, não é? Tenho que voltar sempre ao olhar dela, para me apaziguar com as coisas.
‘Frente Leste’ é uma canção de amor em tempo de guerra?
Acho que sim. Essa é mais direta, não é? Não é muito diferente da ‘Cidade de Cinema’. Estás a ver o mesmo dilema do gajo que está a ir não sei para onde e que tem que voltar para casa.
É uma canção pela paz?
É uma canção para uma paz interior. É uma vontade da pessoa se render e ser vulnerável, ter a coragem da vulnerabilidade. Essa é a coragem maior, amar como a coisa mais forte, o caminho mais duro, mais exigente e o correto. Por ser mais duro, é o caminho correto.
Cantas às tantas: “envio as minhas prescrições, mapas e indicações aqui da Frente Leste”.
Eu acho que tem que ver com essa demanda, de quem foi mais longe. É uma espécie de um João Garcia da alma. O João Garcia, que já subiu o Everest, pode mandar mapas e indicações. É um mapa interior.
O que é que podemos esperar dos concertos que vais dar agora?
Acho que este disco casa bem com os discos anteriores. Devido às minhas limitações, os discos são parecidos. A ideia, se calhar, vai ser casar o repertório mais antigo com o que estamos a fazer agora e a começar a cantar este disco e revisitar o material que considero que ainda tem vitalidade, que sinto urgência a cantar. Mas é isso, é casar as coisas que fui fazendo ao longo dos anos com o disco novo.
Quem te vai acompanhar?
O grande Pedro Branco na guitarra e nas teclas, o magnífico Isaac Achega na bateria e o extraordinário Victor Coimbra no baixo.
Quais são os músicos da língua portuguesa que mais admiras?
Ouvi muito o Fausto e o Zeca. Sabes, foi um sarilho muito grande. Queres pertencer a uma família que na verdade não pertences. Inventas uma família, uma linhagem estética, e queres ligar-te àqueles gajos. E no português era um sarilho, porque não conhecia muito bem a tradição.
Mazgani atua no dia 17 de outubro, na Sala Expande, em Ovar; no dia 22, no Teatro Maria Matos, em Lisboa; no dia 24 na Casa da Música, no Porto; e no dia 25, na Casa das Artes, em Felgueiras.
