MNE enaltece "grande vitória" da diplomacia portuguesa após eleição na ONU

Paulo Rangel fala numa "vitória sem precedentes" e antecipa anos desafiantes.

O ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE), Paulo Rangel, considerou hoje uma "grande, grande vitória" da diplomacia portuguesa a eleição de Portugal, à primeira volta, para o Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU).

"Queria só dizer que isto é uma vitória sem precedentes. É a primeira vez que Portugal é eleito à primeira volta. Isto mostra o trabalho que foi feito ao longo destes 13 anos por vários Governos, por vários Presidentes, mas em especial aquilo que foi feito nestes últimos dois anos, que foram decisivos para esta vitória", afirmou Rangel aos jornalistas, na sede da ONU, em Nova Iorque.

"Julgo que isto diz muito sobre o prestígio de Portugal e sobre a forma como é apreciada a nossa política externa. E por isso queria dizer que temos agora aqui dois anos muito, muito desafiantes, mas que são dois anos em que eu creio que a diplomacia portuguesa, que fez tudo e mais alguma coisa para que esta vitória fosse obtida e pudesse ser obtida à primeira volta, está também de parabéns", acrescentou, logo após a eleição.

Portugal foi eleito hoje membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU, liderando a votação do grupo Europa Ocidental e Outros Estados, com 134 votos, sendo seguido pela Áustria, enquanto a Alemanha teve uma derrota inédita. 

No mesmo grupo concorriam Áustria, que foi eleita com 131 votos, e a Alemanha, que recebeu 104 votos, sendo derrotada pela primeira vez desde que concorre a este lugar.  

Foi com grande euforia que a Missão de Portugal junto da ONU acolheu os resultados anunciados pela presidente da Assembleia-Geral, a alemã Annalena Baerbock.

Num momento de celebração, Paulo Rangel levantou-se e abraçou o representante permanente de Portugal junto da ONU, Rui Vinhas, enquanto se ouviam fortes aplausos.

"É mais uma grande, grande vitória da diplomacia portuguesa. Tenho muito orgulho em estar neste momento, e depois destes dois anos à frente do Ministério dos Negócios Estrangeiros, porque aprendi imenso com todos aqueles que trabalharam arduamente nesta campanha", assinalou o líder da diplomacia portuguesa.

O ministro afirmou ainda que Portugal pretende cumprir os compromissos assumidos na campanha, dando especial atenção à prevenção de conflitos, à segurança dos oceanos, à liberdade de navegação e aos riscos para a segurança alimentar global.

Destacou igualmente a necessidade de acompanhar múltiplas crises internacionais, incluindo as da Ucrânia, Médio Oriente, Sudão, leste do Congo, Haiti e Myanmar.

Questionado pela Lusa sobre se ficou surpreendido com a eleição à primeira volta e com a derrota histórica da Alemanha, Rangel disse que Portugal estava confiante na vitória, mas manteve uma postura de prudência até ao final do processo. 

"Eu não fiquei surpreendido e há uma coisa que nós nunca temos, que é nenhum prazer na derrota de nenhum Estado, e muito menos de um Estado tão amigo e tão próximo como a Alemanha", sublinhou.

Rangel destacou que Portugal não representará apenas os seus próprios interesses no Conselho de Segurança, mas atuará em nome de todos os Estados-membros das Nações Unidas, seguindo o papel esperado dos membros não permanentes.

O ministro acrescentou que a agenda portuguesa dependerá também da evolução da situação internacional e do momento em que assumir a presidência rotativa do Conselho, defendendo que a diplomacia portuguesa deve estar preparada para responder às crises mais agudas que possam surgir em 2027.

Portugal, que concorreu sob o lema "Prevenção, Parceria, Proteção", já foi membro do Conselho de Segurança nos biénios 1979-1980, 1997-1998 e 2011-2012. Sempre que se candidatou, Portugal foi eleito.

Além de Portugal e da Áustria, foram também hoje eleitos para o Conselho de Segurança a Trinidad e Tobago, o Zimbabué e o Quirguistão.

O mandato de Portugal e dos restantes Estados-membros eleitos tem início em 01 de janeiro de 2027 e prolonga-se por dois anos.

Após a derrota inédita de hoje, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, felicitou Portugal e a Áustria pela vitória e garantiu estar convencido de que os dois aliados trabalharão em benefício da comunidade global e por uma voz "europeia forte e muito mais decisiva" no Conselho de Segurança da ONU.

"Obviamente, o resultado é uma verdadeira desilusão. É uma derrota amarga. Esta é uma competição intensa. Esta seria uma disputa renhida. A Alemanha entrou tarde [na corrida], o que significa que estávamos em desvantagem desde o início. E vimos isso claramente hoje. Não foi possível recuperar o terreno perdido", avaliou o ministro.

Já a líder da diplomacia austríaca, Beate Meinl-Reisinger, celebrou os resultados e assinalou que os desafios que o mundo enfrenta transcendem fronteiras e só podem ser ultrapassados coletivamente.

O Conselho de Segurança é composto por 15 membros, dos quais cinco permanentes, com direito de veto – Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França.

Os restantes 10 membros não-permanentes cumprem mandatos de dois anos, sendo cinco eleitos anualmente e de acordo com a repartição geográfica.   

O Conselho de Segurança é um dos órgãos mais importantes das Nações Unidas, cujo mandato é zelar pela manutenção da paz e da segurança internacional e cujas decisões são vinculativas.