Miguel Araújo em grande no Campo Pequeno
Engrandecido pela arte e o engenho das suas canções e pelo afeto dos amigos que levou.
Com amigos assim nunca será uma aventura a solo - mesmo que esta noite tenha servido para assinalar os dez anos que o Miguel Araújo já trilhou numa estrada mais solitária. Foi em 2012 que o músico se atirou para a solidão na edição de discos - mas a verdade é que, desde então, tem estado sempre acompanhado pelos que pisam o mesmo chão de cumplicidades criativas e de genuínos afetos. O Campo Pequeno foi esse chão. O chão para uma roda gigante de amigos que o músico portuense fez questão de levar: os veteranos Kapas (tios de Araújo), Rui Veloso, António Zambujo, César Mourão, Cláudia Pascoal e a banda que o tem ladeado e amparado no tal trilho.
Aos poucos, a vasta sala foi sendo preenchida até ficar sem lugares livres. Enquanto o público se ia acomodando nas cadeiras, um leque - variado e ainda inanimado - de instrumentos estava à espera do sopro de vida que chegaria um pouco mais tarde pelas mãos da catrefada de músicos que, ao longo dos anos, têm ajudado o músico portuense a entregar as canções ao vivo. Lá atrás, a decorar o palco, uma espécie de manta de retalhos, de cores vivas e com diferentes padrões, definia o tom festivo e quente que se espalhou pela noite. Ao centro da roda da amizade, uma garrafa de vinho XXL esperava para ser partilhada entre velhos e novos comparsas. E foi. Não faltaram brindes.
Importa a casa da partida na celebração de uma data redonda. Neste caso, a partida como artista a solo. Talvez tenha sido por isso que o primeiro álbum que Miguel Araújo editou sozinho - "Cinco Dias e Meio" - foi lembrado ao som do tema 'Os Maridos das Outras' - canção/relíquia que o músico adicionou à socapa no alinhamento e meteu o público a cantar alto e a bom som. Importa, sim. Mas também importa o agora. Houve uma mão-cheia de canções que fizeram continência ao passado, mas os pés de Miguel Araújo estiveram no presente. O músico quis recordar com o público mas fez questão de empoderar no palco as criações mais recentes, algumas fruto da reclusão pandémica, que foram amadurecendo, com vagar, no estúdio. Esta noite, o homem, que compõe compulsivamente, que joga, com inteligência, com as palavras, que conta histórias - as dele e as dos outros - e que assina um catálogo avolumado de cantigas orelhudas e melodicamente orgânicas, deixou que as novidades respirassem perto do público. E que bom que foi ouvi-las respirar.
'Chama Por Mim', do disco "Chá Lá Lá", foi a primeira a soltar-se do alinhamento, com a banda a alinhar-se nas posições de palco, enquanto Miguel Araújo dedilhava, compenetrado, os primeiros acordes debaixo de um fio de luz. Joana Almeirante, a caçula desta bem aventurada roda de amigos, fez-se ouvir logo ao primeiro tema e ao mesmo tempo que segurava, com convição, a guitarra. A voz doce da jovem cantora entrelaçou-se com leveza profunda no sotaque de Araújo e, claro, com as vozes afinadas do público que se foram ouvindo ao longo da noite.
A passagem foi direta para 'A Incrível História de Gabriela de Jesus' que, por sua vez, foi seguida pelas festivas (e mais recentes) 'Dança de um Dia Normal' e 'Dia da Procissão'. "Queria agradecer a todos por estarem aqui e a cada um de vocês por eu estar aqui. Tem sido uma viagem incrível, graças a vocês", disse o músico antes de se atirar ao 'Fado Do-Diz-Que-Disse', que foi buscar ao álbum "Peixe Azul", de 2021. A menos apressada 'Lá Vai Sofia', nova passagem pelo disco que editou em março, foi bem insuflada pelo quarteto de sopros e antecedeu - a um bom ritmo - a entrada da mais apressada e energética Cláudia Pascoal que subiu ao palco para ajudar Miguel Araújo a cantar 'Estou Por Tudo'.
A contemplativa 'Recantiga', do álbum "Crónicas da Grande Cidade", mereceu um final praticamente a capela, com o público, em massa, a seguir o rasto da canção e a replicar a letra que ia sendo projetada em cima do palco. Uma espécie de karaoke comunitário que continuou na canção que veio a seguir. 'Será Amor' foi bipartida e entregue às vozes de Joana Almeirante e do apresentador César Mourão - outro dos amigos de Araújo convocados para a festa.
"Vem aí mais um companheiro. Este demora mais a chegar ao palco. É de uma zona do país onde as pessoas são mais vagarosas", disse, com graça, Miguel Araújo antes de chamar António Zambujo. Sozinhos no palco, apenas com as guitarras ao colo, cantaram 'No Rancho Fundo' - tesouro da música popular brasileira que entretanto bem se acomodou à existência nas vozes destes dois bons amigos. A irmandade entre os dois é palpável e recomenda-se. Sente-se no que os liga e nos espaços que os separam. Ouviu-se depois, a duas vozes, 'Romaria das Festas de Santa Eufémia'.
Ia o concerto a meio quando Miguel Araújo lembrou o passe de magia que o conectou à música. Contrato vitalício. "Tinha 8 ou 9 anos quando vi o Rui Veloso a cantar na televisão", recordou, talvez um pouco envergonhado mas feliz pelo movimento certeiro do destino. "Vou chamar um jovem iniciante", confidenciou com ironia. "Se não fosse este meu amigo, não estaria aqui. Até fico arrepiado só de o chamar". E chamou. Rui Veloso subiu ao palco debaixo de um demorado aplauso e com muitos de pé. É engraçado como, embora de gerações diferentes, os dois músicos acabam por ter a mesma idade com a guitarra na mão. 'Prometido é Devido', numa versão a atirar para o blues, foi a primeira. 'Sangemil', canção que resume liricamente uma série de referências musicais de Miguel Araújo, veio a seguir e cresceu até chegar a um despique amistoso de guitarras que foram manuseadas com uma comovente alegria juvenil. "É um prazer estar aqui com o Miguel, estar aqui convosco", disse o músico veterano entre os dois temas.
'Balada Astral' embalou, com delicadeza, a sala lisboeta e formou uma constelação improvisada com as luzes que saíram dos telemóveis. O efusivo 'Dona Laura' fez o caminho para um efusivo agradecimento a Lisboa e preparou o palco para a entrada apoteótica dos Kapas (banda composta por tios e amigos dos tios de Araújo que andam nestas andanças há cerca de 60 anos). Muito respeito. A emblemática 'Like a Rolling Stone', do histórico Bob Dylan, foi a escolhida para honrar a longevidade do rock & roll. E honrou.
O fim da festa foi a dançar. Foi a dançar como se quer em noites de festa. E festa da rija. Toda a gente dançou como se ninguém estivesse a ver, ao som, claro, do solar e ondulante 'Talvez Se Eu Dançasse'.
"Obrigado, Lisboa", disse, com franco entusiasmo, o músico portuense. "Até à próxima", rematou antes de terminar o concerto com um resgate inevitável do tempo dos Azeitonas. A balada 'Anda Comigo Ver os Aviões' foi a última, com a roda de amigos completa em cima do palco e uma vénia coletiva a anunciar o fim da festa em Lisboa.



















