MEO Kalorama: quanto é que o mundo precisa dos Massive Attack? Muito, mesmo muito
O primeiro dia da terceira edição do MEO Kalorama contou com os históricos de Bristol. Não foi um concerto, foi um mergulho na condição humana. E vir à tona depois disto?
Os Massive Attack são muito mais do que o grupo da cidade portuária de Bristol que no início da década de noventa abriu as águas para a cena trip hop. São densidade e reflexão. São um manifesto. São urgência.
No primeiro dia da terceira edição do MEO Kalorama, levaram para o palco do Parque da Bela Vista a escocesa Elizabeth Fraser (mais conhecida por ter sido a voz dos Cocteau Twins), o jamaicano Horace Andy (que colabora com eles desde o álbum de estreia "Blue Lines"), os escoceses Young Fathers e a cantora Deborah Miller.
Robert Del Naja (3D) e Daddy G são músicos mas também são ativistas a tempo inteiro. O concerto do MEO Kalorama foi uma intensa e profunda forma de expressão disso mesmo. Um "caos" ordenado numa narrativa que cruzou, na perfeição, o trabalho artístico de vídeo com a carga emocional dos temas que foram buscar aos álbuns que deram ao mundo. E, pelo meio, algumas versões.
Apelo à ação, protesto, luta pela justiça e pelos direitos humanos e um manifesto magistral contra os tentáculos do corrosivo entorpecimento humano. Mergulhar no espetáculo dos Massive Attack é um mergulho nas águas profundas da condição humana. As canções e os ambientes próprios de cada uma cruzam-se, com intenção, com o jogo de luzes de palco e com trabalho visual da United Visual Artists com quem Del Naja estabeleceu uma parceria criativa em 2003.
"Queremos provocar o diálogo sobre o sonho desfeito do 'eu' confiante e empoderado no contexto de colapso global das democracias liberais", lê-se na conta de Instagram dos britânicos sobre a parte visual da proposta que levam para o palco. O espetáculo que apresentam materializa o propósito, com detalhe, realismo e, por vezes, algum humor. Desdobra-se numa série de inquietações, como a sobrecarga tecnológica versus autenticidade humana, a ditadura silenciosa do algoritmo, os bombardeamentos literais em zonas de guerra (da Ucrânia ao Iraque) ou os bombardeamentos de informação descartável e vazia que se "infiltra" na zona da reflexão humana, anulando-a. E na Palestina.
No concerto que recentemente deu em Bristol, o duo britânico convidou Motaz Azaiza, um fotojornalista palestiniano que conseguiu fugir dos bombardeamentos israelitas na Faixa de Gaza, estando agora refugiado em Londres. Nesse concerto, Robert Del Naja (3D) e Daddy G deram-lhe o palco e "volume" à voz. O palco dos Massive Attack amplifica o grito dos habitantes de Gaza que diariamente lutam pela sobrevivência no meio de escombros, fome e doenças. E o apoio à causa já é antigo. Um grito que, mesmo sem a presença de Motaz Azaiza, também se ouviu em Lisboa. Del Naja, que levou a palavra "Palestina" (escrita em português) no braço, dedicou Safe From Harm a Gaza, apelando ao "fim do genocídio" naquele ponto trágico do planeta.
E tudo isto seria descrito como um "futuro distópico" se não fosse presente e real. No início do concerto, testemunhamos um relato vivo e luminoso sobre a capacidade primordial de nos emocionarmos, de amarmos e de sermos. O pequeno vislumbre de verdade humana é abruptamente interrompido pelo advento da inteligência artificial, realidade que, depois de mastigada com uma breve reflexão, pode ser desconcertante. No ecrã surge a frase: "Elon Musk: Neurolink Corporation Experiment 2021", uma referência à startup de neurotecnologia de Musk que está a desenvolver a implantologia de chips no cérebro. O recinto do Kalorama, que estava bem composto àquela hora, assiste ao vídeo em que a empresa de biotecnologia explica o que fez a Pager, um macaco que, após ter recebido um implante cerebral, conseguiu controlar um jogo de computador com a atividade cerebral.
Espaço aberto para a reflexão coletiva logo na casa da partida. A atmosfera adensa-se no recinto com o início do fantasmagórico Risingson, de Mezzanine (1998), o terceiro álbum do duo de Bristol, mantendo-se nesse cume tão próprio dos Massive Attack ao longo de todo o concerto.
Girl I Love You contou com a voz do histórico jamaicano Horace Andy, que canta nos vários discos do duo de Bristol, e Black Milk com o toque angelical de Elizabeth Fraser, que mais tarde engrandeceu a já enorme Song To The Siren (original de Tim Buckley), oferecendo nessa altura um momento refinadamente emotivo. O público do Kalorama escutou-o em silêncio. Já os enérgicos escoceses Young Fathers subiram ao palco nos temas Gone, Minipoppa e Voodoo In My Blood.
A densidade, que epicamente se vai avolumando no seu percurso, de Angel voltou a ter Horace Andy a dar-lhe voz e Deborah Miller cantou Safe From Harm e Unfinished Sympathy. Elizabeth Frazer voltou ao palco para Teardrop, um dos momentos mais "populares" e emocionais do espetáculo. Do espetáculo não, do exercício monumental de auto-análise coletiva.
Em Group Four, com a cantora escocesa no palco, as imagens são disparadas de forma frenética ao ponto de quase sustermos a respiração. É o ato final de um murro que não foi no estômago mas sim no centro do torpor humano. O único fio de esperança foi com a sugestão final dos Massive Attack. A de procurarmos a resposta com um mergulho interior, sem distrações acidentais ou programadas.
Onze anos depois, eis o regresso dos Gossip aos palcos. A banda norte-americana, liderada pela energética e desbocada Beth Ditto, agitou o palco San Miguel, ao cair do sol no Parque da Bela Vista. O repórter Rúben Viegas passou por lá e captou as imagens do concerto.












































