Cristo (Miguel Cristovinho) estreia-se a solo com "Ouro na Fenda"
Oiça a entrevista ao músico.
Cristo, o nome artístico de Miguel Cristovinho dos D.A.M.A., editou recentemente "Ouro na Fenda", o álbum com o qual se estreia a solo.O disco “profundamente pessoal e intimista”, como diz o comunicado enviado à imprensa, assinala um novo passou artístico no percurso musical de Miguel Cristovinho, com quem trocámos algumas impressões.
"Musicalmente, ‘ouro na fenda’ percorre diferentes estados de espírito, entre a melancolia, a sensualidade e a intensidade emocional, numa sonoridade cinematográfica e urbana. Criado em colaboração com amigos e músicos próximos, o disco nasceu de um processo criativo espontâneo e muito pessoal”, lê-se na nota. O músico colabora com nomes como João Não, Jaca, xtinto ou Marianne. "A acompanhar este lançamento, surge ainda uma colaboração especial com a Vista Alegre, que transforma a capa do álbum num prato exclusivo de porcelana, integrado na coleção 1+1=1", refere ainda o comunicado.
Porquê um caminho a solo agora?
Na verdade, porque senti vontade. Nunca tive muito essa intenção. Nem muito, nem pouco. Não tinha vontade de fazer um projeto a solo. Só que ano passado os D.A.M.A. deram o segundo concerto da carreira na MEO Arena. E o processo de preparação foi muito intenso. Acho que depois do espetáculo tive uma espécie de descarga energética que me fez estar em casa sem vontade de fazer nada. Isto durou cerca de um mês. E não estava propriamente a perceber porquê. Após alguma calma e ponderação é que cheguei à conclusão que tinha a ver com isso. Nos últimos cinco anos, os D.A.M.A. fizeram uma coisa muito específica que foi mergulhar nas tradições portuguesas. Fizemos um álbum no Alentejo. Aliás, passámos lá um ano e depois fomos para o Minho onde ficámos mais um ano. Fizemos outro projeto com música tradicional. E as outras canções que continuámos a fazer enquanto D.A.M.A. começaram a ficar engavetadas sem previsão de saída. E isso fez-me chegar à conclusão que talvez estivesse na altura certa para um projeto a solo.
Acendeu qualquer coisa em ti, certo? O álbum tem um nome bastante interessante, "Ouro na Fenda". Sei que tem um valor simbólico. Porquê este título?
Isto nasceu numa altura em que comecei a deparar-me com esta realidade de ter vontade de fazer um projeto a solo, uma vontade que nunca tive. E questionava-me porquê agora. Comecei a "escavar" e cheguei à conclusão que talvez fosse demasiado perfecionista. Fiz "mil" projetos que poderia ter lançado mas depois de terminá-los optei sempre por não lançá-los. Havia uma sensação de imperfeição que em vez de me trazer tranquilidade causava-me alguma ansiedade. Ao debater-me com essa realidade percebi que estava na altura de abraçar um pouco as minhas imperfeições. Li alguns livros e deparei-me com a filosofia [japonesa] do wabi-sabi que assenta precisamente na ideia de aceitar a imperfeição. Também conheci a arte tradicional japonesa kintsugi em que o artesão pega numa peça que esteja partida e repara-a com ouro em vez de deitar a peça fora. O que era uma aparente falha torna-se em algo belo e simbólico. Algo com valor. Tudo isso ressoou em mim e percebi que era precisamente este o conceito que queria para este projeto. É o conceito de aceitar as minhas imperfeições e perceber que é precisamente aí que está a beleza.
E transformar as imperfeições em ouro, certo? Na descrição do álbum, que foi enviada à imprensa, podemos ler que o disco simboliza a urgência em abraçarmos a nossa própria imperfeição. É urgente porquê?
Falo em urgência porque estamos completamente intoxicados pelo mundo digital e pelo consumo. A nossa capacidade de prestar atenção e de reter a atenção está cada vez menor. A maior parte das pessoas passa horas estúpidas em frente ao ecrã. Entre oito a doze horas por dia. Estamos em contacto com máquinas que fazem trabalhos aparentemente perfeitos. Estamos a usar a inteligência artificial que remove a parte criativa das nossas vidas. Acho que precisamos de contrabalançar esta tendência com algo mais humano. Com algo mais imperfeito, mais sensível. Com algo mais frágil.
Sim.
Por isso é que gostamos uns dos outros. Gostamos uns dos outros porque somos verdadeiros e humanos. Às vezes rimos, noutras choramos. Se os meus amigos, a minha namorada ou os meus filhos fossem máquinas, dir-me-iam tudo o que eu quero ouvir. Essa realidade não só me parece distópica como me parece absolutamente trágica. E é por isso.
Sendo este álbum também um projeto profundamente pessoal, quero saber se essa exposição te assusta ou se é tranquilo…
Não me assusta. Zero. Acho que todos os projetos acabam por ser bastante pessoais para quem é autor e compositor. Este projeto é profundamente pessoal, na medida em que todas as decisões foram tomadas por mim: produção, escrita, composição, capa e conceito. Tudo tem a ver comigo, com coisas que senti e descobri. Tem a ver com relações minhas ou com relações de pessoas muito próximas. Há apenas uma canção que não é autobiográfica.
E, segundo sei, seguiste muito o teu instinto na criação deste álbum…
Foi, sim. Não fui fazendo canções sem a intenção clara de fazer este projeto. Decidi qual seria o projeto e todas as canções que fiz foram as que ficaram fechadas. Foi instintivo no sentido em que segui uma vontade que foi repentina. Falo da vontade de fazer um projeto a solo para perceber o que estava dentro de mim e que precisava de sair naquele momento.
Também li que o álbum funciona como um conjunto de estados de espírito. Como é que criaste as atmosferas musicais para dar forma a esses estados de espírito?
Não sei. Não sei como é que se faz isso. (risos)
Foste fluindo. E também contaste com uma série de colaborações…Sim. Eu gosto de escrever sozinho…À noite, segundo sei, não é?À noite, sim. Mas para mim a música é um processo colaborativo. Acho que nunca vou gostar tanto de ter uma carreira solo como gosto de ter uma carreira com os meus irmãos. Nunca irei gostar tanto de lançar uma música sozinho como gosto de lançar com um artista convidado de quem eu goste muito ou com um produtor de quem seja fã. Gosto verdadeiramente do momento da partilha, do momento em que estamos juntos para [escutar] algo que antes não existia e que passou a existir. Algo que não é só meu. O "eu" é um pronome que tem um peso muito diferente do "nós". Com o "nós" somos capazes de fazer muito mais coisas. A mente coletiva é muito mais forte do que a mente individual.
Abriste a tua criação a amigos, colaboradores. Uma série de nomes escolhidos a dedo. Como é que esses encontros aconteceram?
Foi acontecendo com cada um deles. Nós temos um estúdio. Nós, D.A.M.A., abrimos uma label com uma pessoa que é nossa amiga há muito tempo e que acabou por se tornar nosso sócio. A nossa editora representa artistas como o Buba Espinho, os Bandidos do Canto, a Mar, o LilBoy Bruce, o Suave. Portanto, temos artistas que vão desde o mainstream ao urbano. A primeira coisa que eu, o Kasha e o Coimbra compramos com o dinheiro que recebemos da música foi um estúdio em Lisboa. Isto há coisa de dez anos. A nossa teoria era que se alguma coisa corresse mal, poderia voltar a correr bem com o estúdio. E, por isso, desde essa altura que mantemos um pólo criativo onde as pessoas convivem constantemente.
Uma comunidade, por aí?
É uma comunidade, sim. Mesmo que as pessoas não façam parte da label. Há muitos artistas portugueses que gravam lá no estúdio. Os melhores artistas da “tuga” passam a vida no nosso estúdio. Portanto, volta e meia, alguns participam em canções. É um bocado isso. Estamos juntos e as coisas vão acontecendo.
Vamos agora desembrulhar o disco. O início é a declamação de um poema do António Carlos Cortez, que foi teu professor de Língua Portuguesa no secundário. É uma homenagem que quiseste fazer ao teu professor? O que é que aprendeste com ele?
Foi uma pessoa que me inspirou muito. Primeiro porque reparou em mim. E é daqueles professores que não se esquecem. E não temos muitos. São pessoas apaixonadas pelo ensino e pela pedagogia. Além disso, o António Carlos Cortez é apaixonado pelas letras. Quando eu era mais novo também gostava de letras mas não sabia. Foi ele que percebeu e ensinou-me. Foi uma pessoa muito importante no meu crescimento. E depois teve uma carreira incrível e muito conceituada. Fomos acompanhando os passos um do outro, até que agora, na minha vida adulta, encontramo-nos com mais frequência. Senti que era a altura certa para fazermos alguma coisa em conjunto.
Mas foi uma homenagem sobretudo ao que te ensinou…
Sim. E pelo que me passou. Não digo que seja o meu mestre mas é um pouco essa ideia. Eu tinha 13 anos quando o conheci. E ele puxou-me para ver beleza em coisas que nunca tinha visto. Isso marcou-me. Ele marcou-me enquanto professor e enquanto meu amigo.
E, efetivamente, acho que é algo que atualmente falta muito aos jovens. Ler, saber o que ler, saber o que ver, o que ouvir. Falo em fazerem parte de uma mudança quase alquimista que precisamos de fazer uns com os outros em nome da arte. Acho que estamos muito presos no superficial.
Como artista sentes que é importante teres uma voz para ajudares como podes o que estamos a viver atualmente?
Acho que é essa a função da arte. É sairmos para outros mundos que não este e perceber como é que podemos mudar o mundo em que estamos.
A faixa que termina o disco, que se chama 'Bom Fingidor', foi a primeira que compuseste. E li que pretendias que o álbum fosse muito mais eletrónico. Em que medida é que te foste desviando, digamos assim, dessa intenção?
Efetivamente, queria fazer um álbum mais eletrónico, quase mais virado para a música techno. Gosto do som, saiu-me naturalmente e acho que é diferenciado. Mas acabei por sentir vontade de fazer canções com bmps [batidas por minuto] um bocadinho mais lentas. Deixei o ‘Bom Fingidor’ porque foi a primeira canção que fiz, mas as outras canções mais eletrónicas ficaram guardadas para o futuro. Mas é uma música muito importante, especialmente pelo poema. Foi a primeira música que fiz depois de ter decidido que ia fazer um projeto a solo. E pus esse poema na parte de trás do prato da Vista Alegre, que é a capa do disco e uma parceria com fiz com a Vista Alegre. E poema diz: "às vezes eu queria que soubesses que eu não estou bem como parece, mas a vida, pelos vistos, fez de mim bom fingidor. Encontrei uma caneta, é sinal que vale a pena eu tentar, por mais que seja provável, que, debaixo desse rímel, já lá more uma bola de cristal que vê tudo o que eu vejo e o que eu não vejo também". É sobre teres ânimo para acreditares em ti e fazeres as coisas que sentes que deves fazer. É sentir que as coisas valem a pena. E depois, ao mesmo tempo, é o confronto com o facto de haver pessoas que podem estar a ver-te melhor que tu próprio te vês.
Como é que imaginas que será agora o teu percurso a solo? Há muito horizonte, creio eu…
Não sou uma pessoa muito saudosista nem muito ansiosa com o futuro. Gosto de tentar viver o presente ao máximo. Sei que soa a cliché, mas é verdade. É óbvio que uma pessoa faz planos. Mas na indústria musical vivemos a um ritmo completamente diferente do ritmo do público. Isto está feito há um ano, mas só está a sair agora. Já tenho coisas que, se calhar, só vão sair daqui a um ano ou dois anos. Mas já estou habituado a isso. São quinze anos de carreira a fazer isso com os D.A.M.A. e, portanto, não sei como será o futuro. Já estou habituado a isso. Estou focado em fazer as coisas no momento presente. O facto deste projeto, que foi pensado, já ter saído cria outros momentos que podem acontecer de uma forma mais natural e tranquila. Talvez um EP ou um single esporádico. Não tem de ser pensado.
Queres acrescentar algo que não tenha perguntado?
Só que vai começar agora a venda dos quinhentos e cinquenta e cinco pratos da Vista Alegre. É uma edição exclusiva. Foi uma parceria que gostei muito de fazer porque a Vista Alegre é uma marca que tem 200 anos. E, embora eu goste da cultura urbana e da jovialidade da vida, valorizo imenso a tradição, os costumes e a elegância daquilo que é tradicional. Ter uma marca como a Vista Alegre a apostar em mim e na minha arte é um orgulho enorme, especialmente tendo em conta que é uma marca que marcou muito os meus pais e os meus avós. Consequentemente marcou a minha vida também. O prato já está à venda. E é isso.
É isso. O prato já está servido.
