Morreu Bonnie Tyler, a mulher de 'Total Eclipse of the Heart'

Cantora galesa distinguia-se pelo seu vozeirão. Foram mais de 50 anos de carreira internacional.

Morreu a cantora galesa Bonnie Tyler. A informação foi avançada pela familia e equipa na página oficial da cantora. 

O mundo familiarizou-se com o vozeirão de Bonnie Tyler nos anos 70 e 80, ao som de canções como 'It's a Heartache', 'Total Eclipse of the Heart' ou 'Holding Out for a Hero'.

Em entrevista à nossa rádio em 2021, Bonnie Tyler admitiu que tinha um fraquinho pelo seu êxito 'It's a Heartache'. Mas a cantora alongou-se mais sobre 'Total Eclipse of the Heart' que recorda que “’bateu forte’ nas tabelas de vendas. Isso nunca teria acontecido se não tivesse ouvido o Meat Loaf a cantar o 'Bat Out of Hell'. Estava a caminho da editora discográfica pela qual eu tinha acabado de assinar, a Sony. Tinha saído da RCA e iria cumprir um contrato de cinco anos com a Sony. Na ida de táxi para a editora, oiço na rádio o 'Bat Out of Hell' e pensei: ‘meu Deus, adoro esta canção’. Quando cheguei à editora, o A&R pergunta-me: ‘com quem gostarias de trabalhar?’. ‘Ainda bem que me pergunta isso, porque vinha no táxi a ouvir o Meat Loaf a cantar o Bat Out of Hell. Eu quero trabalhar com quem escreveu essa canção e com quem a produziu’. E ele responde-me: ‘pede-lhe primeiro [ao compositor Jim Steiman]. Se lhe disser não, tudo bem’. ‘Pois bem, eu quero trabalhar com o Jim Steinman’. Eles fizeram-lhe uma proposta, à espera de um claro não. Mas o Jim disse-me que gostaria de me conhecer. Por isso, fui a Nova Iorque conhecê-lo, com o meu manager da altura. Demo-nos muito bem e três semanas mais tarde mostrou-me uma canção que tinha escrito há alguns anos e que seria para o Meat Loaf. Mas resolveu dar-me a mim”.

Um dos grandes sustos da artista foi mesmo na gravação do vídeo de 'Holding Out for a Hero' num precipício do Grand Canyon, tal como admitiu numa entrevista em 2021. "Um helicóptero sobrevoava-me e um tipo empoleirava-se com um megafone. A corrente de vento que soprava do hélice empurrou-me para trás e não para a frente, se não eu tinha ido pelo Canyon abaixo. O tipo [de megafone] dizia-me: “desculpa, Bonnie, da próxima vez não nos abeiramos tanto”. Eu queixava-me: “estou a derrapar para trás”. Tivemos que mudar as colunas sonoras do precipício de volta para cima das árvores. Devo dizer que era um sítio deslumbrante para se filmar um vídeo, mas era também muito assustador".

Na entrevista que nos deu em 2021, Bonnie Tyler recorda os primeiros passos de carreira. “Lembro-me de acompanhar o [programa da BBC] ‘Top of the Pops’ e de pensar: ‘eu posso cantar tão bem como aqueles’. Mas nunca imaginei que poderia vir a ter a oportunidade de gravar canções. Fui tentando entrar em bandas. Formei a minha própria banda, chamada Imagination, onde interpretava todo o tipo de canções. Fazia noites de blues, ou de pop, ou de bossa nova. Cantava tanto temas de Chaka Khan, como [de artistas da editora] Motown. Adorava interpretar músicas de Janis Joplin e de Tina Turner. Sabia que tinha a voz, mas não me imaginava a gravar. Foi um acaso que me fez cantora. Eu não enviava maquetas a ninguém. Aconteceu-me apenas estar no local certo, no momento certo, no País de Gales. Um caça-talentos veio de Londres para um clube onde eu estava a trabalhar. Ele não fazia ideia que eu iria atuar, tinha ido ao clube para ver uma banda no piso de cima, não a do piso de baixo onde eu ia cantar. Mas viu-me e falou de mim a vários compositores em Londres. Fui depois a Londres gravar algumas maquetas. A terceira canção da maqueta era doce, 'Lost in France'. Mas desenvolvi depois nódulos na garganta que se tornaram benéficos para a minha voz, que se tornou mais forte e rockeira. Foi um acaso feliz”.

Bonnie Tyler deu-se ao luxo de ter rejeitado um tema de um dos filmes de James Bond. “Foi-me proposta uma canção do James Bond ['Never Say Never Again', de 1983]. "Isto é incrível". Mas quando ouvi a canção, foi a maior desilusão. Tentei gostar daquela canção, mas não conseguia. Por isso, tive que lhes dizer não. Porque havemos de fazer uma coisa na qual não acreditamos? Teria adorado ter cantado uma música do James Bond, mas nunca aquela, que achei horrível”, recorda-nos Tyler em 2021.

Bonnie Tyler vinha ao Algarve desde 1976, onde passou a ter uma casa. A cantora passava longas temporadas em Portugal. “Apaixonei-me por Vale do Lobo logo na primeira vez viemos para cá, em 1976, para gravar em estúdio. Nós - a nossa banda e o nosso staff - estivemos num aldeamento. À noite íamos beber e comer para a praia. Foi fantástico. Começámos a procurar uma casa que encontrámos em Santa Eulália [em Albufeira]”, disse-nos então Bonnie Tyler.

A cantora britânica lembrava-se bem de como era Portugal nos anos 70. “As estradas eram muito rústicas, andávamos sempre aos altos e baixos. Não havia luzes. E viam-se carroças puxadas a cavalos. Os bares de praia foram todos mudados por causa da União Europeia. Havia velhos barracões e churrasqueiras... Ai meu Deus, que tempos maravilhosos. Portugal continua maravilhoso, mas sinto-me feliz de ter conhecido o país como era antigamente, tão bonito e rústico”.

“The Best Is Yet to Come”, lançado em 2021, é o último álbum de estúdio de Bonnie Tyler, que a levou a reencontrar-se, curiosamente, com o seu primeiro produtor, David Mackay. “O meu primeiro baixista de sempre, Kevin Dunn, disse-me: ‘escrevi-te umas músicas, queres ouvi-las?’. E eu pensei: "oh meu Deus, ele não é um compositor de canções, o que é que me espera?". E respondi-lhe: ‘quero ouvir essas canções, Kevin. Mas vou ser sincera contigo. Se eu não gostar, digo-te’. ‘Claro que sim, só posso esperar isso de ti’. Mas quando ouvi as canções, fiquei impressionada. ‘Meu Deus, Kevin, onde é que estavam estas canções? Porque é que não escreves canções há mais tempo? Estão tão bem escritas’. E ele diz-me: ‘ainda bem que gostaste das canções, não queres aparecer no estúdio com o David Mackay?’. "Bem, já não vejo o David há 40 anos’. Foi maravilhoso. Fui ao estúdio dele e soube tão bem reencontrá-lo ao fim de tantos anos. Demo-nos tão bem outra vez [no álbum de 2019, “Between the Earth and the Stars”]. Vou já no meu segundo álbum seguido com ele”, enquadrou-nos a cantora, em 2021.

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