Memórias e inquietações de uma professora da escola primária
Patrícia Baptista Coelho abre a porta da sala de aula neste arranque de ano escolar.
Em dia de arranque do ano letivo, 'vamos' até à escola primária ouvir as inquietações e memórias de uma professora. Patrícia Baptista Coelho dá aulas há quase 30 anos no 1º ciclo e partilha agora em livro o que foi vivendo na sala de aula.
“Memórias Felizes e Inquietações de uma Professora” é o primeiro livro da professora, que fez quase toda a carreira no ensino privado e há três anos escolheu ensinar na escola pública, porque precisava de "outras formas de trabalhar e de outras perspetivas".
E se a escola deve ser um espaço de "memórias felizes", a verdade é que nem sempre a harmonia é uma realidade.
Bullying contra professores
Patrícia Baptista Coelho diz que sentiu na pele o bullying e garante que não é caso único: "No meu caso concreto e naqueles que fui conhecendo, o bullying é de encarregados de educação em que partem do princípio errado de que a escola e a família são dois mundos (...) que vivem de costas voltadas. Há uma uma tentativa de denegrir a imagem do professor, de defender tanto a criança, que qualquer coisa que o professor possa dizer é considerado um ataque, e não é verdade."
A "falta de apoio", adianta, leva alguns professores à depressão, muitos metem baixa e outros tentam mudar de escola.
Excesso de medicalização das crianças
A medicalização das crianças (com dificuldades de concentração e comportamento) é outro tema que tem inquietado esta professora primária. Garante que não é contra o uso de medicamentos, mas considera que deve ser o último recurso. Patrícia Baptista Coelho sublinha que é fundamental haver um acompanhamento das famílias e, sobretudo, "ter um olhar atento" para as crianças. "Dar tempo e espaço para brincar" é também uma urgência numa altura em que se perde a conta ao número de atividades das crianças ao longo do dia.
Poibição dos telemóveis na escola
Patrícia Baptista Coelho reconhece os efeitos negativos do uso descontrolado dos telemóveis, mas considera que a responsabilização seria mais eficaz do que a proibição nas escolas.
As crianças "antes de chegarem à escola, estiveram horas a olhar para o ecrã. Dormiram mal por causa disso. Portanto, eles chegam à escola já com horas de ecrãs. Estão na escola, que implica esforço, trabalho, que implica algumas coisas que não gostam de fazer e ainda são proibidos de usar telemóveis. E depois saem da escola, entram no carro e pegam no telemóvel. Portanto, a escola fica o bicho-papão", diz.
Memórias felizes
Apesar das "inquietações", Patrícia Baptista Coelho partilha neste livro inúmeras histórias felizes de alunos, que "conheceu sem dentes" e hoje são pais e com cargos de responsabilidade.
"Não se pode sair da escola sem memórias felizes", conclui.
