Morreu Sly Stone, o génio das fusões

Revolucionário do funk e líder dos Sly & The Family Stone tinha 82 anos.

O músico norte-americano Sly Stone morreu hoje, com 82 anos, em Los Angeles, devido a complicações várias de saúde, sobretudo problemas pulmonares.

Sly Stone morreu rodeado pelos seus familiares, incluindo os três filhos. A informação foi confirmada há pouco nas redes oficiais de Sly & The Family Stone, a banda onde marcou a sua personalidade.

No mês passado foi exibido no festival de cinema IndieLisboa o documentário de Questlove sobre Sly Stone, “Sly Lives”, que integra a grelha do Disney+. O diretor do IndieLisboa, Carlos Ramos, define desta forma, “Sly Lives”: “O Questlove, que nós mostrámos há uns anos com o filme Summer of Soul, com grande sucesso no IndieLisboa, volta agora com um filme sobre um cometa chamado Sly Stone, uma das personagens mais importantes da história da música, reconhecido nos Sly and the Family Stone. É um músico fundamental da soul, do funk, que está desde há muitos anos em reclusão. Ele ainda vive, mas desapareceu do meio, está em reclusão. O Questlove faz um filme sobre alguém que adora. Ele trabalha esta ideia que está no próprio título, o Black Genius. O que é que isso do Black Genius? O Sly Stone é considerado um génio por muita gente. Teve uma vida recheada de episódios e o filme é muito importante para perceber como o Sly Stone teve diferentes momentos de estrelato e de apagamento. Foi muitas vezes ostracizado, mas é uma força enorme na música da soul e do funk”.

Os Sly & The Family Stone fundiram o r&b com o rock psicadélico como nenhum outro grupo. A banda liderada por Sly Stone pode ser Ray Charles e os Jefferson Airplane ao mesmo tempo. Os Sly & The Family Stone eram uma banda multicolor de brancos e pretos, e também uma banda multigénero de homens e mulheres. O nome Sly and the Family Stone não mente. Sly Stone forma em família a banda, como o guitarrista e irmão Freddie, que está desde o início no grupo, tal como o saxofonista Jerry Martini e a trompetista Cynthia Robinson.
 
Em 1967, os Sly & The Family Stone lançam o álbum de estreia “A Whole New Thing”, onde sobressaem canções como ‘Underdog’ e ‘I Cannot Make It’. 

Os Sly & The Family Stone tinham uma secção de metais poderosa, e um groove funky cada vez mais em alta. A banda tinha o bicho carpinteiro de James Brown e foi uma das grandes influências de Prince. 1968 é um ano decisivo para a banda de Sly Stone, em que alcançam os primeiros grandes sucessos comerciais. Fazem a primeira digressão europeia e lançam dois álbuns que sedimentam a escalada do grupo, “Dance to the Music” e “Life”.


 
Em 1969, os Sly & The Family Stone lançam um dos melhores álbuns da sua discografia e também uma das obras-primas dos anos 60, “Stand”, uma coleção versátil de grandes canções que confirma o grande talento de compositor de Sly Stone. Nessa sequência gloriosa de temas tão icónicos, contam-se o soul mutante do tema-título, Stand, ou a bandeira anti-racista de Don't Call Me Nigger, Whitey.


 
Os Sly & The Family Stone eram bastante enérgicos em palco, incluindo o líder Sly Stone, que se alternava entre os teclados e a guitarra eléctrica, atuando sempre com enorme fervor. À medida que a banda se foi apetrechando de funk, as atuações tornam-se mais explosivas. Em Agosto de 1969, o Festival de Woodstock apanha os Sly & The Family Stone num pico de forma. A interpretação de I Want to Take You Higher, em constante exaltação, está imortalizada no documentário de Michael Wadleigh sobre o Woodstock.

Ao longo dos anos 70, os Sly & The Family Stone prejudicam-se a si próprios com o comportamento cada vez mais errático de Sly Stone, acumulando-se concertos tarde e a más horas, ou simplesmente interrompidos por Sly Stone. O consumo de cocaína e de alucinogénios também contribuiu para uma indisciplina que afastou público e prejudicou a sustentabilidade do grupo e a banda foi-se desfazendo.
 
Sly Stone tornou-se um toxicodependente até praticamente aos últimos dias de hoje e ficou falido, tendo passado a viver em autocaravanas.
 
Antes da decadência, mas quando as coisas começam a complicar-se, os Sly & The Family Stone lançam em 1971 um dos seus álbuns mais aclamados, “There's a Riot Goin' On”, que apesar de narrar o fim do sonho hippie com amargura, dá ao grupo o seu maior êxito, Family Affair.