Morreu o radialista Cândido Mota
A voz que marcou gerações na rádio e na televisão.
Cândido Mota morreu na madrugada deste domingo, aos 82 anos. Estava internado há vários dias no Hospital de Santa Maria, em Lisboa.
O apresentador Júlio Isidro recorda uma amizade de 58 anos e um Cândido "que está muito para além da morte", já que "morte é o esquecimento e com ele não há esquecimento". Uma voz que "Vai ecoar nas nossas memórias durante muitos anos. Não é um lugar comum, não é um elogio barato. É a convicção de que o Cândido Mota está, sem dúvida nenhuma, na história da Rádio em Portugal."
O radialista nasceu a 28 de setembro de 1943, em Espinho. Voz que marcou gerações, foi locutor de rádio, apresentador de televisão e ator.
Começou a mostrar a voz aos 17 anos no Rádio Clube Português. Na década de 1960, já estava "Em órbita", programa que levava música estrangeira para a emissão nacional e vence o Prémio Internacional "Ondas" em 1967.
Na RDP esteve ao comando de vários programas, como "Fonografias" e "Dançatlântico". A década de 1990, torna-o "O Passageiro da Noite" na Rádio Comercial: recebia chamadas de ouvintes e era um porto seguro de inquietações.
A passagem pela televisão ficou marcada pela parceria com Herman José. Destacou-se a voz inconfundível dos concursos televisivos da RTP "A Roda da Sorte" e "Com a Verdade M'Enganas". Pôs um pé na representação com a participação em alguns sketches do humorista. Herman admite que hoje "se fecha um capítulo glorioso", já que "Candido ocupa uma fatia muito grande" da sua "vida artística e profissional" - coloca o locutor ao lado de nomes como Nicolau Breyner.
Militante do Partido Comunista Português, foi a voz anfitriã do Palco 25 de Abril da "Festa do Avante!". Num comunicado, o secretariado do comité central do PCP descreve Cândido Mota como “uma das figuras mais emblemáticas da comunicação” e um “cidadão profundamente empenhado na intervenção social e cultural”.
Madalena Santos, diretora da "Festa do Avante!", recorda que no concerto sinfónico durante a abertura do evento de uma forma que "não há palavras para explicar como é que aquela voz dizia todas aquelas palavras de uma forma inconfundível". Recorda um Cândido que esteve "sempre ligado às lutas dos trabalhadores e à solidariedade com todos problemas que no pós 25 de Abril também se colocam. Ficará sempre recordado com essa solidariedade e com essa estima."
O político António Filipe conheceu Cândido Mota quando participaram na rádio pirata "Telefonia de Lisboa". Num dia de "grande tristeza" recorda a primeira vez que o viu aos catoze anos no Teatro Variedades, ao lado de Raul Solnado e todas as conversas que tiveram durante trinta e cinco anos no final da "Festa do Avante!". Para António Filipe perde-se uma "figura multifacetada no campo da comunicação" que conjugava o talento com a coerência.
