Na casa do Tiago Bettencourt, no seu bairro, no seu mundo
Músico circulou pela sua vida no Coliseu dos Recreios. Paulo Gonzo e Sara Correia foram os convidados.
Nesta noite de quarta-feira, o Coliseu voltou a escrever-se ColisEU. Tiago Bettencourt apresentou-se na primeira pessoa, voltando a dar voltas à sua vida na sua sala habitual de dezembro, o Coliseu dos Recreios, em Lisboa. O músico deu a vida por este concerto. Isto é, fez deste espetáculo o filme da sua vida, numa ordem cronológica que raramente foi atraiçoada.
O conceito tem anos, mas Tiago Bettencourt evita a repetição e a sensação de um musical de si mesmo em cena há muitos anos. Mudam-se os intervenientes - desta vez não houve orquestra -, surgem outros convidados, alteram-se as versões e multiplicam-se os escritores voluntários da sua página de Wikipédia. Já se sabia que tinha nascido em Coimbra mas crescido na linha de Cascais e que a mãe era professora, mas Tiago deixou mais indicações biográficas neste concerto que podem ser acrescentadas no Wiki: o pai é um homem de direito que se ligou à cultura e que se deu com a malta da política. Aguardam-se atualizações, até porque o texto sobre o guitarrista ainda está pouco encorpado.
Às voltas pela sua vida na arena circular ao centro da sala redonda, Tiago Bettencourt usou um daqueles microfones headset que os conferencistas gostam de usar. Aos poucos, a arena foi sendo mobillada pelos objetos da sua vida, da escrivaninha às torres de CDs.
A meia-hora inicial foi em modo solitário. Tiago Bettencourt entrou com toda a sua alma, a percutir sobre si mesmo, num solo vocal de “Partimos a Pedra”, mais perfurante que somente o ato de partir a loiça. Depois, o músico foi um livro autobiográfico aberto sobre as suas venturas e desventuras, de infância e de adolescência, até pegar numa guitarrinha que parecia um cavaquinho com um pouco mais de caparro, a cantar a balada universal dos Led Zeppelin, 'Stairway to Heaven', e o tema 'Chamar a Música' com que Sara Tavares ganhou o Festival da Canção em 1994. A auto-novela prosseguiu nos episódios seguintes, com Tiago a voar de amores p’a Nair, mas aterrado na sua timidez. Se estava lá a foto da Nair, não sabemos, mas a capa operária do álbum de Bruce Springsteen, "Born In The USA", reconhecemos logo e estava também lá a decorar o Coliseu.
A era das camisas de flanela do grunge dos anos 90 apanhou o adolescente Tiago que no seu quarto só "queria ser o Eddie Vedder dos Pearl Jam, o Scott Weiland dos Stone Temple Pilots, e o Kurt Cobain dos Nirvana", disse ele. No Coliseu, Tiago Bettencourt foi o Kurt Cobain, cantando sobre uma cama, com a guitarra acústica e alguns trambolhões na letra de 'Lithium' que até calharam bem, mesmo que tenham sido acidentais, porque a vida é muito feita de tropeções.
Depois, vieram os amigos da igreja. A primeira namorada aos 17 anos convidou-o para o coro dos Salesianos. E foi com um coro sentado nos sofás que cantou uma música em latim ligada à fé cristã. Quando Tiago lembrou as férias em Porto Côvo, em que se cantava junto às fogueiras na praia, começa a fumegar na arena uma réplica de lenha a arder. O músico lembrou as músicas portuguesas que ele e os amigos tocavam. Quando começa a interpretar 'Jardins Proibidos', irrompe na sala o vulto vocal de Paulo Gonzo, cuja sombra se podia ver atrás da cortina do palco.
Cenas seguintes: Tiago Bettencourt recorda quando começou a frequentar casas de fado, como se fosse um curso de poesia. Evoca as casas de fim de noite de Lisboa e o fadista Alcindo de Carvalho. antes de começar a cantar o fado "Saudades não as quero", sentado à guitarra a uma mesa de tasca, com cadeirinhas a condizer, numa interpretação mais trovadoresca que fadista, ao estilo do músico do Estoril.
Fala-se também do professor fixe de liceu que dava boas recomendações musicais ao aluno de headphones Tiago e no único curso superior de artes que a sua família conservadora aceitaria: a arquitetura. O músico lembra também as idas à praia com o colega e amigo Pedro Puppe, sempre com as mesmas duas cassetes no carro, de Manu Chao e o disco de Jorge Palma, "Só". É o tema 'Só' que Tiago Bettencourt começa a interpretar, às voltas pela arena circular.
Pedro Puppe desafia-o a formar uma banda e a escrever canções, recorda ele. E daí, começa a ouvir-se uma bateria a ensaiar. Começa a vida boémia e alternativa por Lisboa, diz ele. Os recantos mais sombrios de que fala já não são os "recantos" de 'Jardins Proibidos' do Paulo Gonzo, dizemos nós.
A tabela cronológica de Tiago Bettencourt continua a girar. E nisto, já vamos em 2002-03, quando se formam os Toranja. É aí que passamos a ouvir a banda sombra de Tiago Bettencourt a tocar por trás da cortina. Ouvimos 'Fome (Nesse Sempre)', um dos temas que revelaram os Toranja. Já Tiago Bettencourt andava a ouvir os mestres cancioneiros: Tom Waits, David Bowie, Bob Dylan Neil Young. Entretanto, os Toranja foram a concursos de bandas novas (que ainda havia na altura) e tocaram no Garage, com dez amigos em palco. A gravação de um disco foi guardada em pousio, diz-nos ele.
O primeiro álbum dos Toranja, "Esquissos", sai em 2003 quando Tiago Bettencourt conclui o curso de arquitetura. Mas Tiago nunca se esquece dos enquadramentos paralelos: surgiram os iPods, as festas universitárias abundavam e foram palco para os Toranja,
Tiago Bettencourt senta-se depois a um piano vertical para cantar 'Carta', com os seus versos densos em palavras que têm que ser cantados velozmente e que o caricaturaram em tempos já remotos. Seguem-se as farpas à "imprensa intelectual" que considera ter embirrado com os Toranja. "Estávamos proibidos a sermos cool por sermos de Cascais, mas os fãs, sempre mais inteligentes, acharam-nos cool”, desabafa Tiago Bettencourt, ainda mal refeito de polémicas antigas.
Depois, Tiago Bettencourt fala-nos do "Segundo" álbum dos Toranja. “Era um álbum mais sombrio e tristonho para agradar à imprensa mais alternativa”, lê Tiago Bettencourt, a partir das suas anotações. Embalado pela ira, Tiago Bettencourt atira-se às teclas do piano com as mãos mais pesadas para cantar com assertividade 'Laços'.
Tiago Bettencourt era um solitário na sua própria banda, ele era o tipo do Estoril num grupo de amigos de infância de Algés. Diante do desafio pelo resto dos Toranja em alterar o método de composição, Tiago Bettencourt, para não perder a liberdade criativa, seguiu rumo a solo - o enredo prossegue. Foi à procura de músicos e formou um power trio com o baterista e amigo João Lencastree, um baixista “cheio de pinta” como o Pedro Gonçalves (dos Dead Combo). Tiago Bettencourt saiu da arena, subiu a palco e a cortina ainda em baixo fez transparecer a banda. O músico deu a voz à 'Canção Simples', "uma sátira aos temas azeiteiros" de então. As pessoas sentadas nos sofás viram-se para o palco do Coliseu e tornam-se nas filas da frente.
Devemos andar por volta de 2007, e Tiago Bettencourt conta a sua memória de sentir que estava a ganhar um público mais interessado em todo o seu repertório e não apenas no tema mais conhecido dos Toranja, 'Carta'. As luzes de palco vão faiscando mais, a guitarra está mais rasgadinha, a bateria mais artilhada, num indie rock com aquele travo romântico à Bettencourt. Vêm depois mais contextualizações da vida e de tudo à sua volta: em 2008 surgiram as plataformas do MySpace e do YouTube e as experiências de estúdio no Canadá, lê ele. Fala-se das saídas e entradas na banda, sempre com o fiel João Lencastre a resolver tudo e a descobrir novas pessoas para a banda de Bettencourt.
Vira-se mais uma página no guião. Acontece depois o segundo álbum "Em Fuga", quando Tiago Bettencourt ouvia Fleet Foxes, Bon Iver e Arcade Fire. Arranha-se um tema de Bon Iver, ‘Flume’, e salta-se para o seu 'Caminho de Voltar', tocado em equilibrismo sobre a divisória circular da arena. “Só Mais uma Volta”, canta Tiago Bettencourt, regressado ao palco convencional. É nesse palco que toca a versão de António Variações de “Canção de Engate”, metamorfoseada ao seu estilo.
Vindo do fado, Diogo Clemente surge na arena, com uma roupa de ganga bem diferente dos seus habituais fatos, tocando a sua guitarra de frente para Tiago, com dois sentados em cima do tapete, como se estivessem em casa, no tema ‘O Lugar’.
A história da vida de Tiago não está nada maçadora. O homem prossegue. Em 2014, gravou 'Do Princípio', já por si produzido. Passou a usar sintetizadores, numa altura que ouvia James Blake. Mas os sintetizadores colocados na arena pregaram-lhe uma partida. “Está estragado”, com as teclas enguiçadas. Perante a avaria da máquina, recorreu à sua valia humana. Tiago Bettencourt teve que improvisar e cantar 'Sara', tocando guitarra acústica.
Após mais um levantamento de entradas e saídas no seio da sua banda de apoio, abre-se a cortina e surge a formação atual diantes dos nossos olhos, com Tiago a cantar um dos temas do seu último álbum “Rumo ao Eclipse”, incluindo ‘Trégua’. Tiago volta à arena e a mais conversas sobre fado e desta vez sobre rebeldia. Do nada, eis que surge a fadista Sara Correia, qual aparição, no meio da bancada removível junto à arena, a cantar, acompanhada pelo andarilho Tiago à guitarra.
O encore é a glória final de um espetáculo de três horas completíssimo. Paulo Gonzo já não é só uma sombra e aparece em carne e osso na arena circular, de frente para Tiago Bettencourt e para os seus quatro músicos, para uma rockalhada que mereceu as luzes todas da sala ligadas, como se tivesse surgido o sol de repente. Segue-se o momento musical mais alto de todos 'Essa Morena' a levantar toda a bancada, com a banda bem vivaça.
Mas o momento mais surpreendente foi quando Tiago Bettencourt fez uma auto-critica a este conceito de espetáculo, de exposição da sua pessoa. “Vocês vieram pelas minhas músicas nas vossas vidas”, “não interessa para nada a minha vida”, idealizou Tiago Bettencourt. Teria tido ainda mais graça se a história que contou ao longo de três horas tivesse sido uma encenação fictícia que só iriamos descobrir no final - um outro Tiago, imaginemos, nascido em Angola e crescido em Santarém, com um passado mais turbulento.
Tudo o que contou soou a verdadeiro, menos que tenha sido “um concerto sem ensaio”. Não esteve a mentir, mas parecia, tão completo e envolvente foi o espetáculo, que mereceu a sala cheia que teve.
