Mimicat quase a atuar na Eurovisão: "sinto que as pessoas gostam da sensação de festa da canção"
'Ai Coração', a canção que representa Portugal, vai ser ouvida na primeira semifinal, a 9 de maio. A final está marcada para o dia 13.
É a primeira vez que a canção vencedora do Festival da Canção chegou ao concurso por livre submissão (aberta a quem queira participar) e não com um convite da RTP. O feito histórico é da inteira responsabilidade da cantora Mimicat que conquistou o primeiro lugar da competição portuguesa com a aguerrida e apaixonada 'Ai Coração'. A vitória foi nas duas frentes da votação: júri e público.
Mimicat, atualmente com 38 anos, não é estranha ao Festival da Canção. A cantora e compositora, natural de Coimbra, tinha apenas 15 anos quando fez a estreia no evento que é transmitido anualmente pela estação pública de televisão. A jovem cantora subiu ao palco com o nome Izamena - uma variação de Marisa Mena (o nome com que nasceu) - para cantar 'Mundo Colorido'. A canção não chegou à final, mas o percurso de Mimicat está longe de girar apenas à volta das lides do concurso que escolhe a canção para representar Portugal no palco europeu da canção. Há três registos discográficos com a voz de Mimicat, sendo que o primeiro - um disco de música infantil - foi gravado quando Marisa Mena tinha apenas 9 anos.
O nome Mimicat surgiu em 2014. Debaixo desta assinatura artística, a cantora lançou dois discos: "For You" (2014) e "Back In Town" (2017). Agora - e antes de voltar a correr para o estúdio - Mimicat está em Liverpool, no Reino Unido, para representar Portugal na 67ª edição da Eurovisão que este ano reúne 37 países em competição.
A tradição diz que o país que acolhe o concurso é o que venceu no ano anterior, porém, devido ao contexto de guerra na Ucrânia (país vencedor em 2022) a União Europeia de Radiodifusão (EBU), organizadora concurso, decidiu que seria o Reino Unido, o segundo classificado, a receber o evento.
O foco eurovisivo está então na Liverpool Arena. Amanhã, dia 9 de maio, decorre a primeira semifinal e Portugal está na lista de atuações ao lado da Noruega, Malta, Sérvia, Letónia, Irlanda, Croácia, Suíça, Israel, Moldávia, Suécia, Azerbaijão, República Checa, Países Baixos e Finlândia. Da lista de 15 países, 10 seguem para a final que está marcada para sábado, dia 13. A segunda semifinal está agendada para o dia 11 de maio.
Como é que está a ser a experiência eurovisiva em Liverpool?
Está a ser incrível. É algo parecido com as pre-parties que acontecem durante o Festival da Canção, mas numa escala maior. É uma experiência surreal. É o tipo de experiência que só acontece uma vez na vida. A cidade é ótima. É muito acolhedora. Os prédios são pequeninos, feitos de tijolo. Estamos numa zona central, perto do rio. Sinto que estou a ser muito bem acolhida. A equipa é incrível. Estamos todos muito bem-dispostos.
Houve tempo para fazer amizades?
Sim. E essa é uma das partes mais interessantes da experiência.
Como é que são essas festas?
As festas são uma espécie de warm-up da Eurovisão. A organização convida as delegações dos países que estão a concorrer e depois vai quem quer. Não é obrigatório marcar presença. É também nessas festas que apresentamos a nossa canção ao vivo. Interpretamos o tema da forma que queremos. Pode ser com banda, sem banda, com bailarinos ou sem bailarinos. Eu optei por cantar sozinha. E, além disso, são festas com público, o que é muito fixe para sentirmos o feedback direto das pessoas. Foi também nessas festas que tivemos o primeiro contacto com a imprensa e começámos a dar entrevistas. Foram boas oportunidades para conhecer os fãs eurovisivos e, sobretudo, para nos conhecermos uns aos outros.
E certamente que também há espaço para uniões criativas ou parcerias futuras…
Sim, sem dúvida. Já tivemos diversas conversas nesse sentido. Resta saber se depois essas colaborações vão mesmo acontecer. (risos) Há uma que eu gostava particularmente de fazer. Gostava muito de colaborar com a Blanca Paloma [a representante da Espanha]. Sinto-me muito próxima dela. Acho que é uma pessoa incrível. Tem uma energia surreal, muito especial. Mas há outros concorrentes, com os quais me identifiquei bastante. O Luke Black, da Sérvia, os Joker Out, da Eslovénia, os Sudden Lights, da Letónia, os The Busker, de Malta, e o Gustaph, da Bélgica, são alguns exemplos. É possível que surjam algumas colaborações. Nunca se sabe.
Quais são os adjetivos mais usados na apreciação da tua canção?
Eu evito ver os comentários. Não me parece que seja muito saudável andar sempre a ver o que estão a dizer sobre a atuação. O que me tem chegado é que as pessoas acham que a nossa performance em palco é muito forte. Acham que a atuação e a canção têm uma energia muito vincada. Acho que as pessoas gostam, que se identificam e creio que valorizam o nosso empenho. Mas há sempre opiniões diferentes.
A experiência das festas também serviu para sentir o público. A primeira foi em Barcelona, Espanha, e correu muito bem. O público fartou-se de cantar, foi incrível. Em Madrid, aconteceu a mesma coisa. Na altura, até pensei que a recetividade tinha a ver com o facto de estar a cantar para espanhóis. Pensei que os nuestros hermanos me estivessem a dar carinho só por ser portuguesa. Mas quando cheguei à festa de Londres senti o mesmo. Foi igual. Vi que a malta gostava mesmo da canção. Creio que na arena [onde vai ser disputada a competição] vamos sentir a energia pulsante das pessoas a reagir à canção ao vivo. Espero que aconteça o mesmo com os que vão estar a assistir em casa. Espero que se levantem do sofá, que dancem e que façam a festa connosco.
Sentes que estás a surpreender o público, tendo em conta que a 'Ai Coração' é mais arrebitada do que as canções mais recentes que temos levado à competição?
Sim. Acho que nos últimos anos não temos levado canções com tanta energia como esta. Estamos habituados a canções mais melancólicas ou, pelo menos, com um beat mais lento. Sinto que as pessoas gostam muito da sensação de festa da canção e da força que tem.
O sofá ficou em Portugal. Mimicat sobre as alterações na atuação para Liverpool:
Foto: Lusa/Pedro Pina
Escreveste a 'Ai Coração' quando estavas a trabalhar, na altura como agente imobiliária, certo? Estavas à espera de um cliente e a canção saiu. Foi isto que aconteceu?
Sim, foi mesmo isso que aconteceu. Convém dizer que já foi há algum tempo e numa altura em que ainda não nos podíamos entreter com as redes sociais. Estava muito aborrecida por estar à espera e, do nada, comecei a cantar. Lembro-me que estava sentada, a olhar para o teto, quando a canção começou a sair. Incrivelmente, a música saiu-me em cinco minutos. Fiz a 'Ai Coração' muito rapidamente, o que é algo muito raro no meu processo de composição. Por norma, ando à luta com as canções durante imenso tempo. Mas essa em particular saiu num instante. Foi um momento único. Percebi logo que era uma canção especial. E, por uma vez na minha vida, soube esperar para as coisas acontecerem. Acabou por correr bem.
As preferidas de Mimicat no universo do Festival da Canção:
