Mega centros de dados em Abrantes fazem soar o alarme ambiental
Quercus alerta para a pressão sobre a água e a energia e exige Estudos de Impacte Ambiental antes do avanço do segundo mega centro de dados no concelho de Abrantes.
A instalação de dois mega centros de dados em Abrantes está a levantar fortes preocupações ambientais. A Quercus considera que a dimensão dos projetos, o consumo energético e a utilização intensiva de água podem colocar uma pressão acrescida sobre um território e sobre o rio Tejo que já enfrentam sinais de stress ambiental.
Em entrevista à nossa rádio, a presidente da Quercus, Alexandra Azevedo, aponta a água como uma das principais preocupações. “O primeiro elemento é sem dúvida a água, que é necessária para arrefecimento destas unidades”, sublinha, lembrando que o Tejo já sofre fortes solicitações, tanto em Espanha como em Portugal.
A dirigente ambientalista alerta para a conjugação de vários fatores nomeadamente períodos de seca mais prolongados, redução do caudal do Tejo e múltiplos consumos ao longo da bacia hidrográfica. “Estamos efetivamente a falar de água doce de uma das principais bacias hidrográficas do país, que é do rio Tejo, que está efetivamente já em sofrimento”, afirma.
Consumo energético pode chegar a 19 vezes o de todo o concelho
A dimensão energética dos empreendimentos é outro dos motivos de alarme. De acordo com os dados divulgados pela Quercus, considerando a potência máxima instalada dos dois projetos, o consumo anual poderá atingir cerca de 2,8 TWh, o equivalente a quase 19 vezes o consumo anual de eletricidade de todo o concelho de Abrantes.
Para Alexandra Azevedo, não está apenas em causa a quantidade de energia necessária para alimentar os centros de dados, mas também a infraestrutura necessária para a transportar.
“Não é só a quantidade de energia que é necessária produzir, como depois o seu transporte e todo o impacto que isso gera em termos das linhas elétricas”, explica.
A Quercus teme ainda que a necessidade de reforços da rede elétrica venha a traduzir-se em novos investimentos suportados, direta ou indiretamente, pelos consumidores.
“Quem paga é o consumidor”, alerta Alexandra Azevedo, defendendo que os projetos devem prever uma contrapartida clara para os municípios e para as populações afetadas.
“Já existem hoje” sinais de pressão sobre a água
A preocupação da Quercus não se limita a cenários futuros. Alexandra Azevedo garante que existem já sinais concretos de pressão sobre os recursos hídricos.
Segundo os dados citados pela organização ambientalista, cerca de 60% das massas de água superficiais e 40% das massas de água subterrâneas da bacia hidrográfica do Tejo e Ribeiras do Oeste estão abaixo do bom estado.
“Já é um sinal real atual”, afirma a presidente da Quercus, considerando que as perspetivas poderão agravar-se se se mantiver a atual trajetória climática.
A organização chama ainda a atenção para as previsões de um índice de escassez hídrica de 40% no rio Tejo entre 2028 e 2033, tornando particularmente relevante a discussão sobre a instalação de infraestruturas com elevado consumo de água.
Efeito de ilha de calor preocupa ambientalistas
Além da água e da energia, a Quercus alerta para os potenciais efeitos da concentração de grandes infraestruturas tecnológicas sobre o território.
O chamado efeito de ilha de calor, normalmente associado aos espaços urbanos, poderá também ter consequências numa infraestrutura desta dimensão, sobretudo tendo em conta a proximidade de ecossistemas ribeirinhos e áreas florestais.
“Com a envergadura que têm, esses impactos também devem ser avaliados”, defende Alexandra Azevedo.
Quercus quer Estudo de Impacte Ambiental antes do licenciamento
Um dos principais pontos de contestação da organização ambientalista prende-se com o estatuto de Projeto de Interesse Nacional (PIN) atribuído ao empreendimento promovido pelo grupo Hyperion.
Embora reconheça a importância de tornar os procedimentos administrativos mais eficazes, a Quercus entende que a celeridade não pode significar uma avaliação ambiental menos rigorosa.
“A lógica dos Estudos de Impacte Ambiental é que sejam prévios à decisão e não a posteriori”, sustenta Alexandra Azevedo.
A Quercus exige, por isso, que seja realizado um Estudo de Impacte Ambiental antes de qualquer decisão de licenciamento, defendendo igualmente uma avaliação dos impactos cumulativos dos dois mega centros de dados previstos para Abrantes.
Dois projetos, um território
A preocupação ganha outra dimensão porque o concelho já tem em desenvolvimento um primeiro grande centro de dados, promovido pela EDC ONE, nos terrenos da antiga central termoelétrica do Pego.
O segundo projeto, do grupo Hyperion, prevê uma área de implantação de cerca de 151 mil metros quadrados e uma área de construção de aproximadamente 287 mil metros quadrados, com uma ligação elétrica anunciada de 200 MVA ao futuro posto de corte do Pego.
Para a Quercus, não basta avaliar cada empreendimento isoladamente. É necessário perceber o efeito conjunto sobre a água, a rede elétrica, o território, a paisagem, os solos, a biodiversidade, a temperatura local e a poluição sonora e hídrica.
A organização defende ainda que as populações de Alvega e da Concavada devem ter acesso a informação e a períodos adequados de participação pública.
“A realidade está a demonstrar” dificuldades de compatibilização
Questionada sobre se é possível instalar centros de dados desta dimensão sem comprometer recursos naturais já pressionados, Alexandra Azevedo é taxativa:
“A realidade está a demonstrar que essa compatibilização não está a ser muito possível.”
A presidente da Quercus considera que Portugal deve retirar ensinamentos de outros países europeus onde a expansão dos centros de dados já provocou constrangimentos nas redes elétricas, no território e nas comunidades.
No caso de Abrantes, a organização ambientalista desafia agora a APA e a CCDR-LVT a ponderarem cuidadosamente os impactos dos projetos e a não emitirem parecer favorável enquanto não estiverem esclarecidas todas as condicionantes ambientais.
Para a Quercus, a transição digital não pode avançar à custa dos recursos naturais e deve deixar benefícios concretos nos territórios onde estas grandes infraestruturas são instaladas.
