Morreu Annie Dillard, vencedora do Pulitzer por “Peregrinação em Tinker Creek”

A escritora morreu esta terça-feira, aos 81 anos. Autora de uma obra marcada pela natureza, espiritualidade e reflexão sobre a condição humana.

A escritora norte-americana Annie Dillard, vencedora do Prémio Pulitzer em 1975 por "Peregrinação em Tinker Creek", morreu esta terça-feira, aos 81 anos. A autora tornou-se uma das referências da literatura de não ficção norte-americana.

Annie Dillard morreu na sua casa em South Wellfleet, no estado do Massachusetts, nos Estados Unidos. A autora, uma das vozes mais singulares da literatura norte-americana contemporânea, ficou sobretudo conhecida por transformar a observação da natureza numa reflexão sobre a existência, a fé, a beleza e a violência do mundo.

Nascida em Pittsburgh, a 30 de abril de 1945, Annie Dillard estudou no Hollins College, na Virgínia, onde concluiu uma licenciatura e um mestrado em Inglês. A dissertação de mestrado foi dedicada a Henry David Thoreau, autor que teria uma influência importante na sua relação com a natureza e com a escrita.

O reconhecimento internacional chegou em 1975, quando recebeu o "Prémio Pulitzer de Não Ficção Geral" por "Peregrinação em Tinker Creek", publicado em 1974. O livro nasceu das observações que Dillard fez durante um ano junto ao Tinker Creek, na Virgínia.

A obra não é apenas um relato sobre a natureza. Entre plantas, animais, água, insetos e fenómenos naturais, Dillard questiona o lugar do ser humano no mundo e confronta a existência simultânea da beleza e da violência. O livro tornou-se uma referência da literatura de natureza e consolidou a escritora como uma autora capaz de cruzar observação, espiritualidade e filosofia.

Uma escritora entre a natureza, a fé e a literatura

Apesar de frequentemente associada à chamada "nature writing", Annie Dillard recusava uma classificação simples. A sua obra percorreu a poesia, o ensaio, a autobiografia, a reflexão sobre a escrita e o romance.

Entre os seus livros mais conhecidos está "Holy the Firm", publicado em 1977, uma obra breve e profundamente metafísica, que prolonga a reflexão sobre a natureza, a fé e o sofrimento.

Em 1982 publicou "Ensinar uma pedra a falar", publicado em Portugal pela Antígona, uma coleção de ensaios sobre diferentes lugares e experiências. O livro inclui alguns dos textos mais celebrados da autora, entre eles "Total Eclipse", sobre a experiência de assistir a um eclipse solar, e "Living Like Weasels".

Outro dos seus títulos fundamentais é "The Writing Life", de 1989, dedicado ao próprio ato de escrever. O livro tornou-se particularmente conhecido entre escritores e leitores interessados no processo criativo, refletindo sobre disciplina, inspiração, risco e o trabalho quotidiano da literatura.

Na vertente autobiográfica, "An American Childhood", publicado em 1987, recupera a infância e adolescência da escritora em Pittsburgh e a formação do olhar que viria a marcar a sua obra.

Dillard escreveu também ficção. "The Living", de 1992, foi o seu primeiro romance e acompanha os primeiros colonos europeus na costa noroeste do Pacífico. Já "The Maytrees", publicado em 2007, conta a história de um casal e de uma relação amorosa que atravessa décadas.

Entre as suas obras posteriores destaca-se ainda "For the Time Being", de 1999, uma obra de não ficção narrativa que cruza temas como o nascimento, a morte, a natureza, a religião, o sofrimento e a condição humana.

Em 2017, Dillard publicou "The Abundance", uma seleção de ensaios reunidos pela própria autora, recuperando textos de diferentes momentos da sua carreira.

Ao longo da carreira, Annie Dillard recebeu outros reconhecimentos e ensinou escrita em instituições norte-americanas, incluindo a Wesleyan University, onde permaneceu até se reformar, em 2002.

A escritora afastou-se progressivamente da vida pública nas últimas décadas. Ainda assim, a sua obra manteve uma presença duradoura na literatura norte-americana, sobretudo pela forma como transformou acontecimentos aparentemente pequenos em interrogações maiores sobre a existência humana.