Mimi Froes: "preciso de estar irrequieta para conseguir escrever"

Entrevista à cantora e compositora que editou esta sexta-feira "Para Lá da Paisagem", o segundo álbum de estúdio.

A cantora e compositora Mimi Froes, que agora vive em Londres, Inglaterra, editou esta sexta-feira "Para Lá da Paisagem", o segundo álbum da discografia e o sucessor de "Contornos" que editou em 2023.

"Entre a delicadeza dos seus poemas e a suavidade da produção musical, Mimi Froes apresenta um novo trabalho onde assume voz, texto e música, tornando-se o mote de tudo o que faz. É uma escritora de canções nata que já colaborou com inúmeros artistas nacionais", diz o comunicado de imprensa.

A artista portuguesa vai apresentar "Para Lá da Paisagem" no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a 4 de março de 2027, e na Sala Suggia da Casa da Música, no Porto, a 10 de março.

Gostei muito do disco. E quero muito saber o que está para lá da paisagem.

Essa é a pergunta que vou querer fazer a toda a gente que ouvir o disco. A proposta é que consigamos procurar esse lado porque, no fundo, é um lugar super bonito. E ainda bem que o é porque é a ilustração de quem somos. Somos nós que fazemos a nossa própria paisagem e depois vemos a paisagem dos outros. Só que para lá da paisagem está a verdade. Está a verdade das coisas, daquilo que sentimos. A bagagem do ser humano e da sociedade atual. É isso. Acho que para lá da paisagem está a verdade.

Creio que estamos a entrar aqui no campo da filosofia, mas quero saber se essa procura pela verdade é algo que te tem acompanhado desde cedo…

E da metafísica…

Sim, exatamente.

Sim. Esta procura acompanha-me desde cedo. E há relativamente pouco tempo comecei a ler mais sobre filosofia. Já me interessava por este tipo de assuntos mas não tinha o conhecimento. Não coincide com a altura do disco, mas mostra que é uma consequência do caminho que tenho vindo a fazer desde miúda. Sempre quis tentar perceber o porquê das coisas. O meu pai dizia-me que era muito curiosa. Se eu quisesse entender porque é que a maré funcionava da forma que funcionava, ia pesquisar sobre isso. Precisava de entender o porquê das coisas. E ainda bem. E [essa curiosidade] estende-se ao ser humano. Quero saber porque é que determinada pessoa sente o que sente ou porque é que tem certos medos. É bom questionar. Nós somos muito rápidos a julgar. É fácil acharmos que temos todas as informações do nosso lado. Andei constantemente nessa procura. Não é propriamente uma novidade na minha música. A minha música sempre falou do que está para lá do superficial ou da imagem, mas acho que neste disco isso acabou por ser mais óbvio. O facto de, há três anos, ter emigrado mudou muita coisa. Saí da minha bolha. Senti um contraste real com pessoas reais de diferentes partes do mundo. E falo inclusivamente de pessoas oriundas de lugares que muitas vezes só ouvimos falar nas notícias. São lugares sobre os quais não conhecemos nada. Posso simplesmente sair à rua e começar a falar sobre os assuntos que são desconfortáveis. Acho que tudo isto aconteceu de uma forma natural. É o crescimento, a idade adulta a entrar e a avançar. E é sempre a busca da resposta ao porquê das coisas.

Escreveste a seguinte frase no Instagram: "este álbum é o tempo que passou por mim". Significa que viveste estes três anos de forma diferente, de uma forma mais forma intensa?

Muito diferente. Acho que o facto de ter emigrado foi muito importante nesse sentido. Tenho uma vida muito confortável. Em Portugal, fui abençoada pelo privilégio. E estava a chegar a um lugar confortável. Ia fazendo a minha música e outros trabalhos que complementavam a minha música. E foi preciso sentir-me outra vez desconfortável para ficar inquieta. Acho que também faz parte da minha personalidade. A minha irmã diz que tenho aversão à monotonia. E, de facto, preciso de estar irrequieta para conseguir escrever. E estava a ficar muito calma, muito tranquila. Acho que quem fica muito confortável e muito tranquilo, começa a encontrar problemas muito pequeninos. Quando a nossa vida está estável continuamos sempre à procura de melhorá-la. Mas se [a vida] está boa, as nossas preocupações do dia a dia passam a ser as coisas comezinhas. Achei que isso era injusto para minha música e para fase que estava a viver. Mas também para o quanto ainda queria saber mais sobre o ser humano, sobre mim própria e sobre a música. Emigrei para Londres em 2024. E foi uma grande mudança porque dei com o mundo e com as dificuldades de frente. Dei com o que é ser imigrante. E acho que isso foi uma das grandes razões pelas quais vivi estes últimos anos com tanta intensidade.

E encontraste, certamente, uma realidade artística diferente, certo?

Muito.

Tens trocado de impressões com outros artistas? Sentes que a experiência em Londres também pode estar a influenciar a tua música?

É curioso. O ter vindo para Londres trouxe ao de cima o que mais gosto em Portugal. Digo isto no sentido em que, por exemplo, fui a um Irish Pub e assisti a uma atuação de música de folclore tradicional irlandesa. E a música portuguesa, sobretudo a que se faz no Norte (com as influências celtas), tem muito em comum com a irlandesa. Sinto que essa experiência evidenciou as minhas raízes. Quando estamos fora talvez seja mais fácil percebermos a união entre as coisas. Encontramo-nos em coisas que se calhar nem estávamos à espera. Por outro lado, acho que, apesar de ter escrito canções muito portuguesas, também me apaixonei pelo facto de aqui se poder fazer tudo. Portugal é um lugar pequenino. Ainda temos muito para caminhar, o que acaba por ser uma boa notícia. Significa que há muito por fazer e que nós podemos ser as mãos do trabalho e da mudança. Mas aqui é um mundo que não acaba. Vi estilos de música que nem sabia que existiam. E isso foi tão libertador que trouxe algo muito específico à minha música. Deu-me a tranquilidade de saber que pode valer tudo. Por isso, é que agora tenho canções de cinco minutos, por exemplo.

Acho que isso se sente bastante no disco. Assumiste a coprodução com o Tomás Marques, certo?

Exatamente.

Como é que foi a vossa dinâmica artística? É, de facto, um álbum com todas essas camadas. Como é que as vossas cabeças e a vossa intuição se conectaram?

Eu e o Tomás já tínhamos trabalhado juntos no meu disco anterior, o "Contornos". Mas este álbum começou com um telefonema que fiz ao Tomás. Perguntei-lhe: "Tomás, estamos numa altura em que somos muitos no mar, todos queremos ser artistas. Se eu não souber o que estou à procura a nível musical, será que vou ficar no mar, na corrente à espera que alguém me venha buscar?” E o Tomás percebeu bem a metáfora. Nós somos muito românticos e dramáticos quando falamos das nossas carreiras. Mas ele entendeu perfeitamente e perguntou-me: "o que é que tens para dar?" Na altura, tinha algumas canções, mas ainda não estava nada fechado. Esperámos mais um bocadinho e, de repente, entre 2024 e 2025, escrevi tranquilamente umas cem canções, algo que nunca me tinha acontecido. Já tinha escrito muito, mas nunca em tão pouco tempo. Isto sem contar com as canções que escrevi em inglês, mas que, para já, não vão ver a luz do dia.

Mostrei ao Tomás as canções [em português] e, de repente, foi mais fácil perceber quais as que sobressaíam e quais a que tinham algo em comum quer a nível musical quer a nível lírico. Havia canções que até podiam ter algo em comum [musicalmente] mas eram sobre a mesma temática. Sentimos que não era preciso estarmos a bater no ceguinho, mais valia guardá-las para um próximo disco. O Tomás percebeu o som que eu andava à procura até porque partilhámos muitos discos [durante o processo]. (…) As coisas formaram-se primeiro nos nossos sonhos e depois fomos para uma residência artística, em Mafra, onde estivemos durante três dias. (…) Fui com o Tomás e com a minha banda. Foi nessa residência que começámos a construir os arranjos, seguindo um pouco as diretrizes que eu e o Tomás tínhamos falado e planeado. A presença da banda na residência também foi muito importante para sentirmos que estávamos todos a fazer a mesma viagem. Sentimos que estávamos todos a caminhar para o mesmo lado e a entender o objetivo do disco a nível lírico. O título "Para Lá da Paisagem" também tem um sentido musical. O que é que havia para lá da paisagem em relação ao que já tinha feito até aqui? O que é que ainda podíamos fazer? E falámos muito sobre o próximo nível do som da Mimi Froes. Houve esse briefing da minha parte e eles ficaram muito entusiasmados, o que é bom. A melhor coisa do mundo é trabalhar com pessoas entusiasmadas. Fomos montando canção após canção e entendendo o que tínhamos de mudar. (…) Gravámos o disco em fevereiro e depois fomos gravando coisas por cima, algo que nunca não tinha feito. (…) Olhámos para cada canção como um serviço e para cada serviço como uma canção. A canção teria de estar na sua plenitude e nós teríamos de que conseguir fazer isso, fosse com dez dobras de guitarra ou com apenas uma guitarra.

O Tomás entendeu o caminho desde o início e fez um ótimo trabalho nas edições ao lado do André Tavares. (…) Foi um processo longo, demorado e mesmo assim foi mais rápido do que eu pensava. Mas foi, essencialmente, um processo muito honesto da parte dele. Eu precisei de largar. Acho que é muito importante, a dada altura, o artista largar. Se não largar, pode entrar em parafuso.

Não é fácil quando isso tudo funciona, não é? E parece que cada canção tem uma espécie de ciclo de vida próprio…

A coisa mais difícil neste disco foi fazer o alinhamento. E foi exatamente por isso. Fico contente porque, de facto, acho que esse é o pensamento certo. Cada canção tem um universo muito específico.

Senti que em algumas canções houve momentos de libertação. Tens vários momentos, aliás. Ora cantas de uma forma mais sussurrada ao piano ora libertas a voz. Há uma série de emoções neste disco. Na canção ‘Não Leves Mais de Mim’, por exemplo, o tema passa por esse momento de libertação e depois acaba à capela. Há muitas variações mas sempre muito harmoniosas.

É verdade. Acho que essa canção, por si só, é uma viagem. Começa com um "não me faças mal" e, de repente, há uma libertação. O "não me faças mal" é um pouco contido, mas quando chega a parte da libertação a voz fica mais forte. Há uma grande libertação para depois cair na fragilidade final. Isto porque também há fragilidade nessa libertação. Esse tema é talvez o mais eclético a nível vocal. Aprendi muito com artistas como o Camané ou a Cécile McLorin Salvant. São artistas que me fazem entender que sou cantora. Ajudam-me a entender que a minha voz e a interpretação que escolho para cada momento vai ajudar a contar melhor a história. E isso é muito importante. Tive a ajuda do Miguel Marôco, que é um artista fantástico. Ajudou-me muito a perceber como é que podia dar a interpretação certa. O Miguel gravou as vozes comigo exatamente para eu conseguir ter alguém de fora que me dissesse: "aqui estás a dar-me algo um pouco arrogante, não queres dar-me uma coisa mais confiante?" E, às vezes, a linha é mesmo muito fina. A canção 'Não Leves Mais de Mim' foi feita assim. Foi feita na véspera de um concerto. Talvez estivesse numa das minhas piores fases emocionais. Comecei em 2023 e só acabei em 2025. E foi nessa fase que veio a parte da libertação. (…) Foi necessário acompanhar esse crescimento, à procura desse lugar livre.

Também gostaria que me falasses da faixa 'Dizemos' que é uma lengalenga. Qual foi a intenção de incluir uma faixa assim no álbum? 

É uma canção que sempre me perturbou ligeiramente. A canção acaba a dizer que só a morte é que faz com que todos façam o que devem fazer. E este pensamento é um bocado frustrante. Crescemos a pensar que a morte, que é o que assusta toda a gente, é a única coisa que pode mover a nação, o mundo ou a sociedade a fazer algo de concreto. Às vezes, nem tem de ser de bom, mas tem de ser concreto. (…) O tema é uma antecipação da faixa que vem a seguir. A primeira frase da canção seguinte, que se chama ‘Adeus aos Lugares do Silêncio’ é: "dizemos adeus aos lugares do silêncio". Então, eu pus a palavra "dizemos" no título para ligar com a canção a seguir. É como se as duas canções fossem uma. A 'Dizemos' é uma canção popular que antecipa o tal adeus aos lugares do silêncio. Parece que tem de haver morte para nos manifestarmos ou para tentarmos entender o mundo da melhor forma possível. 

A canção 'Adeus aos Lugares do Silêncio' é um manifesto das tuas inquietações em relação ao que se passa no mundo? Sentes que a esperança está a ser ameaçada?

Dizer que a "esperança estar a ser ameaçada" é uma boa frase. E acho que sim. Quando escrevi essa canção a minha esperança estava quase "debaixo da terra". Agora talvez já não esteja. Mas na altura creio que a composição do tema veio de uma grande inquietude. E digo isto em dois sentidos. O primeiro é o facto de ver e de saber o que se passa e o segundo é que não posso fazer nada em relação a isso. Quando escrevi essa canção estava a entrar numa fase muito estável e muito calma da minha vida. Estável no sentido emocional e em matéria de saúde mental. De repente, estava a viver as melhores histórias da minha vida. Mas todos os dias chegava a casa e deprava-me com as notícias. E nessa altura pensava, "a lata que tenho em estar viva". O que na verdade é um pensamento injusto e infantil. Mas eu tinha de escrever sobre isso. Tinha de me confrontar com o contraste entre a beleza que é estar no mundo e, ao mesmo tempo, saber que num lugar longe da minha paisagem, há qualquer coisa que não está como deveria estar. E quis apontar o dedo ao ego gigante de quem decide. Afinal de contas, estamos em guerra só porque sim. Quero entender o que é que conseguimos fazer quando tudo o que temos é a possibilidade de abrir o jornal, ver as notícias e tentar dizer algo. E esta canção foi a minha tentativa de dizer algo. Não o fiz porque acho que vá mudar o mundo, mas foi, sem dúvida, uma partilha de uma grande inquietação. É sobre a inquietação é de que a esperança possa estar em vias de extinção.

Uma vez vi-te a atuar ao vivo e lembrei-me da Joan Baez. E ainda em relação ao facto de manifestares as tuas inquietações em canções, a verdade é que tem havido um debate em relação ao papel dos artistas nos debates sociais e políticos. Qual é a tua opinião sobre isso? Dei o exemplo da Joan Baez porque creio que é um bom exemplo…

Claro. Tem um papel superativo. Acho que a Joan Baez é uma boa referência no sentido em que, tal como o Bob Dylan, são pessoas que sempre transpuseram para as canções as inquietações que tinham perante o mundo. E essa é a minha forma preferida. Não sou o tipo de pessoa que olha para uma câmara e faz comunicados sobre o que vê no mundo. Sou lenta a processar. Preciso de tempo para avaliar, olhar e perceber. Preciso da história e acho que precisamos todos um bocadinho. Pode ser injusto dizermos que um artista é obrigado a ter esse papel. Alguns até podem não estar interessados em questões políticas e acho justo que assim seja. Por outro lado, dizer que não é o papel de um artista expressar-se seria uma condenação de liberdade de expressão. Este disco reflete um pouco a minha posição. O que quer que eu tenha de político a dizer vem nas canções. Porque, como cidadã, acho que não tenho mais a dizer que os outros. Eu vejo os comentadores dos telejornais e, às vezes, acho que nem eles sabem assim tanto sobre os assuntos. Estamos numa era em que achamos que a opinião de todos importa muito. E acho que isso não é verdade. Aparece-nos no ecrã um vídeo de alguém a falar de qualquer coisa com tanta certeza e nós acreditamos. Se fosse um paspalho no meio da rua a abordar-nos para nos dizer a mesma coisa, dir-lhe-íamos: "olhe, desculpe, agora não tenho tempo para isto". Mas, de alguma forma, cedemos o nosso tempo aos paspalhos que nos aparecem no meio das redes sociais. Parece-me contraproducente. Eu não pretendo estar no lugar de achar que o ecrã traz certeza e verdade. Aliás, o disco é muito sobre o facto de acreditarmos em tudo o que vemos, em tudo o que lemos. Achamos que sabemos tudo sobre os outros. Deixei a política para as canções e vou continuar a fazê-lo. É a única forma que sei para falar sobre esses assuntos.

Uma canção dura para sempre, um comentário na televisão nem por isso. O disco termina com uma canção chamada 'Purga'. Foi intencional? É um final sereno…

É um final muito sereno. Aliás, reparei mais tarde que o álbum começa com muita força e vai acalmando ao longo do tempo. A última canção, curiosamente, era para ser o 'Há-de Haver Terra' porque como o disco é bocado triste é a única canção esperançosa. Queria que fosse a última canção do álbum para dizer que, apesar de tudo, há terra para andar. Como diria o nosso Jorge Palma: "a gente vai continuar, enquanto houver estrada para andar". Mas por razões de alinhamento, a ideia não funcionou muito bem. 

Ainda assim, importava-me acabar com uma canção importante. Daí a escolha da 'Purga'. É uma canção que foi escrita depois de receber um telefonema de um amigo que me ligou a chorar, num pranto gigante, porque um dos melhores amigos dele tinha morrido repentinamente. E acho que talvez por ter sido um homem a ligar, tive muita vontade de lhe dizer para chorar. Ele, que estava numa situação difícil, dizia-me que não queria chorar. Acho que chorar cura muitas coisas. E a 'Purga' saiu-me assim de seguida. Curiosamente, nunca me tinha acontecido o que aconteceu com este tema. Escrevi a canção sem gravar. Apenas escrevi. E não com muita letra. Pensei, "esta canção não vale nada". Mas, no dia seguinte, acordei e percebi que me lembrava da canção de fio a pavio. Achei que era um sinal e que tinha de terminá-la e gravá-la. Acho que é das canções que mais me dá a sensação de um quentinho de manta no inverno. É uma canção que permite e incentiva o choro. Há uma parte da letra da qual gosto muito, que é: "bem por baixo dos lençóis corre um rio triunfador, onde o mar e cada um dos seus heróis renova a sua calma ao chegar, reforma a dor e sai pra jantar". É a ideia de um rio que vai correndo até desaguar no mar de choro. E é nesse lugar que nós nos transformamos. É onde renovamos a nossa calma e reformamos a nossa dor para poder avançar e seguir caminho no dia seguinte.

O que é que te continua a mover para escrever?

É uma belíssima pergunta. Quando estamos na fase de lançar um disco, pelo menos acontece comigo, parece que secamos a nível criativo. Ainda ontem deparei-me com essa pergunta: "o que é que me move para escrever?". Nesta fase, acima de tudo, são as pessoas. E são as histórias que têm para me contar. É o que vejo. Acho que o que move a minha escrita é a tentativa de percecionar algo no mundo. Há uma insatisfação qualquer dentro de mim. Falo da insatisfação de achar que isto é só isto. Por isso é que comecei a ler filosofia. (risos) E também é por isso que escrevo canções. Estou à procura de um bocadinho mais do que isto. Acho que a música, como tudo o que é arte, tem a beleza de ter momentos em que quase que parece que tocamos o céu. É algo que não conseguimos explicar muito bem. É aquele microssegundo em que, além de parecer que tocámos o céu, parece que compreendemos o mundo inteiro. Mas no microssegundo a seguir já não compreendemos. Eu daria tudo por esse microssegundo, amanhã, depois de amanhã ou quando fosse. Acho que é isso que me move. É esse microssegundo.

O facto é que estamos a viver um advento tecnológico que, a meu ver, pode ameaçar a criatividade orgânica e esse tal microssegundo de ligação a algo mais transcendente. Como é que olhas para a inteligência artificial [IA] ao serviço da música? Há muitos músicos que a usam como ferramenta…

Sou sempre contra. Não sou aquela pessoa que consegue dizer que entende que se use a IA como ferramenta. Eu não entendo. E a razão é muito simples. É que é sempre um roubo. Ponto final. Tenho um exemplo muito claro da altura em que escrevi para a Teresinha Landeiro. Claramente, sou influenciada pelo que está à minha frente. Se for ouvir uma noite de fados maravilhosos, é possível que, de forma inconsciente, roube uma ou outra palavra que ouvi. Nós chegamos a casa e somos pura e simplesmente o fruto de um grande puzzle de peças que vão entrando dentro de nós. E isso é o lado mais humano e transcendente de fazer arte. É uma coleção do ser, de várias artes, de várias histórias, de vários seres humanos e de várias energias. E tudo isto cria um bolo. (…) Acho que o grande problema é que a inteligência artificial sabe sempre a quem rouba. Nunca vem de um exercício de sensibilidade ou de amabilidade. Vem sempre de um exercício de cópia. É um roubo consciente. (…) Mas, por outro lado, a inteligência artificial também vem rebelar a música. A música está a ficar rebelde, de cabelos despenteados. E isso é uma coisa interessante. Significa que a música vai ter de ser mais humana. Há um lado positivo. Sempre que nasce uma cultura, nasce uma contracultura. E temos uma contracultura da inteligência artificial forte. E eu sei que o meu público sente o mesmo.

Por falar nisso, construíste uma comunidade no Patreon também para lutar contra a ditadura do algoritmo e tudo aquilo que existe de menos bom nas redes sociais, certo? Está a correr bem?

Está a correr muito bem. Neste momento, estão 114 pessoas comigo. É muito especial. Tem, mais uma vez, um valor simbólico. Acho que aqui a grande questão da decisão do Patreon foi fugir ao algoritmo das redes sociais. É que a mensagem pode chegar a quem não quer saber e não chegar a quem quer. Ao mesmo tempo, acho que a música tem ficado cada vez mais gratuita num sentido negativo. Em muitas coisas acho ótimo que a arte seja acessível. Mas esta exposição gratuita de: "olhem, tomem lá como é que eu fiz este arranjo ou como fiz isto e aquilo". Na minha opinião, isto desvaloriza o artista. E acontece sem querer. É diferente quando há um investimento pensado, mesmo que seja um investimento pequeno. Quando compro um disco sei que a partir desse momento a música é minha. Pego depois no disco e faço a ação consciente de escutá-lo porque não o tenho gratuitamente. Temos nas plataformas digitais, mas vamos supor que por um segundo não temos essa opção, como era antigamente. Nessa altura, havia a decisão consciente de: "este é o meu disco e agora vou ouvi-lo". Não havia esta coisa de ouvir um álbum enquanto lavamos a loiça. Não era para isso que a música servia.

Um tesouro, não é? Queríamos descobrir o tesouro.

E ainda é um tesouro. Acho que há quem queira fazê-lo dessa forma. Os meus conteúdos mais fortes que estavam nas redes sociais passaram a estar no Patreon. É preciso valorizá-los e, às vezes, iam parar às pessoas erradas. Sabemos isso quando aparecem comentários como, "mas isto interessa a quem?". Se não interessa a essas pessoas, prefiro reservar para os têm interesse. É muito interessante porque dá para perceber o engajamento verdadeiro. A palavra "engajamento" está muito relacionada com as redes sociais, mas acho que também acontece fora delas. Este Patreon pode ser uma das respostas. E pode haver respostas mais interessantes. Esta foi a que encontrei para chegar ao meu público. Agora ando a tentar convencer os meus queridos artistas a irem para lá.

Verdadeira é a conexão entre o artista e o público num concerto ao vivo. Portanto, vamos acabar com um tom de verdade que serão os teus concertos de apresentação do álbum. Quero saber o que que estás a idealizar para esses concertos.


Já tenho uma equipa muito entusiasmada. O João, que é quem faz comigo as luzes, diz-me: "temos de fazer um grande desenho de luz para cada canção". Portanto, acho que tal como o álbum e como o caminho que tenho feito, o espetáculo vai ter muita atenção ao detalhe. O detalhe vai estar desde a escolha da roupa até ao alinhamento. Todas as escolhas vão ser intencionais. No entanto, ao contrário de uma fase da minha vida que veio a seguir ao "Contornos", a música vai estar outra vez em primeiro lugar. Acho que houve uma altura em que apaguei isso da minha cabeça porque achava que era preciso fazer mil e uma coisas para que as coisas funcionassem. Mas não. O que importa é a música. A música é que está em primeiro plano. Sei que a maioria das pessoas que gosta da minha música destaca as letras por isso microfone ao alto para ouvirem as letras. Vou ter a minha banda e em princípio o meu produtor para fazermos uma grande festa de lançamento todos juntos. Portanto, Centro Cultural de Belém e Casa da Música.