Músicas pela justiça social e contra a pobreza
José Afonso, Bruce Springsteen, PJ Harvey ou Xullaji deram abrigo cancioneiro aos excluídos de quaisquer condições de vida.
Hoje, 20 de fevereiro, é o Dia Mundial da Justiça Social, promovido pelas Nações Unidas. As alterações climáticas, os aumentos das guerras e das emigrações em massa, os crescimentos das ditaduras e das inerentes ganâncias têm tido como contraditório vários alertas, incluindo canções de agora ou imunes ao tempo, que nos escancaram o lado negro das desigualdades cada vez maiores.
Tiramos a tampa da panela de pressão musical de onde saltam canções que observam os excluídos a que muitos viram a cara para não os verem.
Contamos com depoimentos de Xullaji, Pedro Neto (diretor da Amnistia Internacional em Portugal) e de Luís Varatojo, com base no 4º episódio do podcast sobre músicas de causas “Canta Liberdade”, dedicado às músicas pela justiça laboral e social.
A sul do Tejo, A Garota Não e o rapper Xullaji juntaram-se em 2023 para questionarem... ‘Não Sei O Que É Que Fica’. Portugal é cada vez mais um país para visitar e não para viver. O rapper Xullaji critica este bem-estar pitoresco de fachada.
Neste tema dos lisboetas Fogo Fogo, ‘Um Casa Pa Morá’, de 2024, também lembra a falta de habitação. O tom é de funaná e de festa, mas o assunto é sério.
Quem cantava sobre os sem-abrigo e bem era José Afonso, como no tema de 1968, ‘Vejam Bem’. A pobre personagem da canção parece ser um anti-fascista, a quem ninguém quer ajudar. A música é publicada durante o período de ditadura em Portugal. José Afonso critica a cobardia da gente da praça, a mesma cobardia que o próprio Zeca terá sentido muitas vezes e que inviabilizou a sua vida de professor.
Gisela João pegou nessa canção e revirou-a, numa versão para o seu álbum de versões abrilistas, “Inquieta”. "Acho que há uma coisa ainda mais interessante nessa música, que é logo a primeira frase: ‘vejam bem que não há só gaivotas em terra quando o homem se põe a pensar’. Faz-me muito pensar nesta questão de que há muito mais para lá do que o que está no teu umbigo. Há muito mais para lá do que aquilo que os teus olhos conseguem alcançar. Essa frase é mesmo muito importante porque eu consigo aplicá-la em tudo que eu faço na vida. Lá está, o lugar do outro. O outro, às vezes, tu nem o vês, mas sabes que ele existe”, lamenta-nos a fadista em entrevista recente sobre o álbum “Inquieta”.
No álbum de 2016, “The Hope Six Demolition Project”, PJ Harvey faz um olhar mais expedicionário à miséria do mundo, indo até três pontos complicados do planeta: em Washington DC, no Afeganistão e no Kosovo. Foi neste último ponto do planeta que PJ Harvey se inspirou para esta canção, 'The Wheel'. Sua santidade do indie rock, Polly Jean J Harvey, foi acompanhada pelo fotógrafo de guerra Seamus Murphy, para um projeto que se consolidou num documentário tricontinental.
Muitos anos antes, em 1984, foi uma reportagem da BBC que fez Bob Geldof viajar mentalmente para a Etiópia e para a fome que por lá grassava com a guerra e com as longas secas. Via-se uma aglomeração nómada de esqueletos ainda vivos, crianças fatalmente desnutridas a morrerem durante a reportagem da BBC e corridas desenfreadas por comida que afinal não chegava. Bob Geldof não perdeu tempo e organizou e compôs um tema de ajuda à Etiópia, ‘Do They Know It's Christmas?’.
A Band Aid que gravou este single era uma concentração de estrelas pop britânicas, como George Michael, Sting ou os Duran Duran. Uma concentração ainda maior de estrelas surgiu nos Estados Unidos, para o single ‘We Are the World’, com o mesmo objetivo de acudir à fome em massa na Etiópia e não só.
Mas a história continuaria com o evento musical mais mediático de que há memória, falamos do Live Aid, que aconteceu nos dois lados do Atlântico, e em direto para as televisões de quase todo o mundo. O diretor da Amnistia Internacional em Portugal, Pedro Neto, revê-se nesta atitude humanitária: “Eu acho que estes concertos e estes eventos, como o Live Aid, pelo direito humano na luta contra a pobreza, eternizam estas causas e tornam-se hinos e bandas sonoras deles próprios”.
Povos migravam da Eritreia para a Etiópia. Mas Bruce Springsteen lembrou-se de outra migração em massa por causa da fome, falamos da grande depressão americana nos anos 30, em que muitas centenas de milhar de pessoas rumavam dos poeirentos estados do centro para a terra prometida, a verdejante Califórnia. A canção de Bruce Springsteen é ‘The Ghost of Tom Joad’.
O Tom Joad da canção é a personagem do livro de John Steinbeck, “Vinhas da Ira”, sobre a migração de uma desesperada família do Oklahoma durante a grande depressão. O livro inspirou rapidamente o filme de John Ford, “Vinhas da Ira”. O filme de 1940 é bem mais esperançoso do que o dramático livro de 1939. Henry Fonda encarna no filme a personagem do anti-herói Tom Joad.
Se PJ Harvey viajou no espaço e Bruce Springsteen viajou no tempo, Grandmaster Flash e os Furious Five ficaram encurralados num subúrbio miserável de Nova Iorque, com ratazanas em casa e rufias na esquina. É assim o tema de 1982, ‘The Message’, que modelou o hip hop mais social.
Não foi preciso saírem de casa para verem a miséria em The Message. Bastava acenar à janela. Já Xullaji viu muitas janelas com o lema da pandemia “Vamos ficar todos bem!”. Mas Xullaji, no seu projeto Prétu, pergunta ‘Todos Quem’.
Enquanto muitos de nós desenhavam as cores do arco-íris na frase “vamos ficar todos bem”, Xullaji olhou para o mundo e viu-o muito cinzento, dividido por um muro entre norte e sul, entre riqueza e pobreza. “Todos os fins-de-semanas, as pessoas vão a um centro comercial comprar uma t-shirt nova numa loja qualquer, ou vão comprar um gadget eletrónico; ou procuram um novo carro elétrico. As pessoas supostamente progressistas vão comer o seu abacate e bebem o seu café “rooasted” de não sei onde. E essas matérias vêm de onde? Vêm de uma série de lugares transformados em não-lugares, transformados em não-Estados, para que essa exploração se possa eternizar nesse chão, nesses lugares, nessas terras”. Xullaji dá o exemplo de um país africano esvaziado. “O Congo [antigo Zaire] já estava a ser rebentado por causa do coltan, que serve os microprocessadores mais rápidos. Foi com isso que conseguimos criar telemóveis mais pequenos e microprocessadores mais rápidos. Agora, com este capitalismo verde, [o Congo] ainda se vai esburacar mais, porque é um dos sítios de maior concentração do cobalto”.
Foi durante a pandemia que surgiu o projeto de intervenção de Luís Varatojo, Luta Livre. Discorrendo em várias temáticas, o ex-membro dos Peste & Sida e da Naifa vê uma classe média a afundar-se na pobreza no tema de 2023, ‘Panela de Pressão’.
‘Panela de Pressão’ apita contestação no segundo álbum da Luta Livre, “Defesa Pessoal”. Luís Varatojo prefere agora uma linguagem mais direta. “Tenho muitas músicas em que abordo os temas com metáforas, um certo humor e mensagens subliminares escondidas nas letras. No caso da Luta Livre, essas mensagens são declaradas e explícitas. Tenho mesmo a intenção de chamar os bois pelos nomes. Achei que estava na altura de comunicar com uma linguagem mais explícita. Aliás, tenho sentido que há certos temas que não passam da rádio por causa desse prurido. Eu falo em palavras como trabalhadores, sindicatos, ou a ‘crise aumenta, o povo não aguenta’. É panfletário? É! Mas era preciso fazer isso e apeteceu-me fazê-lo. Estava na altura de largar as metáforas. Pelo menos, nestes dois discos”.
Por falar em trabalhadores e em sindicatos, houve um músico inglês que tem feito da defesa da working class todo um percurso musical, estou a falar de Billy Bragg. As longas greves de mineiros em meados dos anos 80 na Grã-Bretanha, contra o liberalismo económico da primeira-ministro Margaret Thatcher, mobilizou Billy Bragg a pegar num hino da folk americana, ‘Which Side Are You On?’.
A música dos Pogues, ‘Fairytale Of New York’, que junta as vozes do rebelde carismático Shane MacGowan com a da luminosa Kirsty MacColl, é muito mais do que uma música de Natal. É uma deriva entre sonho e realidade de um casal de imigrantes irlandeses em Nova Iorque. A dimensão sonhadora e glamourosa ao som swingante de Frank Sinatra pela Broadway fora tem como outra face a miséria de um buraco pardacento onde os dois sem-abrigo se insultam. Vivem entre o Natal que sonham e mais um Natal com o sonho desfeito. A deriva entre extremos tem como fonte a embriaguez, embalada pela nostalgia pela sua Irlanda e pelas memórias das músicas folk da sua terra verdejante. Nessa deriva, dança-se uma valsa. Os dois ligar-se-ão para sempre. “I've built my dreams around you”, canta Shane MacGowan para Kirsty MacColl. Nesta balança da vida, o amor pesa mais.
Tal como Shane MacGowan, o vocalista dos Primal Scream, Bobby Gillespie, trata os sem-abrigos como seus irmãos. O cantor escocês observa em ‘Innocent Money’ as pessoas que ninguém quer ver: os desgraçados heroinómanos. Por trás do lustro decadente do que resta do Império Britânico, Bobby Gillespie puxa para primeiro plano os desfavorecidos que deambulam pelas ruas, no álbum mais recente e ativista dos Primal Scream, o impressionante “Come Ahead”, uma crítica dura ao constraste social dos tempos de hoje.
