Milton Hatoum: "A boa literatura é um convite à releitura"

Autor de alguns dos romances mais importantes da literatura contemporânea em língua portuguesa, Milton Hatoum defendeu o papel da ficção na preservação da memória e no combate às versões oficiais da História.

O encontro com os leitores continua a ser um dos momentos mais gratificantes da vida de Milton Hatoum. No Porto, durante o festival BABELL, o escritor foi surpreendido por uma leitora que viajou de Braga para assistir à sua conversa com Conceição Evaristo.

"É sempre um prazer encontrar os leitores", afirmou. "Embora a gente não pense no leitor quando escreve." Para o autor de Dois Irmãos e Relato de um Certo Oriente, o leitor ideal é aquele que regressa aos livros e descobre neles novos significados. "Eu acho que um bom romance é um convite à releitura."

A memória, uma das marcas centrais da sua obra, esteve no centro desta entrevista. Hatoum rejeita a ideia da memória como simples recordação e aproxima-a da imaginação, transformando-a numa poderosa ferramenta literária. "A memória é uma espécie de musa tutelar da literatura", explicou. "Para mim, a memória tem a força da imaginação. Ela não é uma lembrança simplesmente."

O escritor sublinha que as suas narrativas nascem de experiências vividas, mas apenas depois de o tempo lhes conferir a distância necessária. "Eu jamais conseguiria escrever sobre o passado recente, porque o passado recente está muito vivo ainda", observou.

Inspirando-se numa reflexão de Clarice Lispector, acrescentou: "Nós devemos nos lembrar daquilo que nós esquecemos." É precisamente dessa memória difusa, "nebulosa" e incompleta, que nasce a ficção.

Escrever contra o esquecimento

A ditadura militar brasileira, tema recorrente na sua mais recente trilogia, ocupa um lugar central na sua vida e na sua literatura. Hatoum viveu grande parte da juventude sob o regime militar e foi detido duas vezes durante esse período.

"Nós não conhecemos a liberdade durante mais de vinte anos", recordou. "Foi praticamente uma experiência que fez parte da minha vida."

Para o autor, a literatura desempenha um papel fundamental na preservação da memória histórica e na contestação das narrativas oficiais.

"Quando os escritores escrevem sobre o passado, é para desmontar essa versão oficial da História", afirmou, referindo-se à forma como setores ligados ao antigo regime continuam a evitar o termo ditadura para descrever o período militar brasileiro.

Apesar das semelhanças entre a sua experiência pessoal e a do protagonista da trilogia iniciada com A Noite da Espera, Hatoum rejeita qualquer leitura autobiográfica.

"Tudo o que pertence à nossa vida e entra na literatura já não é mais a nossa vida, já é ficção", explicou. "O desafio é transformar a vida em ficção."

Uma nova protagonista feminina

Com a publicação do terceiro volume da trilogia no Brasil, o escritor já trabalha num novo romance. A futura obra recupera uma personagem ligada ao universo dos livros anteriores: uma mulher franco-brasileira que se encontra presa numa cadeia feminina em Dijon, França. "É uma história de amor, de amor e outras coisas", revelou.

A escolha de uma narradora feminina não é inédita na sua obra recente. O terceiro volume da trilogia é também narrado por uma mulher: a mãe do protagonista, que reconstrói a história da família e do filho desaparecido.

A liberdade como dever cívico

Hatoum é um dos escritores retratados na exposição de Daniel Mordzinski patente no Centro Português de Fotografia, integrada na programação do BABELL. Embora ainda não tivesse visitado a mostra no momento da entrevista, recordou o fotógrafo argentino como "um grande fotógrafo" que o retratou ainda nos anos 1990, em Paris.

Questionado sobre o significado de integrar uma exposição dedicada a escritores e artistas que lutam pela liberdade, respondeu sem hesitar. "Os intelectuais, os escritores, os artistas, como têm uma relação com o público, têm quase um dever humanista ou cívico de falar pelos direitos humanos e pela democracia."

Uma convicção que continua a orientar a sua intervenção pública e literária. Para Hatoum, a defesa da democracia não é apenas uma posição política, mas uma responsabilidade inerente ao papel do escritor na sociedade. "Acho que é um dever falar pelos direitos humanos e pela democracia", concluiu. "É isso que eu tenho feito nos últimos anos."