Moreno Veloso: "sou um otimista, mas o meu impulso criativo é quase sempre melancólico"
O músico brasileiro é um dos artistas confirmados para o festival Live In a Box que decorre de 14 a 16 de abril em Bragança, Lisboa e Faro.
A conversa com Moreno Veloso foi à distância, via Zoom, e aconteceu poucos dias antes da viagem transatlântica que o músico, compositor e produtor brasileiro teve de fazer para Portugal onde vai atuar no festival Live In a Box. O festival, que vai decorrer no Teatro Municipal de Bragança, no São Luiz, em Lisboa, e no Teatro das Figuras, em Faro, será um feliz ponto de encontro da música lusófona e ibérica. Moreno Veloso, a representar as cores e a alma rica do seu amado Brasil, encaixa, com distinção, na essência da celebração.
O músico baiano, que se vai desdobrar por duas cidades, partilha o cartaz com uma mão cheia de artistas como Carlão (Portugal), Carles Dénia (Espanha), Cristina Branco (Portugal), Fogo Fogo (Portugal/Cabo Verde), Júlio Resende (Portugal), Luca Argel (Brasil/Portugal), Luísa Sobral (Portugal) e Sara Correia (Portugal).
Moreno Veloso chega ao meio século este ano. O músico e produtor nasceu na Bahia, a 22 de novembro de 1972, e ostenta, com simplicidade e a mais fina naturalidade, o sangue de artista. É o filho mais velho de Caetano Veloso e, claro, sobrinho da Maria Bethânia. É músico, um amante da palavra mas também é um físico atómico, com queda para a exatidão da existência. Contou-nos que está tratar de mais um disco e escolheu Lisboa para gravar o que falta.
Estás de volta a Portugal, para atuar no festival Live In a Box. Ouvi dizer que estás feliz com o regresso...
É verdade. Faz tempo que não vou a Portugal. Tenho muitos amigos a viver aí. Amigos muito queridos. Quero muito revê-los e quero muito voltar a fazer shows. Não faço shows há mais de dois anos. Estou muito feliz com o reencontro. Com o reencontro nos palcos.
Vais atuar no Teatro Municipal de Bragança e no Teatro São Luiz, em Lisboa. O que é que preparaste para esses dois concertos?
Eu tinha começado a gravar um disco novo mas decidi parar por causa da pandemia. Ainda não está terminado. O repertório dos shows vai estar bastante calcado nesse novo disco. Algumas canções que ainda quero regravar são de outros autores, mas a maioria são temas novos que compus com os meus amigos. Na verdade, não são canções assim tão novas, tendo em conta que entretanto passaram dois anos e meio desde a altura em que comecei a gravá-las. Vou tocar essas canções novas mas também outros temas que gosto de tocar e cantar com os meus amigos. Vão ser concertos à volta de um disco que ainda não existe. (risos) Mas vai existir. Já marcámos estúdio para começar a gravar depois dos espetáculos. Vou gravar em Lisboa, com os meus amigos que vivem em Portugal. Finalmente vai ficar pronto.
Que amigos?
O Domenico Lancellotti é o meu amigo mais antigo que vive aí. Nesse sentido é a figura central das amizades que tenho em Portugal. Já vive em Lisboa há alguns anos. É também o meu parceiro na banda +2. Depois há uma série deles, o Rodrigo Bartolo, o Ricardo Dias Gomes…
Vão atuar contigo, certo?
Vão, sim. Vão estar comigo em cima do palco.
Sei que és muito ligado ao ioga. É uma prática com poder transformador?
Com certeza. A prática de ioga transforma o nosso ritmo mental, o nosso jeito de ver as coisas, de encarar as felicidades e as dificuldades. É muito importante para tudo. Para a vida. Até para ter clareza. Para ter clareza nas ações e nos pensamentos.
Já tiveste ideias para canções durante a prática de ioga?
Já aconteceu. Há alguns anos, o Domenico pediu-me para compor uma letra e eu, claro, compus. Ele achou, porém, que estava demasiado triste e pediu-me para trocar por algo mais alegre. Foi precisamente numa sessão de ioga que acabei por ter uma ideia mais alegre para aquela letra. E foi essa ideia que vingou. A canção chama-se 'Cinco Sentidos'.
És o autor de 'How Beautiful Could a Being Be', tema que fizeste para a voz do teu pai. É uma canção que celebra o oposto, a alegria de existir e não tanto uma contemplação mais triste da vida...
Eu sou muito otimista. Mas, por norma, quando pego no violão para compor o meu primeiro impulso criativo é mais melancólico. Não sei dizer porquê. Às vezes, o que sai é mais alegre. É o caso de 'How Beautiful Could a Being Be' que também é uma canção mais experimental. Tinha à volta de 17 anos quando fiz essa música. O facto de ser um tema mais experimental também provoca uma certa adrenalina mais virada para esse otimismo e para essa esperança que a música carrega. Adoro essa mistura. É uma música de uma frase só. Muito simples. Eu gosto da simplicidade.
Além de teres uma família muito musical, nasceste a 22 de novembro, que é o dia de Santa Cecília, a padroeira dos músicos. É curioso.
Sim. Além de ter nascido no dia da padroeira dos músicos e cantores, nasci no seio de uma família muito musical. Muitos seguiram a carreira da música. A minha tia [Maria Bethânia], o meu pai [Caetano Veloso], os meus primos, as minhas primas. Todos eles estão ligados à música. São músicos, cantores, compositores. Mesmo os que não seguiram a música como profissão, caso da minha avó Canô ou da minha tia Nicinha, eram pessoas muito musicais. A minha família, por si só, já é uma espécie de Santa Cecília (risos). É uma Santa Cecília familiar. O facto de ter nascido nesse dia só reafirmou essa comunhão total com a música. É algo que existe, acima de tudo, no coração. Não é uma imposição externa nem é uma questão de ter de honrar uma família de músicos ou o dia em que nasci. A minha família e o dia do meu nascimento são motivos de felicidade, sobretudo pelo amor que sinto pela música. Amo a música. Sempre amei. Quero continuar a trabalhar para a música.
Alguma vez sentiste algum tipo de pressão?
Não porque não me cobro. Nunca me cobrei em relação a isso. Nunca senti pressão para ser tão bom quanto eles. Sou muito fã do meu pai, da minha tia e dos meus primos. Adoro o trabalho deles e adoro o trabalho dos amigos deles. Adoro música. Fico muito feliz por ter a oportunidade de estar próximo destas pessoas que fazem música. O que acontece por vezes é haver uma cobrança externa. Há pessoas que esperam tanto que eu seja bom que essa cobrança acaba por transbordar de uma forma negativa e até agressiva. Muitas vezes, estão à espera que eu seja uma cópia do meu pai ou da minha tia. Fazem muitas comparações, sobretudo jornalistas. Isso é triste. Não sinto o peso, apenas sinto tristeza quando isso acontece. Mas faz parte. Até o meu pai passa por situações parecidas, sobretudo porque é um artista que faz questão de arriscar. Aprendemos a conviver com este tipo de coisas.
És também um físico atómico. De que forma é que essa formação se entrelaça com a música? A física, a matemática...
A matemática é uma linguagem. É uma forma de aproximação com a natureza, com a realidade. A nossa única porta para a natureza é através da linguagem. Pode ser através da língua portuguesa, que considero ser uma língua maravilhosa e muito desenvolvida, ou da matemática. Acontece o mesmo com linguagem musical que consegue ser ainda mais abstrata que a matemática. Todas estas linguagens estão misturadas e essa mistura é muito rica. Na música misturamos palavras com notas, com ritmo. O ritmo é muito matemático. Os intervalos são matemáticos. O [filósofo e matemático] Pitágoras trabalhava muito com intervalos sonoros, com a harmonia. Foi também ele que desenvolveu uma física para a vibração das cordas e uma matemática para expressar a harmonia dos sons, de uma forma numérica. A mistura dessas linguagens dá-nos ferramentas para podermos desfrutar do Universo e abraçar a realidade dentro daquilo que nos é possível. São ferramentas muito generosas. Dão-nos uma possibilidade incrível que é a de nos conhecermos uns aos outros, de nos conhecermos a nós mesmos e de conhecermos a natureza da qual fazemos parte.
Moreno Veloso sobre o tema que compôs para o pai quando tinha apenas 9 anos:
Moreno Veloso atua a 14 de abril no Teatro Municipal de Bragança e um dia depois, a 15 de abril, no Teatro São Luiz, em Lisboa.
