Natália Correia, a mulher que morreu de pé
A vida e obra recordada pela realizadora Rosa Coutinho Cabral.
Natália Correia foi política, ativista, autora e poetisa. Depois do 25 de Abril integra a assembleia da republica, onde protagonizou alguns dos discursos que marcaram a história da democracia.
Convidamos Rosa Coutinho Cabral, realizadora do documentário ficcionado sobre Natália Correia “A Mulher Que Morreu de Pé”, a recordar a escritora.
Natália nasce nos Açores e passa lá os primeiros onze anos. É uma marca que fica com ela ao longo da vida?
Claro que sim. Eu penso que isto acontece quase toda a gente que faz parte de um sítio que tenha uma camada geológica e geográfica particular como é o caso do arquipélago dos Açores, onde está este laço atlântico e arquipelágico açoriano – vulcânico e telúrico. Ninguém consegue ser indiferente a esta vivência com aquela matéria-prima das ilhas. Creio que obviamente Natália também não o foi.
No filme até há uma passagem que refere isso, a ilha a que ela se agarra é sempre a que ela traz consigo na memória, simbolicamente. Porque é uma ilha que, na verdade, ninguém lhe tira. Isso acho que é muito importante. É engraçado que o Herberto Helder diz uma coisa muito semelhante também, que no fundo traduz esta mesma questão, ou que o Vitorino Nemésio também referia como a açorianidade. Há qualquer coisa que fica para sempre, e não é pelo facto de uma pessoa ser mais jovem, ainda quase criança, que isto desaparece.
Até porque Natália saiu com onze anos, mas era, de facto, praticamente uma mulher. É, ela era grande, era uma pessoa com muita maturidade, não era uma criança vulgar. Era bastante culta, muito acompanhada pela mãe. Creio que no caso de Natália Correia, em especial, trata-se de uma mulher criança, com onze anos, que vai dar lugar, se calhar, a uma criança mulher para o resto da vida.
Quando Natália deixa os Açores e vem para Lisboa com a mãe e a irmã, a família tinha-se separado do pai, que partiu para o Brasil. Este abandono do pai é outro traço que se vê na obra de Natália?
Eu creio que sim, talvez onde se vê isso com mais nitidez é num romance que acho muitíssimo interessante e que revela uma Natália Correia, que acho que muita gente não conhece, que visita e revisita. Dá a ver naquela novela um Portugal muito cinzento, que pouca gente conhecia. Uma vontade de ir para fora, justamente para fugir deste Portugal, e uma relação com os homens muito marcada por esse abandono paterno e por uma casa cheia de mulheres, que no fundo foi a casa onde ela cresceu. Cresceu com a avó e com as tias - que ela dizia que eram loucas e possivelmente seriam vagamente - e com a mãe, que era uma pessoa de uma enorme cultura, como já disse.
De facto, este pai é uma marca de abandono que acho que ela se ressente, manifesta aqui e ali, mas como era uma pessoa superior intelectualmente também não fica agarrada a isto para fazer da sua vida uma vitimização. Eu acho que isso é que é o mais interessante. Sim, senhora, ficou sem aquele pai muito cedo. Ele depois volta e têm um brevíssimo encontro e desencontro - até acho que em Lisboa -, mas ele já não lhe interessava como pessoa.
É muito difícil dividirmos a vida e a obra de Natália.
Claro que sim, estou totalmente de acordo. É como se entre o corpo e as palavras existisse uma espessura e uma textura – carne e sangue - naquilo que produz mentalmente que é no fim a sua obra, a sua escrita. É indissociável do seu corpo, naturalmente, é indissociável da sua experiência como pessoa.
Infelizmente, acho que noutros sítios terá maior apreço, mas em Portugal a vida dela foi tão caricaturada e anedotizada, que de alguma maneira, a sua própria obra o foi também. Estou aqui porque fiz um filme sobre Natália, tenho consciência disso, e neste filme eu também digo que ela, de alguma maneira, é sempre um fantasma na cultura portuguesa, porque a cultura portuguesa nunca a reconhece devidamente.
A cultura portuguesa nunca reconhece que esta mulher foi capaz de escrever de uma forma completamente sublime, particularmente contemporânea e moderna, embora as suas grandes referências fossem o barroco, o romantismo e o surrealismo - onde, de alguma maneira, se alimenta com voracidade, porque é uma mulher voraz. Mas também se alimenta do real e intervém no real com a mesma voracidade. A partir do momento em que trabalhei Natália, tive essa sensação de que o contemporâneo - porque ela é de facto uma pessoa que é contemporânea na sua forma de escrever, na sua forma de lutar, na sua forma de viver - dá-nos de alguma maneira aquilo que chamam o kit de sobrevivência do real, o contemporâneo de alguém que escreve, que pinta ou que tenta fazer qualquer coisa para além da sua vida. No caso de Natália, isto é óbvio: escreve de uma forma muito ligada à liberdade da escrita. Não são os temas que me interessam assim tanto em Natália, embora sejam obviamente matéria de análise e de reflexão.
Não sou estudiosa de literatura e certamente não o vou fazer aqui. Há quem o deva fazer, mas não eu. Aquilo que eu vejo ali é uma matéria da liberdade poética. Unamuno dizia uma coisa muito interessante: a poesia ou o traço poético é qualquer coisa que é étnica, porque vem da língua e do convívio, extremo e intenso, que se tem com a língua na sua escrita. Isso é inegavelmente um dos traços maiores de Natália Correia como escritora e poeta. É a sua etnicidade que se revela na forma como usa a linguagem e a língua, como ainda acrescenta os seus idiossincráticos traços de açoriana. Portanto, há aqui uma matéria que ela usa de uma forma completamente livre dos cânones típicos da literatura.
A vida e obra de Natália é marcada, sobretudo, por uma enorme liberdade, completamente. Por uma feroz capacidade de ser militante, ser uma mulher que luta por ideais - mas que luta de uma forma muito afirmativa e sem medo nenhum. Qualquer trabalho sobre ela, no meu caso foi o filme, é sempre um gesto político, porque ela própria, em tudo o que faz, tem este gesto político no real. Nós não agimos sobre o real, nós agimos no real e participamos no real. Portanto, o real não é qualquer coisa que se possa de repente separar. O real é o real, existe sempre.
Natália começa a procura pela liberdade e participação política num tempo em que temos um Portugal muito sombrio.
Natália ainda não tinha vinte anos e já era uma pessoa com uma vida profissional extraordinariamente ativa. Uma vida profissional extremamente perigosa numa ditadura. Trabalhava no jornal e na rádio até cantava com pseudónimo - enquanto defendia propósitos, ideais e uma posição política que era obviamente contra o Estado Novo e contra o regime.
Temos o Estado Novo, a PIDE e o CNI, mas ela em 1944, com 23 anos, já era locutora da Rádio Clube Português. Em 1946 já integra o MUD. Conhece, trabalha e convive com António Sérgio e partilha de alguma maneira do seu socialismo libertário. Em 1947, naquele golpe militar de Abril, ela e a irmã são acusadas de ter feito parte do processo. Em 1948, ela escreve para a Fraternidade Operária de Lisboa. Em 1948, integra uma carta de protesto dos escritores e artistas do MUD. É perseguida pela PIDE, que também lhe violava, para além de tudo, a correspondência. Em 1949, faz uma célebre entrevista a Norton de Matos, que é de uma enorme coragem. Nós estamos a falar, portanto, de uma pessoa que não tem ainda trinta anos. Em 1958, integra a campanha de Humberto Delgado. Isto é um traço rápido, mas que acontece. Estamos a pensar numa rapariga que chega a Lisboa, é levada para o Liceu Filipa de Lencastre e desatina completamente com a forma como ensinam. É provavelmente expulsa e vai acabando o liceu. A verdade é que ela não tem uma formação clássica e, no entanto, dá-se com toda a gente da cultura, da intelectualidade e da chamada inteligência da cidade.
Pouco a pouco, como sabemos, ao longo da vida ela incompatibiliza-se: é abandonada e afastada. Tem muita culpa no cartório, com certeza. Porquê? Por que é uma mulher que tem pelo na venta e que diz tudo o que pensa e, portanto, isto faz com que arranje muitos inimigos. Não vou dizer que todas as posições dela foram as mais justas. Não interessa. Foi a vida dela, não sou nenhum juiz nem nenhuma censura. A sensação que retiro de ter mergulhado intensamente na vida dela é que o caráter revolucionário desta mulher é incrivelmente grande, é enorme, e acompanha-a desde sempre. Não há ninguém que seja revolucionário como ela foi e que não arranje inimigos a cada esquina. É difícil.
Este carácter revolucionário não se perde na revolução, esta vontade da mudança e da liberdade. Dá-se o 25 de Abril e Natália torna-se uma presença ativa na política e integra a Assembleia.
Uma revolução é sempre um ato de ablação. Na vida política dum país corta-se uma parte e este corte tem, na própria vida de Natália, uma enorme importância. Tinha feito nos anos sessenta o Botequim, na Graça. Lá encontravam-se por um lado os intelectuais, mas também uma parte significativa de pessoas que lutavam contra o regime e que tinham uma posição absolutamente antifascista. O percurso de Natália Correia com o 25 de Abril não é linear.
Eu e ela vivemos o 25 de Abril em idades muito diferentes. Ela tinha cerca de 50 anos e eu tinha dezasseis. Portanto, a diferença é muito grande. Eu era completamente ingénua e estava completamente encantada com a revolução e com o que estava a acontecer. Não é que fosse muito politizada, mas fui completamente contaminada e contagiada pela rua, as pessoas transmitiam a enorme felicidade da ditadura ter acabado. Tocou-me imenso como adolescente, quase adulta. O meu lado foi obviamente do lado daqueles que lutavam contra o regime, que lutam contra as ditaduras e que lutavam por uma ideia de justiça social. Ainda hoje sou assim. Com Natália foi precisamente o contrário. Era muito politizada. Viveu com todas essas pessoas que faziam parte do golpe de 25 de Abril e da Revolução. Muitas delas encontravam-se no Botequim, como o Melo Antunes e depois famoso Grupo dos Nove, também fazia parte dos amigos dela. Fez parte das primeiras intervenções agigantadas e das reuniões antes do 25 de Abril. Foi uma pessoa ativa no acolhimento que fez aos capitães e aos intelectuais.
Acontece que depois escreve "Não percas a Rosa" e “Liberdade, a brancura de um relâmpago". Nesse livro, que é absolutamente fantástico, escreve um diário do dia-a-dia desde o 25 de Abril até ao 25 de Novembro, sensivelmente. Ninguém pode dizer que ela não ficou absolutamente em alegria iluminada quando se deu o 25 de Abril. Ela escreve exatamente sobre esse dia e é de uma enorme alegria, de um enorme contentamento, de um enorme reconhecimento àqueles que fizeram o 25 de Abril e que derrubaram o regime - que era obviamente algo que ela, como antifascista, desejava há muito tempo. Depois, o problema dela é com o crescimento da importância do Partido Comunista no processo. Ela tem uma desconfiança, que, por exemplo, na altura eu não tinha de maneira nenhuma. Eu estava completamente extasiada com o que acontecia aqui e ali, mas ela tinha uma consciência do que é que era a União Soviética.
Independentemente de poder estar de acordo ou não com o que Natália escreveu naquele diário, a verdade é que foi de alguma maneira um alerta relativamente àquilo que ainda seriam e estariam por vir de regimes totalitários, como nós temos visto hoje, foi extraordinariamente profética relativamente à questão da comunidade europeia, ao problema das democracias e novamente à possibilidade de se perder o mais alto valor e a maior conquista do vinte e cinco de Abril que, palavras dela, é o Serviço Nacional de Saúde. Dizer, como muita gente às vezes faz, "Ah, mas ela era fascista ou ela ficou fascista", obviamente que não. Ela esteve sempre do lado dessas conquistas, de quem defende estes valores da democracia e está contra as ditaduras.
Confesso que passados estes anos todos e tendo agora mais ou menos a idade que ela tinha quando morreu, sinto que estou totalmente de acordo com ela. Também sou completamente contra todas as ditaduras e acho que a palavra de Natália é super importante atualmente. Quando nós sentimos que o mundo parece que entrou em paranoia, que se esqueceu da Segunda Guerra Mundial e que vira para a extrema direita com uma facilidade inacreditável. Sei que todos nós somos muito mais novos, a Mariana ainda é muito mais nova, não vivimos nada da Segunda Guerra Mundial, mas sabemos o que aconteceu. Ver situações como a que temos visto na América, por exemplo, é incrível. Estou a imaginar o que Natália não diria sobre o que está a acontecer. Quando houve questões como a Praça Tiananmen, os massacres, ela teve sempre a sua voz do lado daqueles que foram reprimidos e oprimidos.
Acho que este é o grande traço da Natália como mulher revolucionária, teve várias causas e foi sempre antifascista, independentemente de ter estado próxima do PSD ou de ter estado como independente na Assembleia, esteve próxima de tudo o que lhe permitiu ter uma voz na Assembleia da República, porque era de facto o propósito dela. Não há discurso mais extraordinário feito na Assembleia da República do que o seu discurso sobre a cultura. É ainda hoje uma pedra angular para quem queira pensar no que é que é a cultura e como é que deve ser a cultura num país democrático, 1ual é que deve ser o papel das mulheres nessa cultura - sem ser que aquele feminismo bacucu. Aliás, ela não era feminista, como sabe, era femininista, uma palavra inventada por ela, que é de alguma maneira uma rutura com as feministas da época, das tais senhoras que queimavam os sutiãs, como ela dizia, nas quais ela não se revia, embora admitisse a importância delas. Só não se revia porque para ela o que era importante era perceber que todo e qualquer ser humano tem um lado feminino e masculino, e que isso é que tem de estar livremente afirmado. O que tem importância é que as pessoas possam afirmar, no fundo, a sua sexualidade ou sensibilidade. Aquele discurso é muito importante. Ela enganou-se totalmente em pensar que as mulheres iam mandar, não mandam nada. Ela também disse que não achava que naquele momento pudessem mandar porque não seria apropriado na época em que o discurso masculino e patriarcal era tão dominante. Mas o que ela diz que é muito mais importante é que a cultura, o sentido político e a democracia dependem da mentalidade, que está na educação. Em traços muito gerais, diz o principal: Portugal é um país onde as pessoas não são educadas, onde são analfabetas politicamente - agora já não são analfabetas como eram no princípio do século, já sabem ler e escrever, mas continuam a não saber exprimir o seu direito de voto porque votam mal, isto é a minha opinião. São perigosamente analfabetas e são perigosamente movidas pelo populismo. O populismo é desde, desde César, um grande problema que o Ocidente conhece. Não posso falar da mesma maneira de Portugal como falaria se tivesse de falar da China, da Índia, da África ou de qualquer outro país que faça parte de uma geopolítica que eu não domino.
Abordamos esta passagem de Natália pelo Parlamento, era uma voz ativa na Assembleia e que não levava respostas para casa?
Ela trabalhava muito, levava trabalho para casa porque Natália era uma enorme estudiosa: tudo o que ela fazia era muito preparado. Não ia fazer aquele discurso sobre cultura sem o ter preparado, mesmo que não lesse, mas sem ter pesquisado sobre o assunto, chegado às suas próprias conclusões a partir da sua pesquisa, nunca o faria. Não estou a dizer que não fosse capaz de improvisar e de falar abertamente, com certeza que era, mas tudo isso era fruto de um trabalho muito grande. Agora, que não levava respostas por dar. Aquele célebre poema sobre o aborto, por causa do Morgado, realmente é um poema muito engraçado que na peça “Colheres de Prata” Joana Seixas diz com muita graça.
Acontecia ali o que acontece ainda hoje. Nós temos uma sociedade portuguesa democrática com cinquenta anos. Temos pessoas que são capazes, ainda, de gritar contra esta sociedade democrática, são capazes de fazer uma enorme confusão entre democracia - que está defendida pela Constituição - e socialismo, comunismo ou seja lá o que for que está partidarizado em determinadas forças políticas portuguesas. Tenho a certeza que Natália, se estivesse na Assembleia seria um trovão, qualquer força política defende os seus princípio e os seus programas, mas não podem excluir o fundamental que se conseguiu depois do 25 de Abril, que é uma Constituição que defende o direito de todos e legitima todos. Um bocadinho como a Hannah Arendt dizia ‘Em primeiro lugar, não gostamos de ser chamados “refugiados”’, estava a falar do fim da Segunda Guerra, mas porquê? Por causa desta nota, às vezes, de desprezo e de facciosismo, que sobretudo a extrema direita tem sobre esse tipo de pessoas que vêm para um país para trabalhar. Tenho a certeza que Natália Correia teria feito um poema também sobre o assunto. Aliás, quem ler a Ode à Paz há uma parte que é incrível: "Os semáforos nucleares andam aí por toda a parte". Ou seja, o perigo espreita por todo o lado. Tenho a certeza que se estivesse à Assembleia iria reagir prontamente a questões como a alteração do direito laboral, as questões com a imigração, os problemas com a saúde. Não deixaria passar em branco, contrariamente ao que muita gente acha de Natália - que ela falava duma maneira tonta e desbragada.
Convido toda a gente a tentar ouvir o tal discurso sobre a cultura, como outras intervenções na Assembleia da República, e perceber que esta mulher, se estivesse viva hoje e na Assembleia, diria coisas fundamentais. Possivelmente, como ela também dizia, não seriam nem da esquerda, porque, no fundo, era uma mulher ao centro. De certa maneira era uma, chamemos, social democrata, no sentido mais original da social democracia. Dizia uma coisa muito curiosa: "Eu às vezes chego mais à direita quando é preciso corrigir os excessos da esquerda, ou então chego mais à esquerda quando é preciso corrigir os excessos da direita."
Defendia o equilíbrio, porque sabia que nós sabemos atualmente, pelo menos tenho essa consciência com a idade, que as tendências radicais e facciosas são muito perigosas. Natália trabalhava sobre o mundo que a rodeava, lutava por um mundo mais justo. Era uma antifascista, uma revolucionária. Lutava pelos direitos das mulheres, de expressão e dos intelectuais e pelos direitos humanos. Nós falamos muito do geral sem medo, que era o Humberto Delgado, mas de facto acho que Natália era uma mulher sem medo. Era uma mulher extraordinariamente corajosa, e por causa disso, morreu extraordinariamente só.
Natália tinha medo da morte ou da solidão?
Acho que não tinha medo nenhum da morte, também não tinha propriamente medo da solidão, embora ela preferisse não estar só. Parecia que adivinhava que fazia um trajeto para uma solidão enorme. Diz muitas vezes que ela é por vezes fêmea, por vezes freira. Por vezes só, por vezes muito acompanhada. Quando morrer ela diz: "Não me deem por morta, não me chorem, não me enterrem." Porque ela sabe que o que ela deixa é muito mais do que a sua morte. São os seus poemas, a sua obra, os seus livros, os seus estudos. É a própria Natália Correia que fica na memória de muita gente como uma referência.
Acho que falar da Natália tem de ser feito de uma forma ética. Nós não podemos falar da Natália para dizer aquela quantidade inenarrável de tolices e anedotas que se disseram sobre ela. A Natália que eu respigo e que vou buscar à memória da cultura portuguesa é uma Natália maior, que eu sempre quis homenagear. Então nos tempos que correm, não homenagear uma mulher que é uma revolucionária, que é uma antifascista, que é uma poeta, é um crime.
O que se fez em Portugal, relativamente à Natália Correia, é um crime, é uma espécie de homicídio. Parece que a mataram em vida, mataram e ela ainda não estava morta. Afastaram-na da sua vida profissional, o que era o mesmo que dizer que não podia propriamente viver, não tinha dinheiro. Deixou o trabalho, deixou de ser convidada, deixou de participar na vida política e ficou, de alguma maneira, prisioneira desta solidão. Esta prisão foi uma morte antes de tempo. Para mim, foi um crime, um homicídio. Mataram-na antes de tempo. Muitos dos que a mataram, foram pessoas que eram antigos amigos, antigos colaboradores e muita gente que comeu à custa dela. Quando era rica, quando tinha dinheiro, quando dava grandes jantares na sua casa. Depois afastaram-se. É difícil olhar pra uma mulher dessas e não sentir uma grande compaixão. Pena, não. Mas compaixão, solidariedade e vontade de a tornar sempre viva.
Foi essa vontade de a tornar sempre viva que a levou a realizar o filme?
Sim, de alguma maneira. É evidente que quando fui fazer o filme e decidi começar a trabalhar sobre Natália, conhecia muito pouco sobre ela, mas desconfiava muito da anedota sobre Natália. Tive a sorte de ter ao pé de mim uma pessoa que é uma grande especialista: Ângela de Almeida sabe imenso sobre Natália e foi a consultora deste filme. A partir daí foi muito fácil entrar neste território. Depois mergulhei completamente no arquivo. A forma como decidi resgatar esta mulher do esquecimento e trazer, de certa maneira, uma justiça sobre ela é o tal gesto ético. Não é só estético a forma como eu decidi pegar na Natália, mas é também a vontade de fazer justiça. Depois decidi fazer casting poético, em que os atores andavam a deambular no filme entre a peça de teatro e o próprio filme, o arquivo que eu andava a escavar para conseguir perceber quem é que era verdadeiramente esta mulher.
A conclusão a que eu cheguei, nesta mulher que acho que está sempre viva. Não se reduz a uma única Natália Correia. Estou convencido que a Mariana tem a sua Natália Correia, eu tenho a minha, a Ângela tem a dela, os espectadores que vão ver o filme ou que foram ver a peça têm inúmeras Natálias Correias e é esta liberdade dessa figurabilidade que anda por aí, sob o nome dela, de facto é encantatória. Não se pode aprisionar um espírito livre como a Natália Correia.
De onde é que surge o título ‘A Mulher Que Morreu de Pé’?
O título ‘A Mulher Que Morreu de Pé’ surge de um texto de outra pessoa que foi muito importante neste filme que é Fernando Dacosta, escreveu ‘O Botequim da Liberdade’, claro que li com muita curiosidade, que era para perceber aquele ambiente de Natália e por isso também escolhi o Botequim para ser o sítio onde fiz o casting, ousado, e ele diz que morreu de pé.
Porque é que diz que ela morre de pé? A certa altura, começou a perceber que ia ficar sozinha. Começou a perceber que não conseguia viver com dignidade, não tinha dinheiro para viver com dignidade. A citar as palavras de Fernando Dacosta, começa a cortar os fios que a prendem à vida, porque queria morrer antes de ser derrotada. No fundo queria ser uma mulher que morreria de pé. Fui buscar a Dacosta, a ideia do título.
Qual foi a maior dificuldade de retratar Natália?
O grande problema que percebi muito concretamente na pele quando fizemos a peça. Foi ao mesmo tempo que o filme, porque era preciso filmar os atores também, e tive a grande sorte de Maria José Duarte, que era presidente do Teatro Micaelense, me convidar para fazer esta peça. A verdade é que depois tentei que a peça fosse para variadíssimos sítios, no contexto ainda do seu centenário. Nem um. A peça foi mostrada no Teatro Micaelense e, em duas sessões, no Baltazar Dias, no Funchal, que é um teatro fantástico. Dizem que há aquela rede de teatros, tudo falso, não funciona. É uma rede de teatros que já está esgotada, ou seja, têm tantos contactos e tantos compromissos que não é possível aceitar coisa nenhuma que venha de fora. É uma crítica que já fiz diversas vezes. Há imensa gente a trabalhar em teatro: atores, encenadores, produtores, técnicos, que veem a sua vida arrastada para o nada e para o vazio. Este vazio é exatamente o não poder mostrar o seu trabalho. Estas colheres de prata, que aparecem no filme, e nunca mais conseguiram mostrá-las em lado nenhum - não é por causa do elenco que, por acaso, tinha atores particularmente conhecidos.
É pura e simplesmente porque ninguém gosta verdadeiramente de Natália Correia. O número de pessoas que verdadeiramente gosta, neste país, é muito pouco porque as pessoas continuam a achar que a Natália Correia é aquela anedota que toda a gente falava, depois do 25 de Abril, que foi também quando começaram a conhecê-la melhor por causa da Assembleia. Na verdade, não há admiração. Por mais esquisito que seja, é por Natália Correia não ser uma mulher formada e, portanto, intelectualmente teve sempre dificuldade. Aquilo é um calcanhar de Aquiles de Natália Correia. Nós percebemos que há muita gente que nunca chega a escrever, nem nunca chega a manifestar o seu apreço ou o seu interesse analítico e crítico sobre Natália Correia.
Não é por acaso que, depois à esquerda e à direita, há sempre este calcanhar de Aquiles. À esquerda acham muitas vezes que depois do 25 de Abril porque teve aquela posição relativamente ao Partido Comunista ou que acham que ela foi uma fascista. À direita acham que continua a ser esta mulher incómoda, anedótica, capaz de ser absolutamente indisciplinada partidariamente. Nunca conseguiu ter aquela disciplina partidária que era necessária na Assembleia. Depois é uma mulher que, na realidade, morre sem dinheiro e que se recusa a receber um apoio, numa altura em que é o próprio general Ramalho Eanes, que continua sempre a ser o grande amigo dela a propor
Acho que ela era uma pessoa de uma enorme integridade, não queria esmolas de ninguém, queria pura e simplesmente poder trabalhar, porque ela era uma mulher trabalhadora. Isto é uma coisa que muito pouca gente fala. Ela trabalhava imenso. Quem teve a oportunidade, como eu, um bocadinho pela mão da Ângela de Almeida, de chegar ao arquivo dela percebe a forma como esta mulher trabalhava. Investigava imenso. Todos os temas que ela fala sobre a cultura ou sobre a história portuguesa, vai até ao princípio da nacionalidade, aos princípios da própria literatura portuguesa, ainda galaico-portuguesa, e depois da literatura medieval, é uma enorme estudiosa. Só que, infelizmente, não era licenciada, creio que isto foi sempre não o calcanhar de Aquiles dela, mas o calcanhar de Aquiles dos outros.
O que é mais importante de recordarmos de Natália Correia hoje?
O mais importante da Natália Correia é mesmo a voz. É recordar que tinha a voz no sentido da possibilidade e capacidade de problematizar, refletir, duvidar, inquietar. Através da sua voz tinha realmente a capacidade de agir no real e, de alguma maneira, acionar o tal kit de sobrevivência que os contemporâneos têm de estar sempre a acionar para se salvar do mundo tão poderosamente perigoso. Ela tinha essa voz.
Esta entrevista faz parte do Podcast 'Revolucionárias' que pode ouvir no site da rádio ou nas plataformas de podcast.
