Museu da Banda Desenhada de Beja: "Da periferia assumimo-nos como um centro"

Paulo Monteiro, diretor da Bedeteca de Beja, conta-nos o que se pode esperar deste museu e revela um pouco da história da BD nesta região.

O primeiro Museu da Banda Desenhada chega a Beja em 2027, o primeiro do país dedicado à arte urbana. A cidade alentejana é há décadas um polo da arte contemporânea. Paulo Monteiro, diretor da Bedeteca de Beja e autor de BD, está por detrás deste projeto.

O Museu é um passo importante para esta arte? 

É um passo importante, aliás, nós éramos dos poucos países da Europa que nos é mais próxima, que não tinha um Museu da Banda Desenhada. Isso era uma falha grave em termos da História de Arte Contemporânea. Nós temos uma história de BD tão rica, tão importante, tão diversificada que era uma pena as pessoas estarem afastadas, no fundo, deste enorme legado artístico. A existência do Museu é uma forma de trazer a banda desenhada e a História da BD para a comunidade. 

Ser inaugurado em Beja vai contribuir para descentralizar os pontos culturais pelo país?

Na verdade, o museu surge porque em 1996 foi criado um coletivo de autores de banda desenhada aqui em Beja, que se espalhou por vários concelhos e até por alguns países. Há autores um pouco de todo o mundo a trabalhar neste projeto. A essência desse coletivo, que funcionava na Casa da Cultura, levou à criação da Bedeteca de Beja em 2005 como forma de contextualizar o trabalho dos autores e, por sua vez, levou à existência do Festival de BD. Desde então tem sido uma bola de neve. Ao longo dos anos fomos recebendo várias doações, criando uma teia de contactos muito importante, com muitos autores e família de muitos criadores já desaparecidos. Chegámos há algum tempo à conclusão que realmente faria sentido fazer aqui um museu para alicerçar até toda esta atividade.

Beja tem sido apontada um bocadinho por toda a Europa como um caso interessante. Uma cidade afastada dos grandes meios urbanos, Lisboa e Porto, e a banda desenhada é uma arte muito cosmopolita e muito urbana. A 60 quilómetros da fronteira conseguiu apesar transformar-se num centro difusor de BD e aglutinador de artistas. Da periferia assumimo-nos como um centro.

O Museu vem na sequência desse trabalho que é feito já há alguns anos. Houve esta possibilidade de nos dar uma série de originais, guiões, fotografias... Temos, na verdade, um espólio fantástico e vamos avançar com o projeto que será um museu cronológico. Começa a falar de alguns antecedentes daquilo que os historiadores chamam de "protobanda desenhada", presente na azulejaria. Depois começa em 1850, com a primeira prancha desenhada por um autor português e vem até o início do século XXI, passando pelo Rafael Bordalo Pinheiro, Carlos Botelho, o Stuart, o Eduardo Teixeira Coelho, José Rui... Enfim, até à BD, que nos é mais próxima, dos anos 90 e início dos anos 2000. A ideia é contextualizar um bocadinho todo este percurso histórico, é uma mais-valia para a História da Arte portuguesa. 

Até lá onde é se pode encontrar a banda desenhada em Beja? 

Mantemos a Bedeteca a funcionar no edifício da Casa da Cultura, sempre com exposições temporárias... Ainda no mês passado tivemos o 'Beja Horrível', que é um micro festival de cinema e banda desenhada na área do terror e do fantástico.

O nosso maior evento é o Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, que vai começar dia 5 de junho - parece que é longe, mas mas não é. É um festival que atrai milhares de pessoas do país e do estrangeiro. Temos sempre entre quinze e vinte exposições, com autores de todo o mundo, muito famosos ou perfeitamente desconhecidos. É esse o espírito do festival.

Vamos continuar com a nossa atividade, ao mesmo tempo que estamos a trabalhar na adaptação do edifício, que foi construído entre o final do século XIX  e o início do vinte, a futuro museu. A ideia é que a obra esteja concluída até ao início do ano que vem e depois será a instalação do acervo propriamente dito. Esperamos que para o final de 2027 possamos abrir ao público.