"Não é uma crise migratória, é um ataque híbrido." O que se passou em Ceuta?
O especialista em relações internacionais, Marcos Farias Ferreira, considera que houve uma instrumentalização dos migrantes e lamenta a "grande desunião" na UE.
Os ministros da Administra Interna da União Europeia (UE) vão reunir-se hoje de emergência para discutir a situação migratória em Ceuta. O encontro acontece poucos dias depois de milhares de pessoas terem entrado de forma ilegal no enclave espanhol, no norte de África.
Para o especialista em relações internacionais, Marcos Farias Ferreira, houve uma instrumentalização dos migrantes, naquilo que considera ser um "ataque híbrido", com interesses geopolíticos e a influência dos EUA.
Quanto à reunião europeia desta terça-feira, que arranca pelas 9h00 por vídeoconferência, o especialista prevê que seja "muito tensa", perante uma "grande desunião" com várias agendas em cima da mesa.
"Quando o primeiro-ministro espanhol diz que foi uma violação da integridade territorial da Espanha, está claramente a colocar-se em choque com os governos europeus que veem isto como uma crise migratória e, portanto, querem impor este significado para justificar decisões políticas, como por exemplo, o endurecimento de políticas migratórias, o endurecimento da Frontex, transformar a Frontex numa polícia, tipo a ICE nos Estados Unidos. Tem aqui várias agendas que vão estar presentes na reunião dos ministros da Administração Interna", explica.
Ao mesmo tempo, a Comissão Europeia vai tentar curar as fraturas que foram abertas nos últimos dias entre os estados membros da UE: "a Comissão Europeia vai procurar limar essas diferenças, vai procurar dar um sinal de união, de recuperação, de solidariedade. Vamos certamente assistir a declarações e a comunicados finais que evitem mostrar essa desunião ou que procurem curar as fraturas que foram abertas durante este fim de semana."
A "posição bastante digna" do Governo português
"Em primeiro lugar, mostrou solidariedade com o governo espanhol, que era a primeira coisa que todos os governos europeus deviam fazer. E essas medidas de reforço de fronteiras (...) são sobretudo uma resposta ao desafio que forças trumpistas e de extrema-direita colocam em todos os países, porque se aproveitam do caos, das imagens de caos, das notícias falsas e da percepção de perigo, que é lançada para a sociedade. E, portanto, é uma forma de dar resposta, de tentar conter essas percepções de perigo imediato, perigo iminente, que muitas forças procuraram e continuam a procurar lançar na sociedade."
Instrumentalização dos migrantes num interesse geopolítico?
A entrada de milhares de pessoas em pouco tempo "não acontece espontaneamente. Não acontece em lado nenhum espontaneamente que cem mil pessoas sejam mobilizadas, para além obviamente das evidências que durante estes dias foram surgindo de utilização dessas pessoas que foram levadas por camiões, que foram mobilizadas nas redes sociais, e sobretudo num país (Marrocos) que é o principal aliado dos Estados Unidos no norte da África, que é o principal aliado de Israel, que se aproximou de Israel, assinando os acordos de Abraão e que tem uma disputa territorial com Espanha, não só no Sahara Ocidental, mas também sobretudo em Ceuta e Melilha, uma pretensão que os Estados Unidos apoiam e que continuam a financiar".
Por isso, adianta Marcos Farias Ferreira, "há aqui uma ligação clara dos interesses geopolíticos dos Estados Unidos, numa zona geopolítica crítica, que é o estreito de Gibraltar, porque Ceuta controla o Estreito de Gibraltar."
E neste capítulo, há "claras implicações no abastecimento de gás", diz o especialista que recorda que "o presidente do governo espanhol tinha acabado de chegar de Argélia, onde negociou recursos energéticos."
"Ataque híbrido" para fragilizar Governo espanhol
Perante as relações tensas entre Marrocos e a Argélia, o especialista considera "muito plausível" que a entrada em massa de migrantes faça "parte de um plano de um ataque híbrido para vulnerabilizar o governo espanhol, quiçá para provocar a própria queda do governo, que obviamente está muito fragilizado por uma série de questões internas, que está a perder apoio interno e que, portanto, pode claramente com choques deste tipo deixar de ter condições para governar em Espanha."
Influência do EUA?
"Trump e Israel têm ameaçado diretamente o governo espanhol nos últimos meses por causa das posições em Gaza, sobre Gaza, posições sobre a guerra, a guerra do Irão, Está lá tudo, está a motivação, está o interesse, estão decisões dos últimos meses. Portanto, eu não tenho a mínima dúvida que, perante todos os indícios que têm surgido, não é uma crise migratória, é um ataque híbrido. Não tenho a mínima dúvida."
Situação em Ceuta ainda não está sob controlo
"A grande questão é que esta é uma circunstância que pode repetir-se. (...) Neste momento, concerteza que desapareceram algumas das circunstâncias que provocaram. Desapareceram as contas fantasma nas redes sociais que chamaram à entrada das pessoas que diziam que a fronteira estava aberta. Desapareceu talvez o instrumento que instigou a chegada destas pessoas, mas o potencial para que circunstâncias destas se voltem a repetir está lá, continua".
Tragédia humanitária
"Quase 90 pessoas faleceram e é preciso também sublinhar que isto é uma catástrofe humanitária. Quando perto de 90 pessoas morrem no mar ou em terra em virtude disto, é preciso também dizer que há uma dimensão humanitária, que não podemos esquecer."
De acordo com as estimativas do Governo espanhol e do executivo da cidade autónoma, entre 50 mil e 60 mil pessoas entraram na semana passada em Ceuta, a maioria regressou entretanto a Marrocos. Pelo menos 88 pessoas morreram afogadas durante a travessia e mais de mil tiveram de receber assistência médica.
