Morreu David Thomas, o líder carismático dos Pere Ubu

Vocalista norte-americano desordenou padrões e inverteu conceitos. Foi um dos maiores génios do rock.

O músico lendário David Thomas, o mentor dos Pere Ubu e de muitos outros projetos (como a Pale Orchestra ou os Pale Boys), morreu ontem na sua casa em Brighton & Hove, em Inglaterra, na companhia da sua mulher e da sua enteada, após doença prolongada. O rocker norte-americano tinha 71 anos.

Segundo o comunicado publicado nas redes sociais, David Thomas estava a gravar com a sua banda um álbum que será concluído e publicado postumamente, tal como o livro autobiográfico.

Oriundo de Cleveland e ex-crítico de música, David Thomas decidiu ele próprio tornar-se músico em meados dos anos 70. A sua maior criação foram os próprios Pere Ubu, uma banda estranha e bem americana, vinda do imaginário do absurdo e influenciada pelos Captain Beefheart. Os Pere Ubu continuaram fiéis a esse conceito abstracto ao longo de mais de 40 anos.

O quinteto de David Thomas não fazia álbuns conceituais. Eram os próprios Pere Ubu um conceito em contínuo que abrangia toda a discografia do grupo, uma salganhada de pós-punk, electrónica e avant-garde, brilhantemente indecifrável.

Tudo começou em 1978 com os álbuns de boa memória, “Modern Dance” e “Dub Housing”.

Só o líder incontestável David Thomas foi resistindo às constantes alterações na formação dos Pere Ubu ao longo dos seus 40 anos. Uma das alterações mais significativas é a saída em 1980 do guitarrista e multi-instrumentista Tom Herman, presente nos primeiros três álbuns dos Pere Ubu. Thomas Herman é substituído por Mayo Thompson, a figura principal dos Red Krayola, que foi uma das bandas de culto dos anos 60 que, tal como os Pere Ubu, pintava o rock de surrealismo.
 
Os dois álbuns em que Mayo Thompson intervém, “The Art of Walking” e “Song of the Bailing Man”, são uma panóplia de sons pastorais, autênticos “Pet Sounds”, onde o mérito vem muito de Allen Ravenstine nos sintetizadores. Nestes dois álbuns, David Thomas desenvolve muito a sua qualidade de cantor e performer, como um verdadeiro mestre em onomatopeias. Isso é bem claro no tema Big Ed's Used Farms, do álbum de 1982, “Song of the Bailing Man”.

Os numerosos projectos de David Thomas foram levando à intermitência a sua banda mais importante, os Pere Ubu. A banda chega a estar separada entre 1982 e 1987, período que coincide com o desenvolvimento da carreira a solo de David Thomas, acompanhado pelos Pedestrians.
 
Pouco dado a nostalgias, para David Thomas os melhores álbuns são os últimos. Os Pere Ubu são artistas para quem a obra recente é a que mais conta, não são meros reprodutores de um passado antigo. Um dos melhores álbuns do grupo, se não mesmo o melhor, é já de 1995. Falamos de “Ray Gun Suitcase”, que apesar de um som aparentemente mais convencional, é dos discos mais sinuosos e inspirados da banda norte-americana.

David Thomas via o rock como uma expressão da folk americana. Foi pelo menos assim que os Pere Ubu o trataram, com mais ou menos sintetizadores.
 
David Thomas foi também um entertainer. Para ele, a arte era uma forma de entretenimento inteligente. De tendência conservadora e republicana, para David Thomas a política ficava à porta e nunca entrava nas suas canções.

Ao casar com uma britânica, David Thomas ficou a viver em Inglaterra. Mas o imaginário das suas canções continuou a ser americano. Para o cantor, a paisagem do Reino Unido foi sempre estrangeira. Era a paisagem americana que falava directamente com o líder dos Pere Ubu, as restantes paisagens falavam com ele numa língua estrangeira que David Thomas não entendia. Fisicamente em Inglaterra, o seu espírito nunca saiu da América.

É na América que o encontramos no álbum dos Pere Ubu de 1998, “Pennsylvania”, que marcou o regresso quase 20 anos depois do guitarrista e multi-instrumentista Tom Herman. Na estrada longínqua para o oeste, passando por cidades fantasma, ouvimos do álbum “Pennsylvania” temas como Woolie Bullie e Drive. 
 

O vocalista dos Pere Ubu, David Thomas, era teatral e refilão em palco. Punha qualquer multidão em sentido, ou na dúvida se estariamos perante um louco. Em 2000, os Pere Ubu deram o seu primeiro concerto em Portugal, na Aula Magna, em Lisboa. 

De figura bem larga, com rios de suor a correrem-lhe pela cara, David Thomas encenava zangas contra o homem da luz ou contra algum espectador. Tudo brincadeira, se bem que às vezes, David Thomas odiava mesmo espectadores distraídos ou mal educados.

No bolso das suas calças, costumava alojar-se uma garrafinha metalizada de álcool. Sempre de suspensórios, David Thomas às vezes pegava num acordeão. O critério do alinhamento dos concertos dos Pere Ubu seguia a ordem alfabética. Começava nos números e nos ás e bês e terminava no U ou no W.

Se nos concertos normais, só é permitido aos fotógrafos captar imagens nas três primeiras músicas, nos concertos dos Pere Ubu, os fotógrafos podem fazer o seu trabalho a partir da quarta música.

David Thomas desordenou padrões do rock e foi um dos seus maiores génios.