"O que se perde quando alguém parte é o que estava dentro da cabeça dele." Júlio Isidro prefacia livro de crónicas de Cândido Mota
"Cândido Mota – Crónicas do Passageiro da Noite" será lançada esta segunda-feira, no dia em que o locutor completaria 83 anos. Júlio Isidro assina o prefácio.
A voz calou-se em maio, mas as palavras continuam vivas. Esta segunda-feira chega às livrarias "Cândido Mota – Crónicas do Passageiro da Noite", um livro que reúne textos escritos pelo histórico homem da rádio portuguesa e que surge como uma homenagem à sua vida e à forma única como comunicava.
O lançamento acontece num dia carregado de simbolismo: 28 de setembro, data em que Cândido Mota celebraria 83 anos.
Organizada pelas filhas, Teresa Mota e Maria João Mota, a obra recupera algumas das crónicas que o locutor publicou ao longo dos últimos anos, permitindo aos leitores revisitar o humor, a cultura e o olhar crítico de uma das vozes mais marcantes da rádio em Portugal.
O prefácio é assinado por Júlio Isidro, amigo de décadas, que não esconde a admiração por aquele que considera ter sido um comunicador excecional.
"Realço essencialmente o enorme talento para escrever, para dizer e para comunicar do Cândido Mota", afirma.
Os dois cruzaram-se profissionalmente no Rádio Clube Português e construíram uma amizade que atravessou gerações, diferenças de personalidade e até convicções políticas.
Júlio Isidro recorda um homem que viveu sem arrependimentos e de forma intensa.
"O Cândido dizia que fumou os cigarros todos que tinha para fumar e bebeu os uísques todos que tinha para beber. Não se arrependia de nada. Tinha vivido a vida em plenitude."
Apesar das diferenças (Júlio Isidro descreve-se, entre risos, como "um careta" que nunca fumou nem bebeu) a amizade manteve-se inabalável.
"Se o mundo fosse como nós éramos, havia muito mais paz."
O apresentador recorda que as conversas sobre política, sociedade e atualidade eram frequentes, mas nunca se transformaram em motivo de afastamento.
"Haver duas pessoas que desejam mais paz, mais habitação, mais saúde e mais educação toca a todos. As diferenças nunca nos separaram."
Mas há uma faceta de Cândido Mota que, segundo Júlio Isidro, muitos portugueses desconheciam: a qualidade da sua escrita.
"Escrevia muitíssimo bem."
Uma capacidade que atribui aos hábitos de leitura cultivados desde a infância e a uma cultura que considera "vastíssima".
Para o apresentador, a verdadeira dimensão da perda vai muito além da ausência física.
"O que se perde quando alguém parte é o que estava dentro da cabeça dele."
É precisamente uma parte desse património que agora chega ao público. Embora reconheça que a obra representa apenas uma pequena amostra da produção do amigo, Júlio Isidro acredita que o livro permite reencontrar a sua voz.
"É uma gota de água em relação aos milhares de textos que escreveu. Mas são todos muito saborosos e escritos num português exemplar."
A voz da noite continua a ouvir-se nas páginas do novo livro
Segundo a editora Âncora, "os textos foram escritos maioritariamente durante a noite, estes apontamentos transformam episódios da vida quotidiana em pequenas peças literárias, pontuadas pela curiosidade e pelo sentido de humor que sempre caracterizaram Cândido Mota. Ao preservar as suas palavras, «Cândido Mota – Crónicas do Passageiro da Noite» prolonga o seu legado pessoal e profissional e revela, para lá da voz que tantas gerações conheceram, o homem atento ao mundo e ao seu tempo".
Cândido Mota nasceu em Espinho, em 28 de setembro de 1943. Começou a trabalhar na rádio aos 17 anos, no Rádio Clube Português, e destacou-se em programas como Em Órbita e O Passageiro da Noite, na Rádio Comercial. A sua voz chegou também à televisão, em programas como A Roda da Sorte e Com a Verdade M’Enganas, em colaboração com Herman José. Militante do PCP, foi, durante mais de 35 anos, uma das vozes da Festa do Avante!.
"Cândido Mota – Crónicas do Passageiro da Noite" é apresentado esta segunda-feira, dia 28, às 18h00, na Biblioteca/Espaço Cultural Cinema Europa, em Campo de Ourique, Lisboa.
