MEO Marés: a força de resistência dos James

'Ring the Bells', 'Sound', 'Getting Away with It' ou 'Sometimes' foram alguns dos clássicos tocados.

Os James continuam uma força desdobrável, a darem novas vidas às canções, algumas delas com mais de 40 anos. Serem nove músicos em palco dá-lhes uma exuberância muito musical, como bem o demonstraram no concerto desta noite e madrugada no recinto do MEO Marés, na Praia do Aterro, em Leça da Palmeira.

Do fenomenal álbum “Laid” (de 1993), ‘Five-O’ é o tema de abertura do concerto, iniciado por um grande solo do violinista Saul Davies. O tema vai entrando sorrateiramente, tal como o vocalista Tim Booth, embora este último não esteja propriamente discreto, de casaco de pele de ovelha e um enorme gorro. 

Em ‘Waltzing Along’, começa a festa. Mas ‘Riing the Bells’ leva os James outra vez para a poesia, num tema bafejado de magia folk. O trompetista Andy Diagram, vestindo a camisola da seleção de futebol Portugal e de saia, sobressai num tema de sete vidas. Mais progride a música, mais grandiosa fica, até uma algazarra de felicidade tomar conta do palco, com Tim Booth a fazer as suas danças excêntricas.

“Esta banda já tem 46 anos. Estamos em casa”, diz em impecável português Saul Davies, enraizado há muitos anos em Portugal, mais especificamente na zona do Porto. Logo a seguir, o noneto inglês toca ‘Shadow of a Giant’, que se torna um dueto entre Tim Booth e a sua cantora Chloe Alper. Quando Tim Booth pega no megafone, já sabemos o que vem aí, ‘Sound’, com o ritmo meio em suspense meio a galope. U é a vogal a usar por Booth e, claro está, pelo público também. O trompete de Andy Diagram também cintila e a música deixa margem para os transes dançantes de Booth. O tema é tão encantatório que o seu fim parece uma má ideia. Os James também acharão o mesmo e alongam-no noutras sete vidas com 'Sound'. Numa delas, o trompetista toca numa das varandas das casotas comerciais do recinto, a motivar bons vídeos para as redes sociais.

Em ‘Getting Away with It’ Tim Booth dá vida ao empolgamento do tema olhando o público com vontade de se atirar para cima dele. A baterista Deborah Knox-Hewson  junta-se a ele junto à vedação com uma bandeira portuguesa. Mais tarde, percebemos que Tim Booth queria de facto fazer crowdsurf mas viu muitos dos espectadores a segurarem nos telemóveis, e para estas coisas de transportar um cantor ao alto é preciso ter as mãos desocupadas.

Um dos momentos mais fortes da noite ocorre em ‘Heads’, “sobre a loucura que se vive nos Estados Unidos”, tal como Tim Booth o apresenta. Estala na música uma guerrilha de percussão enquanto passam imagens de florestas a arder e o tema obtém uma tensão dramática.

No muito bem acolhido ‘Born of Frustraton’, Chloe Alper e Booth fazem o gesto do chamamento índio, porque as derivações vocais do tema de 1992 se premeiam a isso, noutro ecossistema sonoro riquíssimo do reportório dos James. Tim Booth explica depois que alteram de alinhamento todos os concertos e que ‘Come Home’ foi inserido no alinhamento durante o próprio concerto. ‘Come Home’, de 1989, tem muitas afinidades com os conterrâneos Happy Mondays, num tema que apanhou bem a corrente dançante da corrente de Madchester, na sua cidade de Manchester.

‘Sometimes’ foi outro momento especial do concerto, noutro crescendo espiritual que também caracteriza os James, hoje a somarem mais um excelente concerto para as já volumosas memórias ao vivo em Portugal. Há mais de 30 anos que tocam por cá.