Mulheres em Portugal são mais qualificadas, mas ainda estão longe da plena igualdade

As mulheres são mais de 5,6 milhões e representam a maioria da população residente em Portugal. Ao longo das últimas décadas, as mulheres portuguesas conquistaram espaço na educação, no mercado de trabalho e na participação política. No entanto, apesar dos avanços registados, persistem desigualdades nas condições de vida, no emprego e nos rendimentos.

As mulheres são hoje maioria da população em Portugal, mais qualificadas do que nunca e cada vez mais presentes em diferentes áreas da vida pública. No entanto, continuam sub-representadas nos cargos de liderança e enfrentam desigualdades persistentes no mercado de trabalho e na vida familiar.

No âmbito do Dia Internacional da Mulher, assinalado a 8 de março, dados reunidos pela Pordata, base estatística da Fundação Francisco Manuel dos Santos, traçam um retrato detalhado da situação das mulheres em Portugal.

E os dados mais recentes mostram um país em transformação, mas onde a igualdade plena entre homens e mulheres ainda está por conquistar.

Atualmente, vivem em Portugal mais de 5,6 milhões de mulheres, o que corresponde a 52,2% da população. As mulheres também vivem mais tempo: a esperança média de vida é de 85,4 anos, face a 79,8 anos para os homens. Ainda assim, essa maior longevidade não significa necessariamente mais anos com saúde, já que as mulheres passam, em média, menos tempo sem limitações de saúde.

Uma das mudanças mais profundas das últimas décadas aconteceu na educação. Se há meio século o acesso das mulheres aos estudos era limitado, hoje são maioria nas universidades.

58% dos diplomados do ensino superior são mulheres, um crescimento que reflete uma transformação social profunda.

Para Luísa Loura, esta mudança tem uma explicação histórica. “Quando houve maior abertura para que as mulheres pudessem estudar, sobretudo depois do 25 de Abril, percebe-se que agarraram muito mais essa oportunidade do que os rapazes”, explica. “Muitas vezes os rapazes conseguiam emprego antes de terminar os estudos, enquanto as raparigas investiam mais tempo na formação para terem uma arma mais forte para entrar no mercado de trabalho: o conhecimento.”

Apesar deste avanço, persistem desigualdades na escolha das áreas de formação. As mulheres continuam em minoria em setores como engenharias ou tecnologias, o que acaba por ter impacto nas oportunidades profissionais e nos salários.

Portugal apresenta um paradoxo curioso: tem uma das maiores proporções de mulheres qualificadas da Europa, mas essa realidade não se traduz na mesma presença em cargos de liderança.

Segundo Luísa Loura, a explicação está em fatores históricos e culturais. “Há uma cultura muito antiga de reservar às mulheres o trabalho de apoio aos filhos e à casa”, afirma. “Essa lógica vem de trás e ainda condiciona a paridade, mesmo em trabalhos onde não há qualquer razão objetiva para haver essa disparidade.” Além disso, existe também uma espécie de inércia institucional. “Os lugares de topo foram tradicionalmente ocupados por homens. É uma máquina que já estava montada assim e que demora tempo a mudar”, sublinha.

Ainda assim, a especialista admite que a tendência começa a evoluir: “À medida que começa a haver mais equilíbrio, isso pode propagar-se e trazer cada vez mais mulheres para esses cargos.”

No mercado de trabalho, cerca de 2,5 milhões de mulheres estão empregadas em Portugal, sobretudo nos setores da saúde, educação, comércio e indústria transformadora. Contudo, a realidade profissional continua fortemente condicionada pela vida familiar. “As mulheres trabalham fora de casa tal como os homens”, explica Luísa Loura. “Mas quando chegam a casa continuam a dedicar mais horas à logística da família e da casa. Essa desigualdade de tempo tem consequências diretas na carreira.” Essa carga adicional faz com que muitas mulheres tenham mais dificuldade em aceitar cargos de chefia ou funções com horários imprevisíveis. “Muitas vezes têm as qualidades e o conhecimento, mas não têm as condições concretas para assumir essas responsabilidades”, refere.

Na política, Portugal apresenta números acima da média europeia. Cerca de 38,8% dos membros do Governo e 36,5% dos deputados são mulheres.

“Já estivemos um bocadinho melhores”, recorda Luísa Loura. “Como os números globais não são muito grandes, pequenas variações acabam por ser muito visíveis.” Grande parte deste progresso resulta da Lei da Paridade, que obriga os partidos a garantir 40% de cada sexo nas listas eleitorais para o Parlamento. “Essa lei tem sido fundamental para que Portugal esteja melhor do que muitos países da União Europeia”, sublinha.

Outra das questões centrais é a diferença salarial entre homens e mulheres. Em Portugal, a desigualdade salarial ronda atualmente 7%, a segunda mais baixa desde 2006. No entanto, este número pode ser enganador. “A diferença que aparece nas estatísticas é calculada com base no valor à hora”, explica Luísa Lourenço. “Mas isso não significa que homens e mulheres tragam o mesmo dinheiro para casa ao fim do mês.” A razão está novamente na gestão do tempo. Se muitas mulheres não conseguem fazer horas extraordinárias ou assumir horários mais exigentes por causa das responsabilidades familiares, o rendimento mensal acaba por ser menor.

Quando questionada sobre qual é hoje o maior desafio na igualdade de género, Luísa Loura não aponta apenas para o mercado de trabalho ou para a política. “A maior desigualdade talvez esteja na forma como se distribui o tempo depois do trabalho”, diz. “Conseguir que homens e mulheres tenham o mesmo tempo livre e a mesma partilha das tarefas domésticas ainda é um desafio enorme.”

“Influencia as carreiras, mas também decisões sobre ter ou não filhos”, explica. “Há muitas mulheres que querem sucesso profissional e hesitam em aumentar a família porque sabem que a responsabilidade vai recair sobretudo sobre elas.”

Portugal mudou muito nas últimas décadas. As mulheres são hoje mais qualificadas, mais presentes na vida pública e cada vez mais visíveis em posições de liderança. No entanto, a igualdade plena continua a depender não apenas de leis ou políticas públicas, mas também de transformações culturais profundas.

Como resume Luísa Loura, “cada vez há mais pessoas nas empresas que reconhecem que não existe razão para diferenciar o trabalho de mulheres e homens”. O desafio que permanece, acrescenta, é garantir que essa igualdade se reflita não apenas nas estatísticas, mas também no quotidiano das famílias e das organizações.