NAPA: "a mensagem de 'Deslocado' é transversal a vários lugares e gerações"

Entrevista à banda madeirense que vai representar Portugal na Eurovisão em maio.

Antes Men On The Couch agora NAPA. São eles Francisco Sousa (guitarra), João Guilherme Gomes (voz e guitarra), João Rodrigues (bateria), Diogo Góis (baixo) e João Lourenço Gomes (piano) .  

A banda, que há mais de dez anos ganhou forma numa cave na Ilha da Madeira, vai representar Portugal na 69.ª edição da Eurovisão em maio. O grupo leva a canção 'Deslocado' ao palco eurovisivo que este ano vai ser montado em Basileia, na Suíça. As semifinais para 13 e 15 de maio e a final para 17 de maio. Portugal atua na primeira semifinal.

Os NAPA editaram o primeiro álbum - "Senso Comum" - em 2019. O disco de estreia, gravado nos Black Sheep Studios em Sintra, guarda temas como 'Se Eu Morresse Amanhã', 'Senso Comum', 'Na Lua' ou 'Areia'. Em 2023, treze anos após terem formado o grupo, editaram "Logo Se Vê", registo composto por 11 faixas, uma das quais com a cantora Beatriz Pessoa. 

Em 2024, os NAPA andaram em digressão pelos caminhos de Portugal e esgotaram duas noites no Teatro Maria Matos, em Lisboa. Os dois espetáculos na sala lisboeta resultaram no filme-concerto "O Mundo Continua a Girar", editado no ano passado e disponível na plataforma YouTube. 

Aproveitámos a passagem dos NAPA pelos estúdios da rádio para trocar algumas impressões sobre a experiência do grupo nas andanças eurovisivas e não só.  

Oiça aqui a entrevista


O que é que vos levou a participar no Festival da Canção?

Guilherme Gomes: Na verdade, desta vez fomos convidados pela organização, mas no ano passado concorremos através do processo de submissão livre. Não conseguimos há um ano, mas neste fomos convidados. Ficámos muito felizes. É uma forma de mostrar a nossa música a um público maior. Antes [da exposição do festival] éramos mais conhecidos dentro de um nicho. Não tínhamos um alcance tão mainstream. Pelos vistos, foi uma decisão acertada. Houve muita gente que se identificou com a canção. Estamos muito contentes com isso. 

Acho que 'Deslocado' é daquelas canções que ficam connosco. Quando menos esperamos começamos a cantarolá-la. Pelo menos, é o que me acontece. Sentem que a vossa canção tem um efeito transversal? Acham que tem chegado a várias gerações, por exemplo? Sei que entre as vossas influências estão bandas que já andam por cá há muitos anos...

GG: Sim. Gostamos de ouvir um bocadinho de tudo. Muito da nossa base vem do rock dos anos sessenta e setenta. Falo dos Beatles, Rolling Stones, The Doors e por aí. Esta música tem algo desse tempo, mas, como já nascemos noutra "era", também tem outras influências. Talvez seja transversal por isso. Por concentrar todas essas influências.   

Mesmo antes do Festival da Canção, 'Deslocado' já tinha viralizado no TikTok, certo? O tema inspirou os utilizadores da plataforma a criar vídeos com as respetivas experiências pessoais. Presumo que para vocês seja gratificante escrever algo que suscita tanta identificação...  

GG: Sim, sim.   

João Rodrigues: A música saiu em janeiro. E nessa altura tínhamos pensado em fazer vídeos do género. Só que antes de começarmos a fazer os nossos vídeos já havia malta a fazê-los. Já havia pessoas a reunir imagens daquilo que consideram ser "casa" e a usar a nossa canção como banda sonora. Foi muito gratificante ver isso a acontecer, porque percebemos que a mensagem estava a chegar às pessoas da maneira certa. Percebemos que não era uma mensagem exclusivamente madeirense. É uma mensagem transversal a vários lugares e gerações. É sobre algo que muitos portugueses sentem. Portugal é um país de emigrantes. Foi giro perceber que toda a gente tem um primo que emigrou, um filho que fez Erasmus ou um tio que regressa da Bélgica no próximo ano. 

@florasantossilva Essa música é tão maravilhosa #deslocado #napa #portugal ? Napa Deslocado - Clarinha

E a canção também está a chegar a pessoas que vivem fora de Portugal e não são portuguesas. Já tiveram oportunidade de espreitar os vídeos dos aficionados da Eurovisão a reagir à vossa canção?

GG: Sim. Já vimos alguns. Até ganharmos o festival estávamos a ter um feedback bastante positivo mas depois de vencermos vimos o outro lado da moeda. Partiu sobretudo de quem não queria que fôssemos nós a vencer. Mas no geral o feedback tem sido muito positivo e até vindo de pessoas que não entendem português. Gostam do som da música e do som das palavras. Muitas têm a curiosidade de ir ver o significado da letra e quando o fazem descobrem que a canção tem mais camadas do que aquilo que imaginavam. Começámos a banda há algum tempo mas a notoriedade que tínhamos estava muito concentrada num nicho, tal como disse há pouco. De repente, há pessoas em toda a Europa a ouvir e a gostar da nossa canção. Quando escrevi este tema essa possibilidade não me passava pela cabeça.

As reações à canção vencedora do Festival da Canção costumam ser intensas. Como é que uma banda gere as críticas menos positivas?

GG: Fomos aprendendo a gerir.

JR: O primeiro passo foi ignorar. 

GG: Ou tentar ignorar. 

João Lourenço: Houve muitas pessoas que gostaram da nossa canção, mas, quando estamos neste nível de exposição, há sempre uma percentagem de pessoas que não gostam. Se calhar, essa percentagem fala mais alto. Talvez o ódio chame mais a atenção e as opiniões positivas passem mais despercebidas. 

JR: Quem gosta talvez não vá logo comentar nas redes sociais. 

GG: Acho que o facto de sermos uma banda ajudou a que fosse mais fácil absorver os comentários menos positivos. Não caiu apenas em cima de uma pessoa. Se tivéssemos de processar individualmente essas reações, talvez tivesse sido mais difícil. Mas não. Vamos falando entre nós. Juntos tentamos perceber como navegar essas ondas.

JR: Outra coisa importante é que temos a capacidade de rir das coisas. (risos)

JL: Há coisas tão ridículas que chegam a ter piada. Por exemplo, houve um texto enorme e até um pouco descabido que nos fez rir muito.    

O guitarrista dos Ziferblat, os representantes da Ucrânia, fez uma versão da vossa canção, sendo que quando a partilhou nas redes sociais escreveu algo como: "Portugal nunca desilude nas escolhas para a Eurovisão". Como é que se sentem ao ver representantes de outros países a recriar o vosso tema?

GG: É mais uma coisa que nunca imaginámos que pudesse acontecer quando escrevemos a canção. Mas é muito gratificante. É uma pessoa que não fala a nossa língua e de repente arranha um português perfeito a cantar a nossa canção. É muito fixe. 

JR: Se reduzirmos ao mais básico de tudo, é um bacano da Ucrânia a cantar a nossa música. É incrível. (risos)

@ziferblat_band @NapaNapa ? ???????????? ???? - Ziferblat

Como é que se estão a preparar para a Eurovisão?

JR: Estamos muito focados na performance. É algo que nos vai tirar muito tempo e muito sono. (risos) E isso faz parte da experiência. É muito giro. Para nós funciona como gasolina. A outro nível, e falando agora das redes sociais, estamos a tentar arranjar uma forma de traduzir a mensagem sem necessariamente cantar a canção em inglês. Queremos perceber como é que podemos levar a mensagem ao maior número de pessoas na Europa. A mensagem é portuguesa mas também é europeia. O livre trânsito na Europa ajuda a que seja mais fácil ir estudar ou trabalhar para outros países europeus. E a verdade é que, por mais que as condições de vida possam ser melhores, os outros países nunca serão "casa". É essa a nossa mensagem.    

GG: Como nós sentimos, há milhões de pessoas na Europa que sentem o mesmo. O desafio agora é esse. Como a letra concentra grande parte da força da canção, queremos que as pessoas que não falam português entendam a mensagem. Já temos algumas ideias que queremos levar para a frente. Gostaríamos que todos entendessem a força da canção. Estamos também focados na performance e queremos aproveitar a experiência da melhor maneira. É uma experiência que dificilmente vamos repetir.        

E como é que a Madeira reagiu à vossa vitória?

GG: Foi incrível. Até tivemos um louvor da Câmara do Funchal. Não estávamos nada à espera. Ainda não fomos lá desde que ganhámos o festival. Mas tem sido avassalador. Quase toda a gente que conhecemos, direta ou indiretamente, deu-nos os parabéns. Os nossos pais, que vivem lá, dizem-nos que toda a gente fala da nossa vitória. É quase como se fosse a seleção. (risos) 

JR: Apesar de ser uma canção que pode ser transversal a Portugal inteiro, a Madeira olha para nós como uns filhinhos. Somos os filhinhos que conseguiram fazer uma coisa fixe.             

JLG: Sentem orgulho.

JR: É o orgulho madeirense. 

GG: Os madeirenses têm uma ligação muito forte à ilha. Quando alguém sai e consegue vingar lá fora, a ilha junta-se e sente que é uma vitória de todos. Acontece com o Cristiano Ronaldo mas também com os vencedores do Festival da Canção. Somos os quartos madeirenses a vencer o festival. A vitória já tinha sido do Sérgio Borges [em 1970], da Vânia Fernandes [2008] e da Elisa [2020].  

Costumam seguir o Festival da Canção?

JLG: Eu seguia. Os meus pais têm o hábito de ver. Juntamo-nos para ver e para dar opinião sobre as canções. No fundo, fazemos de júri em casa.  

Já estão a pensar no que vem a seguir à experiência da Eurovisão?

GG: Já estamos a pensar no próximo disco. As músicas já estão compostas. Falta ir para estúdio, gravar, organizar o álbum, escolher as melhores canções e por aí. Já temos música pronta para lançar logo após a Eurovisão. E estamos muito entusiasmados com isso. Não queremos que a nossa carreira musical fique só pelo ‘Deslocado’. Acho que temos canções fortes o suficiente para aguentar o hype. Ou pelo menos acreditamos nisso. (risos)     

JR: Esta exposição permite-nos dar muitos concertos por cá. E isso é muito importante para nós. Gostamos imenso de ir tocar para o meio do nada. (risos) É sempre giro. 

JR: Quem gosta do 'Deslocado' acho que vai gostar do resto da nossa música. Temos dois álbuns. Podem ouvi-los. 

O 'Deslocado' tem puxado muita gente para os discos, presumo. 

GG: Sim. É outra grande vantagem. Há muita gente que nos descobriu agora. Acredito que haja gente que acaba por ouvir a nossa discografia, toda ou parte dela. 

E o tema liderou a tabela de singles em Portugal, continua no top 5 da contagem nacional e esteve nos tops Daily Viral Songs Portugal, Luxemburgo e Suíça... 

GG: Sim, sim. E acho que na Lituânia e Finlândia. Isso apanhou-nos de surpresa. Mas acho que pode estar relacionado com as comunidades portuguesas que vivem nesses países, pelo menos na Suíça e Luxemburgo. Além disso, é o poder da Eurovisão que mete a malta toda da Europa a ouvir as canções. 

JR: Mas nós temos plena noção que isso é algo que está a acontecer por causa da Eurovisão. Penso que o próximo álbum não vai viralizar na Finlândia. (risos) 

GG: Sim. Não damos as coisas como garantidas. E também não vamos fazer canções a pensar nisso. Estamos muito entusiasmados por poder mostrar às pessoas novas que nos ouvem o que temos para oferecer no futuro. O próximo álbum tem um potencial grande. Estamos muito contentes com aquilo que já fizemos. Estamos muito entusiasmados para trabalhar nisso. Dá-nos garra para construir um álbum que seja sólido.      

A vossa agenda de concertos para este ano já está a ficar composta? 

GG: Sim, sim. A vitória no festival faz com que mais pessoas nos queiram ver em vários sítios. Estamos muito entusiasmados com a oportunidade. Acho que é raro fazer disto carreira ou vida. E agora temos a oportunidade de fazer isso durante algum tempo. Mas sempre com os pés bem assentes na terra. Pelo menos, tentamos que assim seja. Estamos muito gratos. Não é uma história comum haver bandas da Madeira que conseguem singrar em Portugal. Estamos muito honrados com a oportunidade. Queremos trabalhar para merecê-la.

 Foto tirada na final do Festival da Canção: Lucas Coelho     

Algumas reações à canção portuguesa que encontrámos no YouTube: