Napa: "o sotaque é como um instrumento"

Entrevista à banda sobre o álbum bem madeirense “Semitrópico”, que foi lançado na sexta-feira passada.

Apetece estar naquela capa do novo álbum dos Napa, “Semitrópico”, ir a banhos e bronzearmo-nos naquela plataforma flutuante, na costa madeirense. Agora imaginem aquela plataforma a desamarrar-se e a fazer uma travessia do Atlântico Sul, com uma banda rock lá dentro. Os Napa quase que fizeram isso, mas noutro transporte mais rápido. Agora imaginem que eles vão gravar algumas canções no Brasil – fizeram-no. Agora imaginem que vão colaborar com cantoras bem firmadas como a espanhola Silvia Pérez Cruz e a brasileira Júlia Mestre – fizeram-no. Agora imaginem que gravam canções orquestrais - fizeram-no. Agora imaginem que fazem bluegrass à madeirense com uma tosga de ponchas em cima que tornam as suas cabeças mais velozes que a descida íngreme dos Carrinhos de Cesto da Madeira do Monte – se não o fizeram no tema ‘Vasse Lá Lém’, parece. E agora imaginem que vão fazer uma digressão europeia das grandes – sim, vão fazê-lo em novembro. Os sonhos cabem todos no “Semitrópico”, um verão azul com grandeza beatlesca e recorte microscópico no detalhe.  

“Semitrópico” está fresco e acabado de sair. O formato físico do disco vai azular os escaparates e montras das lojas a partir de novembro. Falámos hoje com os Napa, durante a sua vinda à nossa rádio.

Vocês, como madeirenses, já são semitrópicos por natureza? A Madeira parece-me a região mais brasileira de Portugal.
Sim, é um pouco, o clima madeirense tem essa característica que é clima subtropical, é assim o termo técnico. E nós queremos, temos essa tropicalidade, que nos acompanha no nosso dia-a-dia, e nós queríamos representar um bocadinho isso também nas nossas canções, que acabam por ser um reflexo da nossa vida. E eu acho que essa semitropicalidade não estava bem representada nas músicas que eram feitas.

O álbum já foi pensado para o Brasil ou fez-se lá?
Sim, na verdade, o álbum começou a ser gravado cá. Trouxemos para cá um produtor que trabalhou connosco, o Lucas Nunes, juntamente com o André Santos, que é o outro produtor, que é um amigo nosso madeirense, e juntamo-nos todos cá em Lisboa. E gravámos grande parte do álbum cá, as bases, e quando fomos para o Brasil, foi para gravar o que faltava, sobretudo vozes. Algumas músicas também se transformaram um bocado lá no Brasil. Ainda houve algumas gravações que foram feitas na ilha da Madeira pela Orquestra Clássica da Madeira. Todas as componentes de cordas que foram adicionadas posteriormente ao álbum, foram gravadas na Madeira. Portanto, há mesmo aqui um [triângulo] Lisboa – Brasil - Madeira no álbum.

E até temos um toquezinho de Espanha, através da Silvia Pérez Cruz. E colabora ainda a Júlia Mestre, esta vinda do Brasil. Como é que se dão estas colaborações?
[Os contactos] foram através do Lucas Nunes, o produtor. Eram ideias e sonhos no início, mas acabaram por se tornar realidade. Porque ele tem uma lista de contatos muito, muito extensa e conhece muita gente e nós queríamos colaborar com elas as duas e conseguimos chegar ao contato delas que muito amavelmente aceitaram o convite.

'Vasse Lá Lem' é uma grande algazarra madeirense. Mas percebo bem tudo o que cantam, estão com uma dicção clara.   
O sotaque que está lá é madeirense, se calhar não é tão fechado como quando as pessoas falam, por isso acaba por soar um bocadinho mais claro do que quando uma pessoa está a falar assim normalmente. Tem essa grande ênfase no sotaque madeirense. E nas expressões também. A música está recheada de expressões madeirenses e de uma atmosfera ao estilo de festa, de arraial, como se nós tivéssemos tido backups. E simboliza também o final do disco, é a última música, acaba em festa, com todos a divertirmo-nos lá e a voltar à ilha. Sempre quis fazer uma ode ao sotaque madeirense, mas achava difícil porque é difícil não entrar na caricatura do sotaque quando se força muito. É um bocado complicado fazer essa gestão de uma linha fina entre separar o ridículo do que é mesmo bem feito. Uma vez, eu estava a ouvir uma música dos Estados Unidos, que é o bluegrass. Eu estava a ouvir o Billy Strings, que é um guitarrista e cantor de bluegrass, e ele canta com um sotaque muito carregado do sul. E pensei: se calhar isto funcionava bem com o sotaque da Madeira carregado. E no fundo aquilo é um bluegrass, mas com braguinhas, rajões, brinquinhos e bombos. Ou seja, é assim uma mistura entre Madeira e bluegrass nesse sentido. Acho que funcionou bem. O objetivo era mesmo ser uma ode e não uma caricatura. É também uma grande inspiração o Romeu Bairos, que é um cantor açoriano, que canta com o sotaque açoriano bastante carregado. Eu já o conheci e também ele falou sobre isso, que é difícil. O sotaque é como um instrumento, é preciso saber usá-lo e é preciso fazer várias vezes para aquilo sair bem.

Quem ilustrou a capa e que local é desenhado?
Eu acho que a capa não é de nenhuma zona em específico. Foi o Lucas Benarroch, que foi o designer da capa. Nós demos como tema a Madeira, e aquilo é também a plataforma [flutuante], que está muito presente no centro da capa. E nós dissemos-lhe que passámos a nossa infância na Madeira a dar mergulhos, a ir à praia, e também queríamos trazer para este disco um lado da Madeira que era mais solar, mais tropical, porque a música feita tradicionalmente na Madeira tinha sido muito inspirada na música tradicional portuguesa em geral, e acho que ainda não tinha representado essa tropicalidade. Eu acho que não representa nenhuma praia em específico, mas é como se estivéssemos num cenário tropical na Madeira. Podia ser qualquer praia da costa do Funchal, certamente, mas não é nenhuma praia em específico, era uma representação abstrata.

Vocês vão fazer uma digressão internacional extensa. É uma aventura ou têm um apoio firme bem estruturado para se projetarem?
É um bocadinho dos dois. Nós queremos acreditar que está tudo estruturado e firme, mas é uma aventura, sem dúvida. Há uma espécie de uma ansiedade boa à volta da tour. Acho que vai ser uma experiência para todos, vai ficar para sempre: ter a oportunidade de ir, fazer 11 datas no estrangeiro e visitar sete países de carrinha, com instrumentos na bagageira e tocar as nossas músicas. Acho que é um sonho para muita gente, para nós é certamente, e ter essa oportunidade é algo incrível e, portanto, vamos agarrar com toda a vontade do mundo. Vai haver uma ansiedade inerente ao cansaço, acho que vamos estar 21 dias de seguida. Há uma certa responsabilidade e queremos garantir que o primeiro show e o último show são consistentes e que haja uma certa consistência durante a tour toda. Portanto, vamos com algum juízo. Presumo que vai haver um dia ou outro que vamos aproveitar também para conhecer as cidades, e temos tempo para isso, mas vai ser uma aventura.

Vocês têm mesmo o sonho e a ambição internacional? 
Sim, quando se pensa numa banda de sucesso, há aquela imagem de uma tour bus a andar por aí, com instrumentos às costas a tocar. Para nós, é uma realidade que ainda era mais distante, vindos da Madeira e tendo um avião para apanhar, para vir tocar. Há essa dificuldade e ter agora esta oportunidade, é um sonho. Termos disponibilidade para fazer isso e com público lá fora que quer realmente ouvir as nossas músicas em português, é quase inacreditável. Portanto, vamos agarrar [a oportunidade] com toda a força.