Meio milhão de pessoas em Portugal vivia com menos 482 euros por mês em 2025

Estudo da Rede Europeia Anti Pobreza mostra que, pela primeira vez desde 2015, menos de dois milhões de pessoas viviam em risco de exclusão social.

Resumo IA

• Em 2025, mais de 500 mil pessoas em Portugal viviam com menos de 482 euros por mês, segundo Paula Cruz da EAPN.

• A taxa de risco de pobreza fixou-se em 18,6%, abrangendo 1,9 milhões de pessoas, o valor mais baixo da última década.

• O XVIII Fórum Nacional de combate à pobreza decorre até sexta-feira no Porto, focando a inclusão das pessoas afetadas.

Resumo feito por IA e revisto pela redação da Rádio Comercial

Em 2025 em Portugal "mais de 500 mil pessoas viviam com menos de 482 euros por mês", considerada uma situação de pobreza preocupante, anunciou hoje Paula Cruz, da EAPN Portugal -- Rede Europeia Anti Pobreza.

"Das pessoas que vivem em situação de pobreza [em Portugal] temos bolsas de pobreza particularmente preocupantes. Mais de 500 mil pessoas a viver com menos de 482 anos por mês", declarou a socióloga Paula Cruz no XVIII Fórum Nacional de combate à pobreza e exclusão social, que está a decorrer entre hoje e sexta-feira no Porto.

Durante a conferência de abertura do Fórum, Paula Cruz destacou que a nova estratégia de combate à pobreza deve passar pela inclusão das pessoas em situação de pobreza na resolução do problema através de "participação com significado".

No relatório "Pobreza e Exclusão Social em Portugal 2026", com base nos dados mais recentes do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento de 2025, Paula Cruz indicou que 2025 fica marcado pelo facto de pela primeira vez desde 2015 o número de pessoas em risco de Pobreza ou Exclusão Social (PES) ter recuado para menos de dois milhões de pessoas.

"A taxa de PES fixou-se em 18,6%, abrangendo 1,9 milhões de pessoas, o valor mais baixo da última década, consolidando uma descida anual de 1,1 pontos percentuais", refere o sumário executivo do relatório, que foi entregue aos jornalistas durante a sessão de abertura do Fórum.

"Percebemos que o número de pessoas em situação de pobreza e exclusão social baixou dos dois milhões. O registo mais baixo da última década. Isso deveu-se em particular à descida da taxa de risco de pobreza monetária (...) e à privação material e social severa, assistimos aqui a uma tendência de uma maior estabilização", disse Paula Cruz.

Segundo a socióloga é preciso olhar para outros indicadores para perceber se a redução significa necessariamente uma redução de um problema que tem dimensões estruturais.

Paula Cruz sublinhou que "a melhoria é uma melhoria ainda muito frágil", principalmente no atual contexto em que existem "múltiplas crises"

"Para exemplificar o que eu estou a dizer, nós vemos que a proporção de pessoas em situação de pobreza que acumulam múltiplas formas de exclusão aumentou. Vemos que dentro das pessoas que vivem em situação de pobreza temos bolsas de pobreza particularmente preocupantes. Mais de 500 mil pessoas a viver com menos de 482 anos por mês".

Paula Cruz referiu que a pobreza sistémica também aumentou, revelando uma situação "crónica, de difícil resolução".

"As prestações sociais, todos sabemos, têm um impacto significativo na redução da pobreza, mas a questão está na eficácia desse impacto e as prestações ainda não são mesmo eficazes para quebrar ciclos de pobreza", justificou a especialista.

Paula Cruz reiterou que combater a pobreza não passa apenas pela proteção económica, mas também pela defesa e investimento na autonomia, participação e inclusão das pessoas em dificuldades.

Uma segunda ideia que Paula Cruz destacou é que as políticas de combate à pobreza não "podem ser construídas sem a participação das pessoas que vivem ou viveram situações de pobreza", até porque o estigma, a falta de informação, as barreiras, os critérios de acesso, ainda são barreiras que precisam de ser eliminadas.

Durante a conferência de abertura, cujo painel era dedicado ao tema "O Futuro do Combate à pobreza na Agenda Europeia e Nacional -- Políticas públicas, governação multinível e compromisso com a erradicação da desigualdade sociais", Paula Cruz acrescentou que "45,4% da população em situação de pobreza não tem qualquer rendimento proveniente de prestações sociais".

"Isso também exige que nós olhemos muitas vezes para as dificuldades que as pessoas ainda estão a ter no acesso a estes direitos" às prestações sociais.

Portugal continua a ter grupos populacionais mais vulneráveis à pobreza, alertou, referindo que quando se analisam os dados da pobreza há que olhar por exemplo para a dimensão do agregado familiar, a questão da saúde, da questão da habitação ou da inserção laboral.

Paula Cruz também alertou que 10% da população em situação de pobreza está a trabalhar.

"Temos 10% da população que vive em situação de pobreza e que trabalha, portanto a pobreza no trabalho ainda é uma realidade muito marcante", disse a socióloga, acrescentando que em Portugal existem bolsas graves de pobreza tanto em trabalhadores por conta própria com migrantes.

"Temos uma forte desigualdade territorial e, (...) depois de deduzidas todas as despesas relacionadas com a habitação, as pessoas ficam numa situação muito mais vulnerável", disse.

Para Paula Cruz este panorama é revelador da urgência de uma resposta integrada para atuar sobre as causas estruturais da pobreza, mas também sobre a prevenção das situações de pobreza.