Música portuguesa (com certeza) no primeiro dia do CA Vilar de Mouros
Homenagem à maior do fado, Amália Rodrigues, os 40 anos de Delfins, os quase 45 dos GNR e rock a ferver de Legendary Tigerman. Vilar de Mouros já começou.
O histórico CA Vilar de Mouros abriu ontem as portas. Na edição de 2024, são quatro dias de música e alegre convívio, entre as margens do rio Coura e a paisagem apaziguadora da pequena vila nortenha que ganhou fama por acolher o festival mais antigo da Península Ibérica.
O “Woodstock à portuguesa”, essência que o festival gosta de preservar, começou com um dia gratuito e inteiramente dedicado à música portuguesa. Os Delfins foram os últimos a subir ao palco do histórico refúgio minhoto. Antes da festa comandada pela banda de Cascais, os festivaleiros assistiram aos concertos dos Fogo Frio, de Legendary Tigerman, dos GNR e dos Amália Hoje. Noite de regressos, celebrações e efemérides. Fomos do rock ‘n’ roll servido a ferver por Paulo Furtado ao pop nostálgico dos Delfins, passando pela evocação da estrela maior do fado e pelos deliciosos trocadilhos e comentários de Rui Reininho. No meio disto tudo, um propósito: homenagear a música que se faz em Portugal.
Os ponteiros do relógio batiam certo na uma da manhã quando os Delfins entraram em palco para fazer a festa dos 40 anos de carreira. Um "batalhão" de resistentes ficou no recinto para a celebração.
Miguel Ângelo, Fernando Cunha, Luís Sampaio, Rui Fadigas, Jorge Quadros e Dora Fidalgo, que estiveram pouco mais de uma hora em palco, ofereceram uma catrefada de êxitos. Canções que ainda pulam na memória coletiva portuguesa e que foram cantadas por todos os que ali estavam. Coro reunido à volta da banda de Cascais para celebrá-la. Energéticos, em forma e felizes por atuarem em Vilar de Mouros, os Delfins fecharam o primeiro dia como o primeiro festival do país merece. Com toda a gente a cantar em português, sorrisos abertos, braços erguidos, palmas e espírito de absoluta descontração e confraternização.
Desalinhados, que veio ao mundo no início dos anos 90, abriu o concerto. Do alinhamento saltaram temas como Sou Como Um Rio, Saber Amar, Ao Passar um Navio, Queda de um Anjo, Não Vou Ficar, Num Sonho Teu, Através da Multidão, Aquele Inverno, Bandeira, Um Lugar ao Sol, A Cor Azul e Nasce Selvagem. A meio do concerto, a evocação obrigatória ao enorme António Variações, com Canção do Engate, e Aquele Inverno, que chegou como um manifesto de apelo à paz, mensagem que já tinha sido sublinhada por Paulo Furtado ao cair do sol no recinto.
"Obrigado por ficarem connosco até ao fim", gritou, às tantas, o irrequieto Miguel Ângelo, que não só andou a deslizar pelo meio do público como ainda teve a cortesia de ir tirar umas quantas fotografias instantâneas às pessoas que estavam nas filas da frente. "Este é um festival mítico", disse, entusiasmado, o vocalista do grupo de Cascais, entre canções. "Nunca se esqueçam que este é o festival em que o José Cid roubou o microfone ao Elton John", lembrou, com um tom humorado, antes de prosseguir com a rajada de sucessos radiofónicos que marcam a estrada dos Delfins.
Soltem os Prisioneiros, A Primeira Vez e Baía de Cascais foram as que o grupo fez questão de guardar para o final. Por essa altura, Miguel Ângelo vestia, orgulhosamente, uma t-shirt a lembrar o equipamento da seleção nacional mas personalizada para a celebração dos 40 anos do grupo. "Muito obrigado por esta noite magnífica, por esta noite de verão!", exclamou o cantor português para rematar a festa no recinto histórico minhoto.
Se os Delfins foram buscar a lembrança da grandeza de António Variações, os Amália Hoje enalteceram a memória da estrela maior do fado. Amália Rodrigues atuou em Vilar de Mouros em 1971. Foi o ano que “oficializou” o festival, cuja origem remonta a 1965, embora as primeiras edições estivessem mais viradas para o folclore. A fadista portuguesa atuou no dia do Duo Ouro Negro numa edição que se dividiu por três fins de semana. Quarteto 1111, Elton John ou Manfred Mann foram outros nomes que brilharam no cartaz da edição que é tida como a primeira.
Mais de 50 anos depois e 25 desde a morte de Amália, a voz maior do fado homenageada no palco do festival pelos Amália Hoje, o projeto, criado por Nuno Gonçalves, que dá novas texturas a fados que viveram na voz da maior fadista portuguesa.
Nuno Gonçalves, Sónia Tavares, Paulo Praça e Fernando Ribeiro vieram a Vilar de Mouros mostrar “a nova fase do projeto” que quer continuar a mostrar o legado da fadista histórica às novas gerações. Os quatro estiveram em palco acompanhados por uma banda e um coro de sete vozes.
"É uma honra, um prazer e um privilégio estarmos aqui para homenagear Amália", começou por dizer um mais solene Fernando Ribeiro que hoje vai “trocar de pele” para agitar as massas com os Moonspell, facto que, aliás, Sónia Tavares fez questão de salientar, publicitando, com carinho, o concerto do marido. Sempre que podia, Fernando Ribeiro também elogiava a mulher, que ontem se vestiu de verde esmeralda. Paulo Praça pediu “mais luz no mundo” e sublinhou a importância de defendermos a democracia e a liberdade e Nuno Gonçalves, o “professor na sala” explicou o propósito da homenagem a Amália: entregar o legado da sua grandeza à memória coletiva das novas gerações.
O recinto escutou as texturas que os Amália Hoje criaram para Com Que Voz, Grito, Nome de Rua, Grito, Rasga o Passado, Abandono ou Formiga Bossa Nova. Vilar de Mouros também escutou Fado Amália, o single que assinala o regresso do projeto, e Medo, que Sónia Tavares segurou na voz com a grandeza que Amália merece.
"Uma das nossas grandes descobertas quando começámos este projeto foi saber que Amália Rodrigues cantava em várias línguas. Fazia questão de cantar na língua de cada país que visitava", contou Nuno Gonçalves antes de L’Important C’est La Rose. Soledad e o arrepiante e “sagrado” Foi Deus fecharam o final da homenagem à grande diva do fado que, como cantou António Variações, todos temos na voz.
A estreia dos GNR em Vilar de Mouros foi em 1982, ano que levou ao festival nomes como U2, Stranglers, Echo & the Bunnymen, Jafumega, The Raincoats, António Vitorino de Almeida ou Carlos Paredes. A entrada pagava-se em escudos e a Revolução dos Cravos ainda não tinha 10 anos. “Loucura controlada” foi o slogan que ficou associado a essa edição do festival que Rui Reininho e Tóli César Machado não esquecem. Jorge Romão entrou mais tarde na banda.
Sub-16 foi a primeira a saltar do alinhamento e teve logo palmas a acompanhar. Rui Reininho impera, como sempre. Com uma tirada sempre na ponta da língua, o carismático vocalista e exímio letrista enche as canções com a voz que lhe reconhecemos. É ajudado pontualmente pelas vozes do público, ainda que por vezes o portuense goste de trocar as voltas dos que seguem a letra dos temas à risca. Reininho gosta do improviso e ontem saudou uma série de lugares, Galiza, Alicante, as praias de Lamego, Braga ou Viana do Castelo.
Ao fundo, imagens que relembram a história do grupo que em 2025 sopra 45 velas. "Os primeiros 40 e picos foram convosco", disse Reininho, falando depois, em tom de brincadeira, da incógnita dos próximos 40. O que veio a seguir foi a história dos GNR numa versão concentrada para encaixar no festival. Video Maria, Mais Vale Nunca, Eu Não Sou Assim, Asas, Popless, Morte ao Sol, Efectivamente, Sangue Oculto ou Las Vagas não faltaram. Luzes erguidas para escutar Pronúncia do Norte e vozes ao alto para cantar Dunas, a última do trio português.
"Tem sido uma vida maravilhosa", rematou Rui Reininho que durante o espetáculo fez questão de descer do palco para cumprimentar o público que estava na linha da frente.
O "rock ‘n’ roll é uma coisa bonita", soltou Paulo Furtado antes de servir 'Fix of Rock'n'Roll', uma do alinhamento que escolheu para o regresso a Vilar de Mouros. Final de tarde, com o público ainda tímido mas o palco a ferver. O músico de Coimbra voltou a Vilar de Mouros, agora com o álbum "Zeitgeist" (editado em 2023) debaixo do braço, mas não esqueceu o reportório que assina desde 2002. É a terceira vez que o nome The Legendary Tigerman figura no cartaz do festival, depois de ter feito parte das edições de 2016 e 2022. Desta vez, Paulo Furtado esteve acompanhado por Sara Badalo, Cabrita (saxofone e teclas), Filipe Rocha (baixo e sintetizadores) e Mike Ghost (bateria).



















































































































