Motelx faz tremer São Jorge esta semana

A tendência crescente do eco-terror e uma retrospetiva de Brandon Cronenberg são alguns dos sinais medonhos desta edição do festival lisboeta.

Entre os dias 12 e 18, decorre mais uma edição (já a 17ª) do Motelx, o maior festival de cinema de terror nacional da atualidade. Os cinemas São Jorge estão no olho do furacão dos cataclismos que se prenunciam, nomeadamente os climáticos, do cada vez mais emergente subgénero do eco-terror. Sempre na descoberta de formas de desencaixe do terror, cujo conceito o festival não pára de alargar, há muito mais que portas a ranger, teias de aranha em zonas escuras e gente pálida que gosta devorar e contaminar pescoços de outros. O medo vai muito além disso.

O Motelx volta a escavar nas ossadas do cinema português, fazendo ressurgir um filme com 100 anos, "Os Olhos da Alma", realizado por Roger Lion - a merecer acompanhamento musical de Surma (às 19h00 de dia 18, no São Jorge). Insiste no seu fascínio pelo body horror, propondo desta vez a descoberta da curta filmografia de Brandon Cronenberg (três filmes daquele que é o filho do especialista do body horror, David Cronenberg. E volta a levar o terror à pura realidade através da secção de documentários, o Doc Terror.

Há muito mais para dizer sobre o Motelx de 2023, e quem melhor que um dos seus dois diretores, João Monteiro, que nos diz isto:   

De forma genérica...
Os pontos altos desta edição:

“Este ano temos dois filmes franceses na abertura e no encerramento, uma coisa que nunca aconteceu antes” – respetivamente “Le Règne Animal”, de Thomas Cailley, no dia 12, e Acide, de Just Philippot, no dia 18. “Geralmente, têm sido filmes norte-americanos ou anglo-saxónicos. São dois filmes parecidos, porque são dois eco-terrores. É o grande perigo para a humanidade, que vai aparecer refletido em filmes de agora”.
“Temos uma secção competitiva de melhor longa metragem europeia muito interessante, da qual destaco A Semente do Mal de Gabriel Abrantes, um filme português em competição, e duas estreias mundiais: The Funeral [de Orçun Behram] e Hood Witch” [de Saïd Belktibia]. 
“Vamos ter uma retrospetiva do Brandon Cronenberg. É uma carreira ainda jovem, são apenas três filmes. Dá direito a fazer um apanhado total. E é uma forma de apresentarmos um autor que não tem tido a mesma atenção que outros companheiros de geração, como o Ari Aster ou o Robert Eggers, no sentido em que nunca estreou nenhum filme dele em Portugal. É uma oportunidade para mostrar o que o torna um novo visionário do cinema de terror”.
“Vamor ter [a secção] Quarto Perdido dedicada ao mar. Vamos recuperar Tarde Demais do José Nascimento e vamos ter uma sessão especialíssima de um filme que faz 100 anos, chamado Os Olhos da Alma, com cineconcerto da Surma no último dia do festival. E exibiremos Serpiente de Mar, um clássico do cinema de culto, filmado na costa portuguesa e, obviamente, em Lisboa também. É daqueles filmes em que tudo correu mal na produção, mas ele existe e está ali para ser visto neste ambiente”.
“Temos cinema em todos os formatos possíveis e imaginários, da micro-curta à curta-metragem e à longa-metragem. Vamos ter a secção infantil Lobo Mau. Temos a SectionX, que é cinema experimental. Vamos ter o cruzamento com um outro festival, o Guiões, que é um evento de roteiro da língua portuguesa, e que vai acontecer no primeiro dia do Motelx. Vai haver um prémio para o melhor guião, entre cinco finalistas. Vai ser interessante perceber em que estado está a imaginação de terror em Portugal, antes de chegar ao produto final, que é o filme”.

 

Mais à lupa...
“The Animal Kingdom”, de Thomas Cailley (na sessão de abertura, dia 12, no cinema São Jorge, às 22h00)

“Momentos de crise mundial, como neste caso o aquecimento global, são o motor de muitos filmes. Da mesma maneira que nos estão a dizer para nos habituarmos às ondas de calor, os filmes de terror estão a pensar um pouco mais à frente a nível da relação do corpo com o meio ambiente. Esse filme é exatamente isso. É uma metamorfose do nosso futuro, que não é propriamente ir para Marte, mas antes readaptarmo-nos a todo o ecossistema”.

 

Retrospetiva de Brandon Cronenberg
“Os filmes de Brandon Cronenberg são um bocado o equivalente aos filmes do pai [David Cronenberg] de finais dos anos 70 e inícios dos anos 80 entre o Shivers e o Videodrome, que são filmes incríveis. Continuo a achar que é a melhor parte da carreira do David Cronenberg. O Antiviral [exibido no dia 16, às 14h20, na Sala 3 do São Jorge] lembra-me um bocado essas temáticas. Só que eu acho que há bastantes diferenças a nível estético e a nível de imagem, que é muito mais depurada, enquanto no pai esse depuramento é mais na escrita e no conceito. Enquanto o pai se fascinava mais pela doença a invadir um corpo, a revolução que uma bactéria provoca nesse corpo e a questão da transformação do corpo através da mente, o Brandon Cronenberg faz mais um cruzamento entre o trabalho do pai e coisas como o Succession, um bocado naquela ideia do 1% contra o mundo, aquele 1% que tem 43% da riqueza mundial”. 

 

“A Semente do Mal”, de Gabriel Abrantes (exibido no dia 16, às 21h40, na Sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge)
“É o grande destaque nacional. Obviamente, já tivemos estreias mundiais de filmes portugueses, mas ainda não tinha havido um autor de créditos firmados - talvez o Carlos Conceição, que também já estreámos. O Gabriel Abrantes já foi premiado em Cannes pelo filme Diamantino. Foi uma surpresa ele ter virado a agulha ao registo para brincar com as convenções do filme de terror. Espero que seja o primeiro de muitos e haja muitos autores e autoras como ele que vejam a possibilidade do filme de terror para fazer a catarse do momento”. 

“Mister Organ”, do jornalista David Farrier (exibido às 22h30, de dia 17, na Sala 3 do Cinema São Jorge)
“Arriscámos um bocadinho com o David Farrier, quando exibimos um filme chamado “Tickled”, que é uma investigação que começa numa coisa muito simples e inocente. É um tipo de filme que está muito em voga nas plataformas, este tipo de documentários que dão uma volta imensa e no fim já estás em sítios onde nunca pensaste ir parar. O David Farrier faz disto vida. Ele pega em fait-divers na terra dele, a Nova Zelândia, começa a esmiuçar todos os dados e de repente está no meio de uma enorme conspiração. Este filme está dentro da lógica do “Tickled” e do “Dark Tourist”, em se envolve de tal maneira que se transforma na figura principal do filme e não no objeto que ele estava a tentar retratar. Acho incrível como é que ele se submete a isto, porque me dá a impressão que lhe provocará um grande stress mental”.
 

Todas as informações úteis sobre o Motelx de 2023 podem ser encontradas neste link do site oficial.