Moonspell: a hora do lobo é no Halloween
Entrevista ao vocalista Fernando Ribeiro. Festança ao vivo da noite das bruxas é amanhã, no Lisboa Ao Vivo, com os Dark Tranquility, muito fogo e DJ sets.
Nesta sexta-feira, os Moonspell vão fazer uma festança Halloween das grandes no Lisboa Ao Vivo. Eles próprios vão formar uma alcateia e tratar dos uivos, ao reavivarem em palco os temas do álbum de estreia de há 30 anos, “Wolfheart”. Se a superlua cheia é só a 5 de novembro, os Moonspell tratarão de antecipar os seus efeitos. A pelugem e os dentes crescerão assustadoramente, em nome do metal.
Sombras e fogo intercalam-se, literal ou metaforicamente. O nome de peso Dark Tranquility, os portugueses Sinistro, um espetáculo de fogo e várias batalhas de DJs vão fazer deste evento um dos melhores assombros de Halloween desta sexta-feira. O vocalista dos Moonspell, Fernando Ribeiro, contextualiza tudo.
O que é que os vossos fãs podem esperar desta noite de Halloween no Lisboa Ao Vivo?
Começo já por dizer que é uma noite económica a pensar neles. Nós tentámos primeiramente - olhando para o estado das coisas e para a quantidade de concertos que há em Portugal de heavy metal e não só - fazer um bilhete simpático para a bolsa dos fãs. Portanto, vamos ter três bandas. Somos nós a encerrar a noite, já é uma tradição nossa. Desta festa de Halloween, já são mais de 20 edições, muitas das quais em Lisboa. Como convidados, temos os Dark Tranquility, que é uma banda de expoente máximo do metal sueco. O metal na Suécia é uma cultura, ganha prémios de exportação, como o caso deles também. É uma grande banda e nós fizemos com eles duas digressões muito extensas na Europa e convidaram-nos para tocar na cidade deles, em Gotemburgo. Foi um concerto fantástico e nós retribuímos o convite. Depois, temos uma banda portuguesa que está agora a voltar ao ativo, que são os Sinistro, que também estão na minha editora discográfica. E acabámos de anunciar também um aftershow com uma performer que vai fazer fogos aéreos que é a Tatsh, que é extremamente conhecida na cena performática e vou ter uma batalha de DJs com o vocalista dos Dark Tranquility, o Mikael [Stanne], e finalmente temos também um DJ muito dark das noites lisboetas que é o Weirdboy, especializado em gótico e em metal. É uma festa para durar bastante, até às tantas da noite e celebrar o Halloween como deve ser.
O que nos podes dizer sobre o lançamento e apresentação do DVD e blu-ray do concerto dos Moonspell com a Orquestra Sinfonietta de Lisboa nesse mesmo dia no Lisboa Ao Vivo?
Nós concentramos tudo para esse dia, é um lançamento internacional, já está em pré-venda, portanto é o registo do nosso concerto com a Orquestra de Sinfonietta de Lisboa a 26 de outubro de 2024, portanto faz praticamente um ano e escolhemos esta data simbólica também para lançar, antes de vir aí o disco novo de Moonspell em 2026. Queremos nos manter junto aos fãs, no seu radar, e os nossos fãs gostam destes lançamentos e também foram os fãs que estiveram lá, não só portugueses, mas de toda a parte da Europa e de outros países também fora da Europa que vieram e nós achámos, por bem não perder esta oportunidade e fazer um registo que sai num DVD pack. O DVD é um formato um bocadinho condenado. Não posso dizer que é para os nerds, mas ainda bem que os colecionadores fazem parte, é aquele cimento que junta os nossos fãs. Eles são praticamente todos colecionadores de Moonspell. Este pack tem o DVD, o concerto completo, mais extras, entrevistas com o Felipe Melo, o maestro Vasco Pearce de Azevedo, com a banda, os ensaios, tudo isso. Depois, também nesse pack, há um Blu-ray 5.1 para as pessoas que gostam desse tipo de exploração sónica. E temos nesse DVD pack também duplo CD ao vivo. Depois, temos três edições em vinil, uma das quais é a edição da banda, que tem uma réplica do bilhete, um bilhete a sério, como aqueles que se faziam antigamente. É um exclusivo da nossa loja e está a correr muito bem. O concerto já tinha corrido muito bem, com cerca de 8 mil pessoas para ver os Moonspell na MEO Arena, o que é inédito para uma banda de metal ou de rock portuguesa. E pronto, este é o documento, chama-se “Opus Diabolicum” e estará nas lojas também a partir 31 de outubro.
Achas que esse filme-concerto poderás chegar às plataformas televisivas?
Eu imagino que isso possa acontecer. Estamos a trabalhar nisso e contamos anunciar algumas em pay-per-view, no YouTube. Temos também uma plataforma que se dedica a concertos rock e metal com assinatura, que é a ThunderFlex. Nem sempre é fácil tudo o que envolva plataformas de streaming digital, são negócios extremamente injustos para os criadores de conteúdos, neste caso músicos, mas eu acho que em todo o caso é um mal necessário e temos que dar hipótese às pessoas que não querem ter o formato físico de ver. As pessoas já podem ir ao YouTube, já lançámos duas canções, o Vampiria e o In Tremor Dei; vamos lançar uma terceira antes do concerto [Extinct], mas estamos agora a trabalhar nisso, em negociação com muitas plataformas e esperamos que o consigamos ter não só nas plataformas comerciais mas também nas plataformas institucionais, esperando que alguma televisão se interesse pelo concerto dos Moonspell.
Quais são os pontos em comum entre os Moonspell e os Dark Tranquility, que é de facto um nome bastante poderoso? Qual é a empatia grande que vocês têm?
Curiosamente, temos uma ligação muito forte a esta banda sueca porque a equipa técnica deles é toda portuguesa. Também começaram a trabalhar connosco, muitos deles, e eles são conhecidos exatamente por ter essa particularidade. Nós quando vamos em digressão com eles, falamos mais português do que sueco. Depois, temos todos também uma carreira de longevidade, não é? Começámos com as mesmas condições e na mesma altura, estivemos na mesma editora durante vários anos e foi uma amizade que se foi cimentando através da música. Penso que falamos a mesma linguagem, apesar de sermos de países diferentes. A maneira como o metal é encarado nos nossos países é bastante diferente, com um bocadinho de défice para Portugal. Claro que queremos competir, claro que queremos dar o melhor concerto, claro que queremos meter o metal português no mapa. O que nos une é a simplicidade em sabermos que somos privilegiados em viver este estilo de vida na estrada. Ainda por cima, fazendo a música que gostamos e não fazendo música dos outros ou como se fosse um trabalho das 9 às 5. Há aqui uma espécie de segredo mal contado do heavy metal que é a harmonia que se vive na estrada, ao contrário do que as pessoas pensam, não é? Claro que a vida na estrada também pode dar azo a alguma loucura saudável. Já apanhamos grandes bebedeiras com eles, mas fundamentalmente somos amigos. E antes do concerto, vamos ter um grande jantar no dia 30, para celebrar estes dois anos em que andámos praticamente mais de seis meses em turné juntos.
Vocês vão tocar o “Wolfheart” na noite de Halloween. O que é que achas que o “Wolfheart” tem de especial para ser permanentemente reavivado e visto como um disco histórico.
Acho que não há amor como o primeiro. Este disco, para além da música, o que tem de especial é ser um símbolo de uma época em que éramos jovens, em que tínhamos sonhos, em que estávamos numa década, como a dos anos 90, que foi de ouro para o rock & roll e para o heavy metal até em Portugal. Depois da pandemia, estávamos um bocado perdidos, como praticamente todas as bandas. Queríamos ter rumo, queríamos fazer um disco novo, mas não estávamos inspirados. Portanto, olhámos para o nosso passado e para o nosso legado e a inspiração chegou. O disco vai sair em 2026 e é um dos melhores que já escrevemos. E olhámos para o nosso legado e decidimos conviver melhor com esse passado. Fizemos vários concertos este ano, todos internacionais, tocando aquilo que a gente chama “Wolfheart e outras histórias”, porque não se resume só ao Wolfheart. Vamos tocar coisas também de outros álbuns dos anos 90, mas penso que há essa magia do primeiro álbum e essa nostalgia, chamemos-lhe assim. Por vezes, oiço histórias ligadas ao “Wolfheart”, que nem julgava possíveis. Um vez encontrámos o Phil Anselmo, dos Pantera, num festival francês, e ele recordava-me que ouvia o “Wolfheart” sob o efeito dos ácidos. É este tipo de histórias que faz o nosso legado. Nós tivemos muita sorte, na altura estavam a sobressair muitas bandas de países, que não a Inglaterra e os Estados Unidos, a escrever as suas páginas no livro do heavy metal internacional e o “Wolfheart” foi o nosso primeiro capítulo, era um capítulo português. Isso, claro, nos deixa bastante orgulhosos e fomos também descobrindo o prazer de tocar estas canções. Não estamos a fazer nenhum frete. É realmente para nós também é uma viagem a esse passado, por vezes um pouco longínquo, porque são 30 anos num disco. Nós nunca pensámos que estivéssemos a celebrar em vida discos que fizemos em 95. Mas também é uma maneira de conviver bem com o passado e, a partir de 2026, abraçar o futuro que vem.
E esse futuro é um novo álbum, o que é tu podes dizer sobre esse novo álbum?
Eu acho que vai ser um dos álbuns mais importantes da nossa vida. Eu sei que os músicos têm muito essa tendência de dizer [o novo álbum é] o melhor etc. Não acredito nessas coisas, acho que o álbum é sempre o que nos representa melhor na altura, mas pode não ser o melhor porque isso não depende só de nós. Depende de muitos fatores. Mas eu tinha várias dúvidas enquanto cantor dos Moonspell, enquanto elemento dos Moonspell, se havia espaço de música nova nos Moonspell, porque eu vejo outras bandas a fazerem e, de vez em quando, não percebo porque o estão a fazer. Portanto, tínhamos que esperar um pouco pela musa ou pela motivação certa e quando ela chegou foi arrebatador, fizemos o disco em dois ou três meses. Estamos muito contentes com as maquetas. É um disco extremamente clássico, com letras muito ficcionais até. Voltámos aos temas dos lobos, dos vampiros, porque nos apeteceu e porque achamos que a música está saturada de sociedade, política, guerra. Hoje em dia, parece que é obrigatório um músico ser um cantor de intervenção. E a nossa intervenção vai ser tirar as pessoas desta realidade e levá-las para um mundo alternativo de metal gótico, porque o nosso disco vai ser um disco clássico de metal gótico e espero que as pessoas depois lá para julho de 2026 fiquem tão entusiasmadas quanto nós. Vamos gravar agora em Portugal, no Porto, em dezembro, e penso que lá para março já haverá novidades em videoclipes e singles e isso tudo.
O álbum sairá no verão?
No verão, sim. Sairá pouco antes da altura dos festivais. Não temos a data certa, mas entre junho e julho de 2026.
