Museu de miniaturas etnográficas convida a viagem ao passado em São Miguel
As peças permitem conhecer antigas práticas artesanais, costumes e tradições da ilha de São Miguel que caíram em desuso.
O Cantinho Etnográfico, pequeno espaço museológico que abriu as portas em 1996, em Ponta Delgada, tem um objetivo peculiar: preservar em miniatura alguns dos costumes, artes e tradições da ilha açoriana de São Miguel.
A exposição permanente de miniaturas etnográficas, inaugurada por Floriberto Melo a 27 de fevereiro de 1996, inclui centenas de peças artesanais à escala 1:10, que foram totalmente produzidas pelo criador, que morreu em 2017, com 81 anos.
As peças, elaboradas com grande precisão, proporcionam um autêntico regresso ao passado e permitem conhecer antigas práticas artesanais, costumes e tradições da ilha de São Miguel que caíram em desuso.
No interior do pequeno edifício anexo a uma casa de habitação é possível apreciar profissões antigas (tanoeiro, sapateiro, carpinteiro, marceneiro, fotógrafo, barbeiro e ferreiro, etc.), um moinho de vento, carrinhos de bebé, uma estufa de ananases, um lagar de vinho, uma cozinha tradicional, um quarto do Espírito Santo, um moinho movido a água, uma atafona, uma sala de aula e trajes regionais. Alguns cenários são iluminados e têm movimento, como o moinho de água e o quarto do Espírito Santo.
Também estão expostos muitos objetos antigos (máquinas fotográficas, grafonolas, telefones, chaves, moedas, notas, miniaturas de garrafas em vidro, maços de tabaco, medalhas, esferográficas, etc.) e uma “GingaJoga” elétrica com objetos e bonecos movimentados (que funciona com a introdução de uma moeda de um euro), entre outras peças também concebidas pelo autor, que exerceu a profissão de desenhador da construção civil.
Os conjuntos de miniaturas, que incluem cenário e respetivas peças, estão numerados e a cada um está associada uma tecla (aproveitada de teclados de computadores) que, quando premida, ilumina uma pequena tela retangular num fundo preto, onde aparece projetado um pequeno texto sobre o mesmo e o seu contexto. Todas as peças estão legendadas em Português, Inglês e Francês.
Segundo a família, Floriberto Melo foi um homem multifacetado, tendo sido chefe dos escuteiros, radioamador, músico e compositor, pintor, professor de música e animador cultural.
O Cantinho Etnográfico é para a família Melo um espaço com história e também de afetos, porque tanto os filhos como os netos acompanharam o processo criativo e a génese do pequeno museu.
Tudo foi feito manualmente com a utilização de canivetes e quem ali entra faz “uma viagem ao passado”, garante à agência Lusa o filho do autor, Joaquim Melo, de 63 anos.
“São coisas muito antigas, mais ninguém se lembra. É tudo passado, não há nada recente. Por isso, ele construiu um museu do passado”, disse orgulhoso.
Por falta de jeito, Joaquim nunca ajudou o pai na construção das miniaturas, mas é o grande zelador do espaço: “A única coisa que eu faço é manutenção e limpeza. Ele é que construiu isso tudo”.
“E é uma coisa que não vou destruir, não vou vender e vai ficar para as gerações futuras”, garante.
O irmão de Joaquim, João, de 54 anos, também não ficou surpreendido com a obra do pai, porque lembra-se de colecionar máquinas fotográficas, maços de tabaco e canetas.
“E como ele era desenhador, sempre teve muito jeito para fazer maquetes e para fazer esse tipo de coisas e, depois, começou a evoluir e começou a recriar o passado com essas maquetes e com essas miniaturas”, recorda.
João Melo tem “muito orgulho” na obra do pai, tal como toda a família, e não esperava que, um dia, o seu trabalho estivesse à vista de todos, mas lembra que ele “sempre teve muito gosto em mostrar o que fazia, primeiro aos amigos, e depois a conhecidos”.
Sobre os primórdios do projeto, lembra-se de uma das primeiras peças que o seu pai fez - uma bancada de carpinteiro -, “que já tem muitos anos”: “Quando era miúdo, sempre gostei muito de ver a minúcia dos objetos lá [na bancada do carpinteiro]”.
Cristina Andrade, de 36 anos, filha de Joaquim e neta do fundador do Cantinho Etnográfico também guarda memórias de quando o avô empreendeu o processo criativo das miniaturas, essencialmente em madeira, tendo-o auxiliado na construção do conjunto rural: “Eu ajudei o meu avô a fazer a parte dos milhos que estão a secar no sítio onde se secavam antigamente. Eu ajudei a fazer as baguinhas de milho”.
A jovem, a quem, em criança, o avô pedia que “não tocasse em nada”, e é agora responsável pelo espaço museológico, também não esconde o orgulho por poder continuar a mostrar o legado publicamente.
“[Temos recebido] alguns turistas, não tantos quanto gostaríamos. Alguns [habitantes] locais que vão passando e vão perguntando se podem entrar e se podem conhecer, mas é essencialmente mais turistas do que locais”, relatou à Lusa. O espaço familiar também tem recebido visitas de alunos e de grupos de idosos.
Cristina gostava que “toda a gente tivesse a oportunidade de conhecer o trabalho” do seu avô e, em breve, pretende fazer algumas melhorias no pequeno museu.
“Nós queremos mantê-lo na família, acima de tudo, e queremos dinamizar um bocadinho mais. Sem tirar a tradição que ele tem, mas pôr luzes em led, dinamizar um bocadinho mais para que toda a gente queira vir visitá-lo, […] e fazer parcerias com agências de viagens. Portanto, fazer com que isto seja conhecido por quem quiser cá vir visitar”, admitiu.
O objetivo familiar é “manter e melhorar” o espaço, rejeitando entregar o espólio a uma qualquer entidade: “Não era o que o meu avô queria, portanto, vamos manter o desejo dele”, vincou.
O Cantinho Etnográfico foi inaugurado em 1996 e após o falecimento de Floriberto Melo, em 2017, fechou ao público, mas reabriu as portas em 2020.
O espaço situa-se na Travessa das Laranjeiras, na freguesia de São Pedro, em Ponta Delgada, tem entrada gratuita e pode ser visitado diariamente mediante marcação.
