MoteLx 2025: vêm aí as noites das bruxas

Festival de cinema de terror vai fazer tremer o cinema São Jorge, em Lisboa, a partir de hoje. Entrevista a João Monteiro, um dos diretores do festival.

As pessoas não acreditam muito nas bruxas mas que las hay, las hay... no festival de cinema de terror MoteLx, cuja edição deste ano se foca mais no feminino e nestes rituais da vassoura mágica, pelo Portugal profundo e não só.

A 19ª edição do MoteLx arranca em pleno hoje, no local ensombrado do costume, nas salas escuras (ou de trevas) do São Jorge, com a novidade do Prémio Noémia Delgado a ser entregue à produtora norte-americana Gale Anne Hurd.

João Monteiro, um dos diretores do MoteLx, faz-nos os vários enquadramentos, em entrevista realizada no início do mês passado, antes do programa completo ter sido anunciado.

Podem consultar a programação completa do festival neste link.

Quais são os pontos fortes desta edição. Como é que podes resumir? 
João Monteiro - É uma edição que tem um tema subjacente que é a condição feminina e nesse sentido, vamos pela primeira vez atribuir um prémio só para profissionais, mulheres profissionais no cinema de terror. O prémio chama-se Noémia Delgado, que é exatamente a pessoa que incorpora todo o significado deste prémio. Ou seja, é uma pioneira do cinema fantástico português, esquecida completamente, que teve uma carreira muito influenciada pela condição de ser mulher e de trabalhar numa área exclusivamente masculina. E já nem digo o cinema de terror, digo o cinema em Portugal. E que conseguiu a carreira que conseguiu. Deixou-nos pelo menos sete filmes de terror feitos para a RTP. Para não cair totalmente no esquecimento, lembrámo-nos obviamente dela para este prémio. E a primeira galardoada é a nossa convidada de honra. É a primeira vez que temos uma convidada de honra, porque é uma produtora, que ainda é uma coisa mais rara, uma produtora em Hollywood chamada Gale Anne Hurd e que é responsável por alguns dos maiores clássicos que eu e tu vimos quando éramos miúdos, desde o “Terminator” ao “Aliens”, ou o “Tremors”, que era um filme que eu, por acaso, também gostava de ver quando era novo. É quase transgeracional, porque as novas gerações também a conhecem. Ou estão submetidas ao trabalho dela, quer através do “Walking Dead”, porque ela é grande produtora dessa série que é um grande sucesso. Portanto, isto é, sem dúvida, a maior novidade deste ano. É um prémio que pretendemos atribuir todos os anos, sejam pioneiras esquecidas, ou novas vozes ou novas visões que estão a mudar um bocado o cinema de terror. É uma das grandes novidades do século XXI relativamente ao cinema de terror, é que ele está a começar a ser usado por realizadoras e por pessoas que antigamente não sequer olhavam para o género como algo que pudesse ter uma utilidade. Agora usamos o género para discutir questões fraturantes do nosso tempo. 
Quero destacar o cinema português e nesse sentido temos duas estreias mundiais de cinema nacional: o “Sombras” do Jorge Cramez, que é um realizador que já esteve presente várias vezes no MoteLx, mas com curtas-metragens, tem a sua estreia numa longa. E é uma longa interessante porque é há um trabalho de conjunto, tem uma argumentista, que é a Rita Bonito, um produtor chamado Alexandre Oliveira, um par de protagonistas que é o Pedro Lacerda e a Vitória Guerra, e portanto, toda a gente aqui combina para fazer um filme que, obviamente, tem as suas características totalmente portuguesas, mas é um objeto bastante diferente. O outro chama-se “A Pianista” e é o terceiro filme do Nuno Bernardo. Ele já realizou um filme chamado “Gabriel”, foi o filme anterior dele, que é um thriller psicológico. Vai ter estreia e é muito interessante ver que cada vez mais não existe medo em apostar em cinema de género [em Portugal]. 

João Monteiro

Temos também filmes internacionais com grandes nomes no elenco. Estamos a falar da Marion Cotillard ou de John Malkovich.
Sim, há dois filmes que já anunciamos que são uma espécie de clube de novos talentos e de atores que já nem sabíamos que ainda trabalhavam, que é o “Opus” e o “Death of a Unicorn”. São dois títulos da A24, que é a maior produtora agora e a mais conhecida e mais consagrada de filmes de terror americana, que lançou Robert Eggers ou Ari Aster. São dois filmes que têm grandes nomes, como a Jenna Ortega, o John Malkovich, ou o Paul Rudd, que também é dos filmes de super-heróis, e o Richard E. Grant, que é outro ator que também já não via há milhares de anos. São dois pontos altos deste ano. Também temos o cinema brasileiro que está agora em grande, não só pelo filme que ganhou, o Óscar de Melhor Filme Internacional. Vamos exibir o filme chamado “Enterre Seus Mortos”, que também é produção do Rodrigo Teixeira, com o Selton Mello, também o ator do momento. Posso adiantar que tanto o realizador como o produtor vão estar presentes nessa sessão para apresentar o filme. Temos também o regresso do cinema africano, que é uma batalha que nós temos, que é encontrar cinema africano e encontrar cinema africano de terror, e depois aferir então a qualidade, mas neste caso é um realizador que tem trabalhado em África, mas que consegue financiamento estrangeiro, o que é ótimo. E fez um filme que é anti-imperialista, digamos assim, chamado "Zero". O realizador é do Congo e chama-se Jean-Luc Herbulot. A premissa é uma pessoa que acorda com uma bomba ligada ao corpo, que é uma premissa bastante normal em filmes de ação, só que neste caso é em Dakar. Ele acorda num autocarro, num dia normal, dia da semana de trabalho em Dakar. Fora disto, temos um filme chamado “Useful Ghost”, que é da Tailândia, que ganhou o Prêmio do Público, da Semana da Crítica, em Cannes. 

Temos também uma referência à Branca de Neve, não é?
O “Ice Tower” tem uma referência à Branca de Neve, ou à “Rainha do Gelo”, neste caso. Precisa de um ecrã gigante, para além de ter a Marion Cotillard, que chega para encher o écran. É um filme de uma realizadora que tem um aprumo técnico e formal muito pessoal que é a Lucile Hadzihalilovic. 

É difícil dizer o nome, mas parabéns. 
É difícil de dizer, mas é uma realizadora francesa. 

Agora, perguntas mais filosóficas. 
Oh, não! 
Sabendo que terror e medo não são bem a mesma coisa, qual é a palavra que une mais a programação do Motel X? Se é que que há alguma. 
Este ano há uma deriva para temas de religião pagã. Portanto, temos “A Rainha do Gelo”, com a Marion Cotillard, mas vamos também ter um Quarto Perdido dedicado a bruxas. Bruxas, obviamente, representadas no cinema português. E são, o que é curioso, porque não há muitos filmes em que a bruxa é a personagem principal. Portanto, há menções em certos filmes, mas no caso destes, aliás, em cinema são só dois. É “O Crime da Aldeia Velha”, que é só bruxas , basicamente, umas contra as outras, e o “Alma Viva”, da Cristela Alves Meira, que é um filme recente e que assenta nas memórias dos verões passados na aldeia. Toda a premissa anda à volta de uma bruxa que morreu e que, portanto, tem que passar o seu triste fado a alguém. E vamos ter também nesse âmbito uma sessão especial, porque desafiámos a Take It Easy para nos apresentar uma versão mais curta da série "Finisterra", e mais curta porque das muitas narrativas que compõem a série, aquela que é mais marcante e que nos mais importa é uma história verídica que aconteceu nos anos 20 em Aljezur, de uns bailes que eram uma espécie de rituais pagãos, que correram muito mal e que acabaram em mortes. Não foi uma grande mortandade, mas foram homicídios ritualísticos, principalmente de um senhor. Ficaram todos alteradas as pessoas que participaram neste baile, porque supostamente tinham bebido uma líquido preparado por uma bruxa, e neste caso ficaram todos maluquinhos, foram todos parar aos hospícios portugueses, em Lisboa, o Júlio de Matos e o Miguel Bombarda. E o crime foi um jovem que matou a esposa, que estava grávida, com um machado, segundo a lógica de que, pronto, ela estaria possuída pelo demónio. E isso é interessante neste caso, porque tanto este "Finisterra" como “O Crime da Aldeia Velha”. São baseados em histórias verídicas acontecidas no século XX e, portanto, a relação do país com a própria questão da bruxaria não é tão imaginária assim. É um fenómeno que ainda existe e os filmes que nós vamos mostrar provam exatamente isso. É que são dois filmes inspirados em factos reais e um inspirado nas memórias de infância. Portanto, este é um tema que também obviamente tem um bocado a ver com a questão a questão da representação feminina, porque a bruxa é um instrumento de poder contra o patriarcado e acho que estes filmes demonstram isso bem. 
E, depois, temos isto também na Sala de Culto, que é a nossa secção religiosa para objetos que se adoram e não se compreendem. Temos um filme chamado “Crendices”, que é o primeiro filme de terror feito na Madeira por um grupo humorístico chamado 4Litro. E é exatamente sobre as bruxas também, sobre as crendices próprias da ilha, em formato de comédia completamente desbaratada, porque eu obviamente não conheço o grupo, mas ele é bastante famoso na Madeira e portanto, tem um tipo de humor muito, muito particular. Essa questão do paganismo e das bruxas também se vai espalhar pela programação mais generalista, porque vamos encontrar esse tema também em muitos filmes. Na nossa secção documental, temos um documentário fabuloso chamado “The Last Sacrifice”, que é sobre o último homicídio ritualístico em Inglaterra e que terá inspirado a história - inspirou o maior clássico do folk horror que é o “The Wicker Man”. Ou seja, para além de ficarmos com a ideia de que todos os seja, que estes filmes folk horror geralmente têm uma base bastante real. Descobrimos outras coisas através deste documentário, como a verdadeira origem dos Teletubbies, que é uma coisa que a maior parte das pessoas sempre achou que poderia ter ali, ou que era, portanto, fruto de ingestão de muitas drogas, ou poderia ter, obviamente, um antecedente satânico. Este documentário, inclusive, abre umas luzes sobre esse assunto. 

João Monteiro

O que é que vamos ter para além da sala escura? O que é que vamos ter de trevas fora da sala escura? 
O MoteLX tem a secção de Lab, que é onde nós tentamos fazer aquela parte mais pedagógica. Ou temos workshops, ou temos palestras, debates sobre questões que têm essencialmente a ver com a produção, a divulgação do cinema de género português, que é uma coisa obviamente que não existe em Portugal. Não existe uma especialização, mas existem filmes. É bocado como as bruxas, não é? Não acreditamos nelas, mas elas existem. Portanto, nesse sentido, temos a continuação do programa do Prémio Guiões. Neste caso, era dado a meias com o Festival Guiões, que este ano não vai acontecer. Mas nós vamos manter essa competição e vai dar direito a uma sessão de pitching destes projetos, aberto ao público, obviamente, para se saber com que linhas se cose o terror português ou o futuro do terror português, esperemos nós. Depois, temos também a masterclass da Gale Anne Hurd, que vai ser, acho eu, bastante interessante para perceber como é que se prospera numa ambiente totalmente masculino e tóxico como é o de Hollywood; como é que se constroem carreiras, ou seja, as possibilidades para uma realizadora, para uma produtora, para uma mulher trabalhar nesta indústria. 

A primeira edição do MoteLx, em 2007, teve um pouco mais de quarenta filmes, incluindo curtas. Hoje em dia vocês têm mais ou menos quatro vezes mais filmes, com o dobro do público que tinham em 2007. Ainda sentem necessidade de crescer ou há um ponto em que é impossível de crescer e que vocês já atingiram? 

Eu acho que nunca foi a nossa preocupação crescer assim dessa forma. E as únicas vezes em que saímos do São Jorge foi porque era o Tivoli que estava ali disponível, e são dois cinemas que mantêm a traça e a decoração original. 

E estão frente-a-frente na Avenida da Liberdade. 
O objetivo do Motel X é existir todos os anos para providenciar o melhor tipo de programação possível. O que mais nos preocupa e gostávamos mais de fazer durante o ano é fazermos outro tipo de atividades fora de Lisboa. Essa é que é a nossa necessidade de crescer e de ir para outros sítios. Agora, crescer dentro do Motel X, acho que há sempre o risco quando tu cresces e vais para outras salas de perder a magia da coisa. Ou seja, deixa de ser uma coisa compacta e passa a ser uma coisa dispersa que eu acho que é aquilo que eu sinto às vezes quando vou a outros festivais maiores. E, portanto, obviamente estás todo fechado no mesmo sítio. O ambiente é muito mais contagiante e vibrante. Toda a programação está concentrada no mesmo local. 

João Monteiro