Músicas contra as ditaduras

100 anos depois do Golpe de Estado do 28 de Maio em Portugal, fazemos um levantamento sem fronteiras de temas contra autocracias.

A 28 de Maio de 1926, há precisamente 100 anos, deu-se o golpe de Estado militar operado pelo Marechal Gomes da Costa, que iniciou II República em Portugal, que durou até 1974, e que seria marcada por 36 anos de Salazarismo, com o ditador António Oliveira Salazar como primeiro-ministro.   

A ditadura do Estado Novo fez parte de uma conjuntura mundial trágica, de numerosas ditaduras, ora de extrema-direita, como na Alemanha nazi, na Itália fascista e em Espanha, e de extrema-esquerda, exponenciada pela gigante União Soviética. 

A triste data de há 100 anos mobiliza-nos para um levantamento de canções contra ditaduras (fascistas, comunistas ou islâmicas) à volta do mundo. Dissecamos músicas que contestam as ditaduras, de forma direta ou subtil. José Afonso não esteve com rodeios, em 1963, quando publicou a canção ‘Vampiros’. Apesar das metáforas, a crítica à ditadura e ao sistema económico é bastante evidente. A música tem uma mensagem bastante atual, atendendo ao atual neo-liberalismo económico. José Afonso descola-se de vez dos fados de Coimbra, torna-se o que se chama de cantor de intervenção. O tema ‘Vampiros’ surge na sequência de vários acontecimentos como a candidatura presidencial eliminada de Humberto Delgado, as crises académicas e o início da Guerra Colonial.


Sérgio Godinho fez uma interpretação desta música para o seu álbum “Caríssimas Canções”. “E continuo a cantá-la muitas vezes ao vivo. É uma versão muito diferente, mas é uma canção paradigmática. Quando eu tinha 18 anos e a ouvi, percebi que se podia escrever em português de outra maneira. É uma canção ousada, porque foi escrita a partir de uma metáfora tão evidente, uma metáfora em que é um ato coragem também”, diz-nos Sérgio Godinho, em entrevista que lhe fiz para o podcast Canta Liberdade.

Sérgio Godinho

Uma música como ‘Os Vampiros’ tem um alcance transgeracional, como se entrasse no mundo das fábulas das crianças. O tema começou a agitar qualquer coisa na criança que era André Henriques, hoje o vocalista e letrista dos Linda Martini. “A revolução ainda estava muito fresca, por causa dos meus pais, dos meus tios, dos pais dos meus amigos, que estavam recheados [de discos] dos tais cantores de Abril, do Zeca Afonso, do José Mário Branco, do Fausto, dos nomes todos incontornáveis. Se calhar, se eu pensar nas canções de intervenção ou de protesto que de alguma forma me marcaram, sem dúvida que as primeiras coisas que eu tenho memória são essas, como o ‘Grândola [Vila Morena]’ do Zeca, ou os ‘Vampiros’, são aquelas coisas que de repente tu estás a cantar e alguém vai lá por trás, o teu pai ou a tua mãe ou o teu tio e diz-nos: ‘sabes que este senhor que está a cantar está aqui a falar dos vampiros, mas os vampiros não são bem os vampiros que tu vês nos desenhos animados’”, recorda-nos André Henriques.
 

André Henriques

A menina Ana Matos, hoje Capicua, também se confrontou com estas músicas efabuladas que tentavam iludir a censura. “A primeira música que ouvi foi a música que os meus pais ouviam, que eram os cantautores de Abril: o Zeca Afonso, o José Mário Branco, o Fausto, o Sérgio Godinho. Ao início, eu pensava que aquilo era música para crianças. ‘A Formiga no Carreiro’ [de José Afonso] para mim era música para crianças, o ‘Charlatão’ era música para crianças, a ‘Ronda do Soldadinho’ do Zé Mário [Branco] era música para crianças.  E só depois de o meu pai me explicar que aquelas letras estavam na verdade a falar sobre a oposição ao regime, ou sobre a guerra colonial, ou sobre temas que eram muitas vezes proibidos e censurados pelo regime e que aqueles músicos encontraram quase uma outra linguagem para driblar a censura e para passar mensagens importantes através de metáforas. Eu fiquei a achar que aquilo era um superpoder, abriu-se um portal no meu cérebro. ‘Eles estão a contar uma história, mas afinal estão a falar outra coisa e estão a tentar driblar a censura e conseguir passar uma mensagem de liberdade e de resistência’. Para mim aquilo foi uma descoberta que ainda hoje me emociona.

Capicua

Capicua é especialmente fã do álbum de estreia de Sérgio Godinho, “Os Sobreviventes”, onde se encontra esta canção, ‘O Charlatão’.
 


 
Esta canção é de 1972, quando ainda vigorava a ditadura em Portugal. “Nessa altura, a censura já tinha uma grande incoerência interna. Já não sabia com que linhas se coser. O primeiro disco, "Os Sobreviventes" [de 1972], chegou a ser retirado das lojas, mas depois reposto, etc. Era uma altura de decadência óbvia do regime”, enquadra-nos o autor de ‘Charlatão’, Sérgio Godinho.

Nem sempre se tentava a linguagem mais criativa para se tentar driblar a censura, José Afonso não podia ser mais direto a cantar sobre as capturas noturnas da PIDE, no tema de 1969, ‘Era De Noite E Levaram’. Nessa altura, a polícia política da ditadura era ainda bastante ativa e intimidatória. A letra é do poeta e amigo de José Afonso dos tempos de Coimbra, Luís de Andrade, mais conhecido como Luís Pignatelli.

Zeca Afonso era um monstro agregador de várias expressões artísticas e que, por essa razão, merece a admiração da fadista Aldina Duarte. “O Zeca é um mestre, aquilo é um monumento e não há nada no mundo que se lhe assemelhe. Quando uma só pessoa constrói uma obra assim, é muito impressionante, porque é raro no mundo haver este tipo de artistas que inventam uma música com aquela simplicidade e antiguidade ao mesmo tempo, parece que sempre existiu aquela música e depois integra tudo. A poesia que ele canta vai desde o surreal a coisas mais diretas.  Eu cheguei ao Zeca depois dos discípulos, mas percebo que é o Zeca que é o grande, é o mestre”, declara-nos a fadista lisboeta.

Aldina Duarte

Outro poema direto, este da autoria de Zeca, é a canção ‘A Morte Saiu À Rua’, dedicada ao pintor José Dias Coelho, que era um resistente anti-fascista. Tal como faz em ‘Cantar Alentejano’, dedicado à ceifeira assassinada pela GNR, Catarina Eufémia, José Afonso abre esta canção do luto à luta futura. O pintor morreu em 1961, baleado pela PIDE em Lisboa numa noite de dezembro. A canção ‘A Morte Saiu à Rua’ foi publicada em 1972. É uma música corajosa e permeável à censura.

Por causa de temas como ‘A Morte Saiu à Rua’, os discos de Zeca não eram vendidos por cima do balcão, tal como lembra Lena D’Água. “Zeca Afonso, o Zé Mário e o Sérgio Godinho. Foram os três primeiros LPs que eu me lembro de ter comprado. E ainda cá os tenho. Aqueles de 71, 72 que ainda tínhamos que comprar na cave da alfarrabista lá de Benfica, porque estavam lá refundidos no meio das outras coisas, discos em segunda mão. Isso quando eu tinha 16 anos. E foram completamente inspiradores, esses homens incríveis”.
 

Lena D'Água

Um pouco antes do tema ‘Vampiros’ de Zeca Afonso, Amália Rodrigues cantou aquele que é o seu fado mais interventivo. Chama-se ‘Abandono’ e faz parte do seu álbum homónimo de 1962, “Amália Rodrigues”, conhecido como ‘Busto’ por causa da imagem esculpida da fadista. O álbum de 1962, conhecido como “Busto”, marca o início da colaboração de Amália com o músico Alain Oulman, que se tornou fundamental para o ciclo mais dourado da fadista. Esta canção ‘Abandono’ tem letra assinada pelo poeta David Mourão-Ferreira.

Camané cantou por várias vezes ‘Abandono’ e conhece bem este fado. “’Ao menos ouves o vento, ao menos ouves o mar’, portanto, ele está fechado numa prisão. O fado tinha dois nomes, inicialmente era chamado Abandono, mas também lhe chamavam Fado Peniche. E então, a prisão de Peniche e a descrição da prisão, e a descrição do sentimento da pessoa que ficou, que não foi,  e que ficam também as saudades, uma série de sentimentos que acontecem quando uma pessoa está longe da outra”, enquadra-nos o fadista.
 

Camané

Gisela João também vai cantando o fado 'Abandono', sobre a fuga da prisão do forte de Peniche de presos políticos, entre os quais Álvaro Cunhal. Gisela João selecionou este fado no seu espetáculo de 2024, dedicado à liberdade e aos 50 anos do 25 de Abril. “Enquanto artista, tudo aquilo que eu faço tem mais do que uma história lá dentro. Fala mais do que uma coisa. E o Abandono é daquelas músicas em que as pessoas que passaram a saber da história, que falava sobre os presos, que eram levados de noite no meio da escuridão. Na verdade, isso é o que acontece em toda a poesia. É assim que eu vejo toda a poesia, ela tem sempre mais do que uma história, todas as pessoas que vêm lá dentro. Eu acho que a poesia é muito democrática. O fado e o rap são muito parecidos, só que no rap, eles dizem tudo, dizem as palavras como elas são e dizem as lutas todas na tua cara. E o fado não, eu acho que o Abandono tem esta coisa maravilhosa de falar do amor, e ao mesmo tempo aquilo é altamente revolucionário e é uma luta. Deixa-me triste pensar que aquilo não foi feito só porque o poeta quis, foi porque tinha que fazer assim, não podia fazer de outra forma. Esse roubo da liberdade a esse poeta dói-me, porque é um exemplo de como as pessoas viviam, como a liberdade das pessoas era roubada”, afirma Gisela João.

Gisela João

A fadista Aldina Duarte lamenta que Amália não tenha assumido o Fado de Peniche como um tema de carga política. “Na realidade, ela diz que cantou aquilo como um fado de amor, alguém que partiu e que perdeu.  Foi esta a posição que ela assumiu, e acredito até. Mas duvido que, com a sua inteligência, ela não soubesse o que estava ali a ser tratado. O David Mourão-Ferreira, por sua vez, assumiu que [o fado] era sobre os presos políticos em Peniche”.

Aldina Duarte

Há mais fado anti-fascista do que se pensa. Por exemplo, no fado mais humorístico, destacou-se nos anos 70 Artur Gonçalves, que faz o retrato da ditadura salazarista no tema ‘Ser Fascista’. O cantor Manuel João Vieira, dos Ena Pá 2000 e dos Irmãos Catita, pegou neste fado. 

“É evidente que o fascismo encarou o fado sempre como uma música do regime, apropriou-se dele. Não é o fado, que tem nada a ver com isso, foi o regime que achou que era uma música que chegava muito ao público e que enfraquecia o povo de alguma maneira, falava da fraqueza do povo, as mulheres enjeitadas, aquela mentalidade, ‘ela portou-se mal e depois foi para a prostituição’, por exemplo. Os pobres coitados, são sempre os desgraçadinhos, era a música do desgraçadinho, aliás, assim que se gozava com este reportório. Eu entendo-o de outra maneira. Eu sei que o fascismo quis fazer essa utilização do fado. Eu, enquanto fadista, não entendo assim. Acho que o fado é, para mim, se calhar, em termos de história e de reportório, a arte mais democrática que eu alguma vez conheci. Não conheço outras músicas, outras artes onde o povo tenha sido o protagonista, onde uma arte que tenha dado ao longo de toda a sua história voz aos vencidos desde sempre”, defende Aldina Duarte, conhecedora profunda da história do fado.

Aldina Duarte

Algumas das figuras do fado de Coimbra estão ligadas à resistência anti-fascista, como o caso do génio da guitarra portuguesa, Carlos Paredes. É dele um dos instrumentais mais marcantes da música portuguesa, de nome ‘Verdes Anos’. Aqui não se canta a liberdade, toca-se. E toca-nos, numa imensidão de portugalidade.   

Camané faz a vénia à arte dedilhada de Carlos Paredes. “O prazer de ver uma guitarra portuguesa a tocar daquela forma e a fazer aquela música, foi fantástico, foi um orgulho enorme. E pronto, é engraçado porque depois posteriormente, lembro-me perfeitamente dos fados,  havia um certo preconceito em relação à música do Carlos Paredes. Havia.  E de repente houve uma série de músicos do fado, estou-me a lembrar do António Parreira e do Fontes Rocha que começaram a falar do Paredes. E então, nessa altura, lembro-me perfeitamente que tinham ido ouvir um concerto do Carlos Paredes. Porque havia uma diferença na guitarra portuguesa do Paredes - supostamente, não sei, não sou músico -, acho que a guitarra portuguesa era a guitarra de Coimbra, tinha uma forma e uma afinação diferente à da guitarra de Lisboa.  Muitos desses músicos foram ouvir o Paredes sentiram uma coisa fantástica, era mais qualquer coisa que acrescentava àquele instrumento”.

Camané


O sociólogo e antigo ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, faz um enquadramento complementar. “Essa música pode ter três existências. A versão que conhecemos porque conhecemos o filme do Paulo Rocha [‘Verdes Anos’], a música em si para quem não a conhece e ainda a música com a versão cantada com o poema do Manuel Alegre. São necessariamente três leituras diferentes da mesma música e o contexto e o sentido do autor acrescenta camadas de leitura”.

Pedro Adão e Silva

“Verdes Anos” é um filme de 1963, que se passa em Lisboa, realizado por um cineasta do Porto, como Paulo Rocha, com música de um coimbrão como Carlos Paredes.

A cidade do Mondego foi sendo um ninho de opositores ao regime, gente tão diferente como José Afonso, José Cid, Carlos Paredes, Manuel Alegre ou Adriano Correia de Oliveira, que por lá estudaram ou viveram.  

É de Coimbra e do mesmo ano de ‘Vampiros’, 1963, a inspiradora música de resistência, ‘Trova do Vento Que Passa’. Quem o semeia é o poema de Manuel Alegre, o vento é da voz de Adriano Correia de Oliveira. Este poema de Manuel Alegre seria também agigantado poucos anos mais tarde pela voz de Amália Rodrigues, ainda durante a ditadura.


O Brasil também teve as suas lutas, contra uma ditadura que era militar. Chico Buarque foi um dos rebeldes que testou a censura e sua inteligência, ou a falta dela. Pedro Adão e Silva dá um exemplo. “A interpretação pode sugerir coisas diferentes do sentido da canção. Algumas das coisas que o Chico Buarque fez passarem pela censura. E que não se percebia, não era óbvio à primeira vista o significado político. O Apesar de Você é uma música sobre a ditadura”. 

Pedro Adão e Silva

O “você” da canção é o Presidente do Brasil, Médici. A censura deixou passar a canção, mas quase todos perceberam a quem se dirigia. Quando finalmente a censura percebeu, foram mandadas retirar todas as cópias de ‘Apesar de Você’ e destruídas as cópias que estavam armazenadas em stock na fábrica. Mas a fita da gravação foi salva.  

“Há canções que têm uma mensagem óbvia, não é? ‘Apesar de Você, amanhã vai ser outro dia’, é uma referência a um dos presidentes. Há muitas canções assim. Naquela canção do Geraldo Vandré, ‘Para Não Dizer Que Não Falei de Flores, ‘Caminhando e cantando / E seguindo a canção’”, lembra Sérgio Godinho.

Sérgio Godinho

“Vem, vamos embora, que esperar não é saber”, canta Geraldo Vandré, numa música que se tornou num hino de resistência civil à ditadura brasileira. A música ‘Pra não dizer que não falei das Flores’ é de 1968. Geraldo Vandré inspirou-se num grande movimento de contestação estudantil contra a ditadura, a Passeata dos Cem Mil, ocorrida no Rio de Janeiro. 

Bem mais indireta é a letra da canção de 1979, ‘O Bebâdo e o Equilibrista’, eternizada por Elis Regina. Embora inspirado pela morte de Charles Chaplin, o tema é uma enumeração codificada das tragédias associadas à ditadura militar do Brasil. O tema ‘O Bebâdo e o Equilibrista’ é composto por João Bosco e Aldir Blanc.

Quem nunca teve papas na língua foi Rita Lee, como no tema ‘Arrombou o Cofre’, onde chama os políticos pelos nomes e arrasa a corrupção da ditadura militar do Brasil. Esta música é de 1983, o regime militar só duraria mais dois anos.

Desta lado do Atlântico, os Xutos & Pontapés fazem um retrato do que se passava não só no Brasil, como noutras ditaduras militares na América do Sul, no tema ‘Esquadrão da Morte’. “O Esquadrão da Morte tem a ver com o que se viveu na América Latina, com as perseguições e com os assassinatos encomendados. Há tantas nas ditaduras, tanto na brasileira como na Argentina, como em todas as outras.  Havia esquadrões da polícia. Pode acontecer em qualquer país, que devido à sua orientação política e devido aos seus superiores, executavam pessoas. Portanto, marcavam-nas e matavam-nas. Isso começou por ser meio-político, que agora é este, depois o outro, e depois de repente aquilo descambou e de repente esses esquadrões da morte faziam a limpeza. Eles chamavam perua, era uma ramona, portanto um carro da polícia, enfiava não sei quantos vagabundos lá para dentro, levavam-nos para um sítio qualquer e despachavam-nos”, explica Tim, o vocalista dos Xutos, e letrista de ‘Esquadrão da Morte’.

‘Esquadrão da Morte’ foi gravado ao vivo nos dois concertos dos Xutos & Pontapés no Rock Rendez-Vous, em Lisboa, no Verão de 1986. ‘Esquadrão da Morte’ é uma das melhores letras de um dos melhores letristas do nosso rock, Tim. E esta é, sem dúvida, umas das mais interventivas canções dos Xutos & Pontapés.

Alguns anos antes, em 1979, os Trovante olharam para uma ditadura em especial na América Latina, no tema ‘Cantemos Victor Jara’, tal como recorda o guitarrista da banda, João Gil. “Aconteceu drama do Chile, do malogrado Salvador Allende e do músico, Victor Jara e ode utros, aquilo bateu-nos bastante.  Eu acho que houve um jogo de espelhos muito forte entre a situação no Chile e Portugal.  Nós vivemos muito com intensidade aquele drama e fomos muito influenciados pela música dos Andes e da América do Sul”. 

João Gil

A música ‘Cantemos Victor Jara’ é influenciada pelas flautas andinas e louva o músico mártir Victor Jara, cujo corpo continua desaparecido desde 1973, o ano do golpe militar de Pinochet. O estadista antecessor, Salvador Allende, perdeu a vida no terrível Golpe de Estado. 

Também de fora, mas de um país mais próximo como a Venezuela, veio também uma canção solidária com os chilenos, reprimidos por um dos mais cruéis regimes militares. Estou a falar de Soledad Bravo e da sua canção ‘Santiago de Chile’

A meteorologia humana é invernal em Santiago de Chile, a cidade “encurralada”, na letra da canção de Soledad Bravo.

Se da Venezuela vinha uma canção amiga para com o povo chileno, foi também do Chile um olhar solidário para com Espanha, e com as milícias de resistência às tropas franquistas na Guerra Civil de 1936 a 1939. O cantor chileno Rolando Alarcón fez nos anos 60 uma versão marcante da canção popular espanhola, 'El Quinto Regiemento'.

Rolando Alarcón fez vários álbuns temáticos dedicados a canções comunistas do mundo inteiro. O cantor chileno, que foi um dos nomes maiores da “nueva canción chilena” morreu em 1973, poucos meses antes do Golpe de Estado de Pinochet, que derrubou Salvador Allende.

Abundam músicas inspiradas na Guerra Civil Espanhola. Igualmente numa espécie de tele-intervenção, de ativismo à distância, os galeses Manic Street Preachers escreveram a famosa canção ‘If You Tolerate This Your Children Will Be Next’, inspirada na Guerra Civil de Espanha e nos voluntários galeses que ajudaram as tropas republicanas, contra as tropas comandadas por Franco. 

Esta canção dos Manics é de 1998 e é acima de tudo uma crítica à passividade atual. A música reclama uma ação idealista, como em tempos houve.

Praticamente 30 anos depois da Guerra Civil de Espanha, o cantautor catalão Lluis Llach faz uma das maiores críticas à ditadura de Franco, em forma de canção. Essa canção é ‘L’estaca’. A estaca metafórica do título é o acorrentamento de quem pensa de forma diferente do regime. Cantar esta mensagem numa língua oprimida como o catalão tornou a canção ainda mais subversiva para o regime de Franco. O tema foi publicado em 1968. Esta é uma versão ao vivo de 1976, já em Barcelona, já com Lluís Llach livre e com o ditador Franco falecido dois meses antes. 

Declarações recolhidos durante o podcast "Canta Liberdade", que pode ouvir aqui.