Mike El Nite (ou Simplesmente Miguel): "permitimos que prioridades supérfluas se aglomerem em cima do essencial"
"Existencisensual", o novo álbum do músico, vai ser apresentado numa digressão especial que passará pelos principais clubes nacionais.
Mike El Nite (ou agora Simplesmente Miguel) regressou aos álbuns com "Existencisensual" - disco editado em fevereiro que mostra mais uma faceta do rapper, autor, DJ e produtor.
"Simplesmente Miguel" marca o início de uma nova fase na carreira do artista português que este ano celebra uma década nas lides artísticas.
O regresso, "após alguns anos de silêncio discográfico a solo, mas com uma presença forte em projetos como David e Miguel e Agrupamento Musical Os Tais, que fizeram o caminho estético até aqui" não se fica pela edição de um novo disco. Mais do que isso, "é uma declaração de intenções, um gesto de confiança, intimidade e entrega", como conta o comunicado de imprensa.
O novo registo discográfico "nasceu de uma ideia simples mas poderosa [do músico]: que ao pensar na vida, se apaixona por ela. É nessa dualidade - entre a reflexão existencial e o romantismo sensorial - que Miguel encontra a sua nova linguagem. As canções fundem sensualidade e filosofia, como se estivéssemos num café-concerto de atmosfera íntima e sedutora, mas onde as palavras, em vez de efémeras, carregam peso existencial", acrescenta a nota.
"Musicalmente, este novo trabalho revisita e reinventa universos: do revivalismo dos bares de música ao vivo dos anos oitenta e noventa em Lisboa, à estética dourada da canção romântica, passando pelo italo-disco 'portugalizado', pelo neomelódico napolitano, até ao city pop e jazz-fusão japoneses". Confessa Simplesmente Miguel, também em comunicado, que "é como se Ricardo Landum vivesse em Tóquio, e se lá houvesse uma Lisboatown de vida noturna".
"Existencisensual" vai ser apresentado numa digressão especial que em março passará pelos principais clubes nacionais:
12 de março - B.Leza Clube, Lisboa
13 de março - Maus Hábitos, Porto
14 de março - Lustre Braga, Braga
21 de março - Salão Brazil, Coimbra
27 de março - Texas Club, Leiria
28 de março - Bang Venue, Torres Vedras
Oiça a entrevista completa:
Simplesmente Miguel, acho que é assim que te tenho de tratar agora…
Podes tratar-me como quiseres. Pode ser só Miguel.
Só Miguel, apenas Miguel...
Inicialmente a minha ideia foi escolher o nome Apenas Miguel. Mas depois conheci o projeto Inês Apenas e percebi que a ideia já estava tomada. Foi então que pensei em arranjar outra palavra. A palavra "simplesmente" remete-me para o disco "Simplesmente", que a Rebeca editou nos anos 00.
Sim…
E recentemente também saiu o "Simplesmente Rosinha". Dá para perceber que o nome está em voga. Mas, na verdade, "simplesmente" é esta coisa de ser só eu. Apenas eu, sem filtros.
É precisamente isso que vou querer esmiuçar mais à frente. Mas primeiro, já que este nome assinala uma nova fase da tua carreira, quero perceber que fase é essa…
Ora bem, isto vem na sequência da interrupção repentina provocada pela pandemia. Por um lado, o que aconteceu foi uma tragédia e obrigou-nos a parar. Mas, por outro, e olhando agora para o copo meio cheio, além de nos ter obrigado a parar também nos obrigou a pensar.
Sim.
Nessa altura pensei muito sobre o efeito da passagem do tempo no meu projeto artístico. Foi então que comecei a olhar para projetos que idolatrava ou seguia quando era novo. Para começar, queria aumentar o espectro musical do que estava a fazer. E depois sentia que na música que ouvia e que fazia (que estava um bocado cingida ao hip-hop) havia uma série de personalidades que, a meu ver, estavam a envelhecer um bocado mal. Comecei a pensar onde é que quereria estar daqui a dez anos. Interrogava-me sobre se iria querer fazer a mesma coisa, com a mesma filosofia e dentro dos mesmos limites. Ou se optaria por desmontar uma construção que vinha desde a minha adolescência para passar a fazer o que quiser. Para ser simplesmente eu. E queria mostrar isso ao público. Porque, às vezes, as pessoas tendem a olhar para nós como se fizéssemos apenas uma coisa. Mas não é assim, podemos fazer tudo o resto. Podemos fazer o que nos apetecer porque somos livres. E vem um pouco daí. Após esse período e por causa desse shift, apareceu a oportunidade de fazer o projeto David e Miguel [ao lado de David Bruno]. Abordei esse projeto de um ponto de vista diferente em relação a outras participações que fiz. Pensei, "neste projeto não sou o rapper Mike El Nite, sou o cantor romântico Miguel". E foi assim que esta personagem começou a ganhar forma. A partir daí, foi uma escada de exploração, apoiada por colaborações que fiz com os Atalaia Airlines e com a dupla João Não & Lil Noon, com quem partilhei o Agrupamento Musical Os Tais, até que entrei na produção deste álbum e desaguei onde estamos agora.
O press release que descreve o teu álbum diz que é uma viagem pelo interior da mente do artista Simplesmente Miguel. Será que consegues fazer-me uma visita guiada pela tua mente, enquanto Simplesmente Miguel?
Primeiro comecei por pensar como seria o cantor, o animador de casinos, o animador de cruzeiros, o animador de hotel, o entertainer ou o artista de variedades dos anos oitenta e noventa. Falo dos entertainers da época dourada dos bares de música ao vivo que tinham de fazer um bocadinho de tudo. Imaginei como seria essa personagem em 2026 e quem é que seria essa pessoa. Se fosse um romântico à antiga, quão difícil seria navegar na sociedade atual e no amor dos dias de hoje que é tão rápido e efémero? E depois refleti sobre a maldição do entertainer. É alguém que está condenado a entreter o público, independentemente do seu estado de espírito. O disco é sobre a fronteira, que normalmente é invisível mas que [no álbum] se torna visível, entre o espetáculo e o que se passa na cabeça do artista durante o espetáculo. As canções e os interlúdios do álbum são sobre isso. Temos acesso à chegada do artista ao estabelecimento onde vai atuar, acompanhamos a ida à casa de banho mas também escutamos as suas ansiedades. Testemunhamos a interação com a pessoa que lhe vai pagar o caché, com o staff e com a banda que, às tantas, questiona-o se o espetáculo correu bem. Posso dizer que exteriormente é uma pessoa muito confiante e com alegria para dar e vender. Está ali para entreter e para fazer com que aquela noite seja agradável para toda a gente. Mas por dentro está cheio de ansiedades e passa mal. Normalmente esse lado permanece oculto ao público, mas eu quis deixar cair esse pano. É a lógica de desmascarar a personagem e o ego e mostrar ao público como realmente somos. É uma experiência humana partilhada por todos.
Como Simplesmente Miguel estás mais a descoberto?
É como se estivesse ao espelho a falar com o ouvinte.
Dizes que este álbum é um regresso às tuas origens. De que forma?
Talvez seja mais a nível textual. Tem mais a ver com o que quero dizer e mostrar. Estou mais despido, de certa forma. Por isso, é um regresso às origens, à minha raiz. E também senti isso no caminho que fiz com o álbum. Houve um processo de descoberta pessoal que me fez voltar a filosofias e a maneiras de ver o mundo que tinha deixado para trás por achar que eram infantis ou demasiado adolescentes. Na verdade, estão mais atuais do nunca. Uma pessoa vai construindo a vida assente pressupostos que são funcionais, mas que nem sempre são verdadeiros.
Como por exemplo?
A começar pela ideia de que no meio artístico é uma vantagem sermos pessoas de acesso difícil só para criar um certo mistério à nossa volta. Balelas. Uma pessoa tem de se mostrar como é. E eu próprio estava no meio de um bloqueio de escrita porque não estava muito recetivo a expor-me. Foi então que percebi que a solução era expor-me totalmente. Vai tudo desaguar ao mesmo sítio. O regresso às origens também é o regresso a um Miguel que não tinha medo de dizer as coisas e que não pensava nas consequências artísticas ou pessoais. Simplesmente era quem era. E isso acaba por ter, acho eu, efeitos mais positivos do que a outra parte que é mais velada, mascarada e calculista.
Há uma frase na descrição do álbum da qual gostei muito que é a ideia de ser um date com a existência. Onde é que levarias a existência num primeiro encontro?
Isso é sobre a ideia de que um artista tem de ser sofrido, tem de pensar muito na vida. Tem de sofrer para poder criar. Acho que a purga das nossas ansiedades na criação artística pode vir num formato bonito e atraente mesmo que seja baseada em sofrimento, ansiedade ou pensamentos negativos. Pode ser uma coisa engaging, agradável. Podemos falar dos nossos demónios num tom de festa ou dentro do cancioneiro romântico que é encarado como algo profundo a nível sentimental mas pouco profundo a nível filosófico. Porque não juntar esses dois mundos que, à partida, nunca iriam colidir? E depois acho que é preciso desmascarar a ideia de que precisamos de ser muito complexos para falar de coisas que são altamente básicas, como são os nossos instintos.
O press release também diz que este disco é uma declaração de intenções. Que intenções?
É tal coisa. Quase como pedir a mão em casamento, não é? Olha, eu estou aqui. Quero ser isto tudo para ti. Aceitas?
E agora vamos falar das canções. Quero começar pela '50/50'. Tu ainda não estás na meia-idade, mas já pensas nisso?
Não, não. Por isso é que digo que é a metade da crise de meia-idade. É como se dividisse a meia-idade ao meio.
Mas para teres uma canção a falar sobre isso, quero saber se já sentes "danos colaterais", ainda que futuristas, da meia-idade...
Acho que é mais sobre a perspetiva de ver a vida a mudar. Há um momento em que pensamos: "eu já não sou a pessoa que pensava daquela determinada forma. Agora sou outra”. E isto deve ser efeito da idade, da experiência ou daquilo que lhe queiram chamar. Essa música faz trocadilhos com os meios e o meio-termo. É sobre deixar as coisas a meio ou viver a vida com moderação. A minha educação, especialmente da parte da minha mãe, sempre foi de entendimento e moderação sem cair em extremos. Foi uma educação assente na importância de acreditarmos nos nossos sonhos, mas também na capacidade de resolver conflitos através do debate, no alcance de acordos e com abertura para fazer cedências.
Isso está um pouco fora de moda…
Está, muito. Mas a música é sobre a tensão do que implica sermos moderados. E sobre o termos de abdicar de certas experiências para, lá está, sermos moderados. É sobre a dúvida entre o querer ser moderado ou querer ser juvenil e vivenciar as experiências a cem por cento. Quero viver experiências a cem por cento, mas isso tem as suas consequências. A música é sobre essa tensão. Só vivi com peso e medida meia vida. Mas, por outro lado, isso trouxe-me conforto e coisas boas. Ajudou-me a cimentar a vida de uma forma que o ato de viver de forma inconsequente não faz.
É engraçado porque tenho entrevistado alguns artistas que estão agora nos cinquenta e muitas dessas pessoas falam na necessidade de resgatar a criança interior através da criação. Sentes isso, ainda que não estejas propriamente nessa fase da tua vida?
Não, mas acho que isso tem a ver com maturidade e com o desenvolvimento do nosso intelecto. Não há coisa mais inteligente do que saber que o segredo está em manter esse espírito de criança e em manter o encanto pela vida. Nós permitimos que muitas prioridades supérfluas se aglomerem em cima do que é essencial. E, no fundo, o que é essencial está connosco desde que nascemos. É só ir lá buscar. Mas obviamente que tudo o que fazemos tem consequências para a nossa subsistência e para as nossas relações pessoais. Então, há sempre esse mediador que é o mundo e os outros. É muito existencial e sensual. (risos)
É mesmo. Agora vamos ao tema 'Demónios'. Senti foste muito honesto a falar dos teus demónios. Fizeste uma catarse nesse tema?
Na verdade, meio que generalizei mas depois acabei por ser mais específico. O meu pai costumava dizer-me, "queres uma mão que te ajude? Procura no teu braço." Como quem diz, procura uma mão que te ajude na extremidade do teu braço. Ou seja, não contes com ninguém. E há alturas em que não podemos contar precisamente com as pessoas com quem mais queríamos contar. Isso é algo que alimenta os meus demónios, entre outras dúvidas que tenho todos os dias tal como toda a gente. Não são apenas as pessoas com exposição pública que sofrem de ansiedade devido ao julgamento dos outros. Mas para purgar esses demónios é preciso falar sobre eles. Então, o melhor será falar desses demónios numa música que dê para bater o pé, que dê para dançar num bailarico. Dançar e socializar é uma boa forma de purgar demónios. E depois convidámos o xtinto que é muito bom a falar disso. É uma pessoa muito atormentada por esses tais demónios e tem uma forma muito especial de escrever sobre isso. Aconselho toda a gente a ouvir o novo disco dele. Saiu há pouco tempo. Chama-se "Em sonhos, é sabido, não se morre” e é muito sobre isto. No meu disco é o momento em que o artista vai à casa de banho e fica protegido naquele cubículo. É nessa altura que os pensamentos surgem, quando ninguém está a ver. É onde podemos estar inseguros à vontade. E é nesse espaço fértil que as dúvidas e os demónios se aproximam. Acho que qualquer pessoa que faça atuações ao vivo ou que fale em público consegue sentir uma ligação com esta experiência. Está tudo a correr muito bem, mas, assim que interrompemos a performance, uma dúvida apodera-se de nós. E essa dúvida põe tudo em causa. Começamos a pensar que, mesmo inseguros, temos de voltar para o palco. O segredo é espernear, gritar e depois voltar.
E quando estás nos teus momentos mais íntimos de reflexão, seja onde for, o que é que te inquieta?
Inquietam-me as questões que se abatem sobre mim, quando os meus pensamentos se regem pelo meu ego ou por aquilo que sou para os outros. Inquieta-me o mundo, as pessoas e a falta de empatia da qual eu próprio também me sinto culpado. Essa hipocrisia inquieta-me. Inquieta-me não ter soluções para nada. Mas acho que o segredo para acabar com essas inquietudes é estar ok com a ideia de que não controlamos absolutamente nada a não ser nós próprios (o que nem sempre corre bem), o que nos rodeia e o momento presente. Estamos aqui, agora. Ontem não interessa e amanhã não interessa. Interessa o agora. Vamos fazer o melhor que podemos agora. Vamos fazendo devagarinho. Uma missão de cada vez. Isto tem tudo a ver com uma pesquisa que fiz sobre mindfulness, uma palavra que até está na moda. Saí de um lugar onde não estava muito bem mentalmente e por isso tenho pesquisado muito sobre saúde mental. Tenho investido nisso e também na saúde física porque uma controla e compensa a outra. Tudo se complementa. E este disco emerge desse processo. A forma como me abro com o ouvinte também é uma maneira de abrir-me comigo próprio. É uma forma de dizer as coisas penso. Ao verbalizá-las, perdem a força. Então, agora já estão cá fora, impressas em áudio para toda a gente ouvir. Já existem, foram purgadas. Já se pode lidar com elas e já podemos ir para as próximas. É isto. Está tudo ligado. A arte e a vida.
É por isso que tens uma faixa que se chama 'Grato'?
Sim. E queria terminar o disco com esse tema, embora no álbum ainda haja um momento a seguir. Esta coisa da gratidão surgiu depois de recentemente ter ouvido um podcast de um cientista norte-americano chamado Andrew Huberman. O podcast ensina-nos como é que podemos aplicar coisas da ciência ao dia a dia. A ideia é facilitar o discurso científico para aplicar no dia a dia. E, ao longo de seis episódios, o Andrew Huberman entrevistou o Paul Conti, que, pelo que sei, é um psicólogo muito conhecido. E esse psicólogo focou várias vezes o mesmo ponto. Sublinhou que uma das bases mais importantes da saúde mental é lembrarmo-nos da gratidão. Recomendou, inclusivamente, fazermos um exercício de gratidão ao acordar. A ideia é usar os primeiros dez minutos do dia para meditar. Não estou a falar da meditação dos mantras e por aí. Falo de aproveitar esse tempo para pensar em quem é que somos, onde é que estamos, quem é que está connosco e o que temos. Se fizermos essas contas todos os dias de manhã, possivelmente vamos sair da cama com um outlook mais positivo. (…) A ideia é, pelo menos, começar o dia com esta perspetiva porque assim que formos pegar no telefone todas as outras [perspetivas] entram-nos pelos olhos adentro. Portanto, vamos controlar o que podemos e agradecer. Agradecer porque, de facto, a vida é uma bênção. Gosto de pensar assim.
E deste-lhe uma vibe assim meio de gospel, com um coro…
Embora não seja uma pessoa ligada a nenhuma instituição religiosa, tenho andado a pensar que estou a tornar-me mais espiritual. E o gospel é uma das formas mais bonitas de materializar a espiritualidade em música. Essa parte foi muito inspirada, por exemplo, em discos como o “Jesus Is King”, do Kanye West, que, na minha opinião, é uma obra-prima. Para muita gente será questionável, mas, independentemente das motivações religiosas, a música em si está sublime. É muito minimalista e é muito baseada na voz humana, no poder que a voz humana tem. Tentei recriar um pouco disso no fim do disco. São vozes, em uníssono, a agradecer. Acho que fica sempre bem.
Lembrei-me agora do álbum "LUX", da Rosália. Há uma faixa incrível, que se chama 'Mio Cristo Piange Diamanti', que também versa sobre Cristo. É música feita com esse toque mais espiritual, mas talvez não necessariamente by the book…
Isso é um regresso às origens. Porque possivelmente é daí que vem a música. Vem da adoração a algo maior que nós. Acho que não interessa se vem da religião x ou y. É uma manifestação humana. Olhar para cima e chamar uma força que sentimos que existe mas não conseguimos explicar. E, muitas vezes, somos um recetáculo dessa energia para a própria criação musical e artística. Nem sabemos muito bem explicar isto. Às vezes, estou no estúdio, fazemos uma música e não sabemos muito bem como é que aquilo aconteceu. Fomos meramente um canal para uma inspiração passar por nós.
Há muitos artistas que têm teorias muito interessantes acerca disso…
É qualquer coisa. Parece uma prateleira mística aonde vamos agarrar coisas. E depois acho que também devemos deixar lá coisas para que o stock acabe.
Este álbum também é um resultado da união de forças criativas com o Baco. Não é um deus, mas...
Também é um deus, sim.
Como é que se conheceram?
O Baco é o nome artístico de um rapaz que se chama Rodrigo Dionísio. É daí que vem o nome Baco. Conhecemo-nos porque temos amigos em comum. A minha namorada é amiga de uma pessoa que pertence ao círculo de amigos dele. Num momento de convívio que tive com essa pessoa, ela disse-me que o Baco fazia coisas muito interessantes. A primeira coisa que ouvi dele foi uma cover da canção ‘Garçon’, do Marante, mas em versão Frank Sinatra. Pensei logo que era o meu tipo de linguagem, o meu tipo de humor e o meu tipo de abordagem. E, quando nos conhecemos, aconteceu uma coisa que já não me acontecia há muitos anos. Tivemos uma ligação e compreensão imediatas. O trabalho começou a fluir muito naturalmente. Na primeira sessão que fizemos juntos, acabámos uma música em cerca de duas horas. E quase todo o disco foi feito neste registo. Pela primeira vez na minha carreira tenho música a mais. É um prazer trabalhar com ele. É uma pessoa muito criativa. E é muito bom quando alguém percebe o que queremos dizer. Falamos a mesma língua. (…) Eu precisava de alguém que tivesse o talento de materializar as ideias de uma forma que eu não consigo fazer sozinho. E tanto a colaboração com ele como o ato de delegar também é um gesto de confiança. É preciso confiar para deixar as coisas nas mãos de alguém. E é preciso que haja uma relação muito especial para que isso aconteça.
Então, deverá acompanhar-te no futuro…
Se tudo correr bem, por mim, sim, claro. Em equipa vencedora não se mexe. É o que se costuma dizer.
E vocês tiveram um grande desafio em termos de sonoridade. Do synth-pop à city pop, passando pela música romântica. Também dizes que o álbum é “como se Ricardo Landum vivesse em Tóquio, e lá houvesse uma Lisboatown de vida noturna”…
Nós tentámos pôr tudo num blender [misturadora] para a mistura sair bem. Alguém pode olhar para esses estilos todos e pensar que a mistura não faz sentido. Mas a verdade é que, se pensarmos bem, a música nos anos oitenta em Portugal tinha muita música disco, pop que acabou por não vingar, transformando-se depois num estilo de música ao qual eu gosto de chamar de pré-pimba. Antes de existir o pimba, tal como o conhecemos, havia artistas como a Ágata, a Ana, o Zé Malhoa e por aí. Até o Marco Paulo tinha muitas músicas mais na onda disco, que era o que se fazia no resto da Europa. Fazia-se em França, Itália e até no Leste. E também na Ásia. Houve um momento no mundo em que toda a gente estava a falar a mesma língua musical, só que depois o mercado começou a ficar ultra segmentado. Mas vem tudo do mesmo sítio. E, com algum saudosismo dos anos oitenta, percebi que havia muita coisa que se podia misturar precisamente porque vinha do mesmo sítio. O jazz fusão japonês vai beber à música ocidental e latina e nós vamos beber à deles. Estamos a ir todos à mesma fonte. (…)
E foste buscar uma pérola para o álbum, em particular para o tema 'Oceano Pacífico'. Foste buscar o João Chaves, que era o locutor do programa de rádio "Oceano Pacífico". Como é que isso aconteceu?
A estética musical do tema remetia-me para a playlist desse programa. Falo daquele jazz mais calmo para ouvir enquanto estamos a viajar de carro pela Marginal. E depois faz-me lembrar a época dourada da rádio, quando à noite passava música mais tranquila, romântica e sensual. (…) Pensei, "já fiz uma música na onda do programa, com o nome do programa, só me falta tentar encontrar o locutor do programa". Acabei por encontrá-lo no Facebook e enviei-lhe uma mensagem. Ele foi incrível. Disse-me apenas, "diz-me o que queres que eu diga e eu mando-te um áudio pelo WhatsApp. Só tens de me pôr lá nos créditos". Quando recebi o áudio dele no WhatsApp fiquei do tipo, "isto está a acontecer, ele está a falar sobre mim". Foi quase como se a minha música tivesse estreado no programa dele. É como se o meu eu de cinco anos estivesse no carro a ouvir a rádio e ouvisse o lançamento de algo que fiz aos trinta e sete anos. Foi uma viagem no tempo.
Mas a letra da canção é profunda. É um mergulho profundo. A dada altura, cantas: “enquanto não souber andar não quero ver terra”. Gostei muito desta frase…
Sim. Eu diria que se calhar é a canção mais séria do disco. E também quis terminar com essa nota. O que faço e o que já fiz noutros momentos tem um lado humorístico, mas o palhaço também tem uma vida. Essa canção é muito importante para mim. Até me emocionei quando estava a ensaiá-la. A canção fala do processo de chegada até ao lugar onde estou agora. Foi um processo que passou por muitos tumultos. E ainda passa. É sobre a procura pela paz. E essa procura é tão grande como um oceano. Pode demorar a vida toda. Acho que nunca encontramos a paz de forma plena, mas sem dúvida que já vejo terra.
Já vês terra…
Já vejo terra. Não quer dizer que não me volte a afastar. (...) Mas gosto muito desta canção. Tem um lado jazzístico, toca na música portuguesa de uma outra forma. Agora fala-se muito da nova portugalidade e, muitas vezes, temos o impulso de ir ao que é tradicional. Mas a Rita Guerra, o Beto ou os Clã também são música portuguesa. E eu cresci com esta paisagem da música ligeira dos anos noventa. Havia música mais elaborada, outra mais simples, alguma era considerada foleira e outra era considerada mais séria.
E isto porquê? Porque há uns acordes aqui e ali que são diferentes. Porque a letra é mais artística e faz mais sentido num canal mais erudito e a outra num canal mais popular. Faz tudo parte da nossa identidade. (...)
Vais fazer um circuito por vários clubes. Estou muito curiosa para saber como é que vais apresentar este álbum ao vivo. Conta-me tudo.
Sim. Também para recriar essa onda de bar. Visualmente, estou a tentar aprimorar [o espetáculo] com a ajuda da minha querida companheira no que toca às fatiotas, à época e ao estilo. O Baco vai ser o meu canivete suíço. Já foi no estúdio porque não trazer essa dinâmica para o palco? (risos) Em certas músicas ele toca guitarra, noutras toca baixo, também toca teclas e em algumas canções não faz nada, é só um figurante. Também pode espalhar pau santo pela sala durante um tema, por exemplo. (risos) Em Lisboa, vou ter duas cantoras back vocals e alguns convidados, como o xtinto, o Ruben da Silva, no saxofone, e Billy Verdasca na flauta transversal. Eles também fizeram parte do disco. Por enquanto, não vou conseguir levar essa estrutura para os outros concertos, mas, se tudo correr bem, será uma realidade no futuro. O que eu gostava mesmo era de ter show tipo Luís Miguel, com uma big band, daquelas mesmo como era nos anos oitenta, com cerca de vinte músicos.
Mas em Portugal é difícil sustentar isso no nosso circuito, especialmente se o projeto não for altamente consensual ou se não estiver no espectro da pop. Se tivermos um público mais indie, temos de adaptar o projeto para que seja sustentável. E, então, vamos adaptando caso a caso. Mas, se a coisa começar a rolar, certamente que aumentarei o elenco. Acalento o desejo de ter mais músicos e de ter um show mais musical. É isso que quero ver quando vou assistir a espetáculos. Também gosto da experiência visual e eletrónica. E, às vezes, também gosto de ver um artista a solo, com um bom show de luz e vídeo. Mas acho que, nesta era das inteligências artificiais, quanto mais humanos envolvidos, melhor.
Este disco ou esta fase também procura uma maior proximidade com o público, certo? Portanto, a ideia de fazeres um circuito por clubes fomenta essa intimidade…
Sim, sim. Até estou a ponderar fazer uma frontline com mesas no primeiro espetáculo que será no B.Leza [em Lisboa]. Será tipo um café-concerto. Acho que esse conceito tem de voltar. Agora, que já tenho uma certa idade, nem sempre quero estar em pé a noite toda para ver uma banda a atuar. Quero sentar-me, pedir um copo que vem com uma pipoquinha. (…) Lembra-me muito a noite lisboeta onde cresci. Os meus pais tinham um bar na Madragoa, que era o Vicente Borga, e tinham muitos amigos de bares como o Berro, o Xafarix, os Templários, o Jardim da Música. Eu cresci neste ambiente, portanto também é um regresso a casa. (…) Quando comecei a minha carreira musical quis cortar com esse tipo de nepotismo que era o facto de os meus pais estarem ligados ao meio, à música. E agora estou a sentir o chamamento do sangue, sem vergonha das minhas origens. Estou a gravitar para lá e acho natural que isso aconteça.
