Nathan Followill dos Kings of Leon: "só de pensar em voltar aos palcos sinto borboletas"
Conversámos com o baterista e um dos irmãos do coletivo de Nashville sobre "When You See Yourself". O novo disco dos Kings of Leon já está cá fora.
Os Kings of Leon estão de volta aos discos. O regresso ao estúdio dos manos e primo Followill resultou no álbum "When You See Yourself" - o oitavo da discografia da banda de Nashville, Tennessee.
Se não houvesse uma pandemia a trocar as voltas ao mundo, o coletivo norte-americano estaria na estrada a promover o novo álbum, mas, com o novo normal a forçar a paragem das digressões, os Kings of Leon estão, como todas as bandas, à espera de luz verde para voltarem ao contacto direto com os fãs.
É neste contexto que conversámos com o baterista Nathan Followill, que tem estado a aproveitar o tempo de espera para assumir a tempo inteiro o papel de pai. No centro da conversa esteve, claro, o disco mais recente que, devido à Covid-19, esteve sensivelmente um ano na gaveta até ser lançado no passado dia 5 de março. "When You See Yourself" foi feito antes da pandemia, mas a verdade é que nem damos conta. É que certas letras têm algo de profético, a começar logo pelo título, proeza que encaixa o novo disco no timing perfeito para chegar às mãos dos fãs.
O novo álbum de Caleb, Nathan, Jared e Matthew Followill foi gravado nos Blackbird Studios, em Nashville, e teve a produção do britânico Markus Dravs (produtor dos Arcade Fire ou Coldplay) que já tinha trabalhado com os Kings of Leon em "Walls", o disco anterior que lançaram em 2016.
Além de editar o disco nos sítios tradicionais, a banda norte-americana deu um passo largo em direção ao futuro. "When You See Yourself" também foi lançado na versão NFT - um ativo digital também conhecido como token não tangível - na plataforma YellowHeart.
Como é que estão a lidar com esta era Covid-19?
Agora sinto que já tivemos alguma margem de tempo para nos habituarmos à ideia, mas no início foi muito confuso. Fizemos o nosso disco em 2019 e era suposto lançá-lo em 2020. Poucas semanas antes de fechar tudo, o primeiro single estava pronto para ser lançado. Nessa altura, e perante o que estava a acontecer, tivemos de ter uma conversa que nunca tínhamos tido. Não podíamos lançar o disco naquela altura. Tivemos de esperar, sem sabermos quanto tempo demoraria essa espera. Foi uma loucura como, aliás, foi para toda a gente. Estávamos a tentar perceber o que era o novo normal e como seria o novo normal no futuro próximo. Havia também a incerteza sobre o tempo que toda a situação iria durar. Afinal de contas, tínhamos composto e gravado um álbum - o normal seria irmos para a estrada para promovê-lo. Foi a primeira vez que tivemos de parar o processo normal de lançamento de um disco. Tivemos de ficar em casa, como toda a gente.
E como tem sido esse tempo passado em casa?
Quando tudo isto começou, foi um pouco estranho, mas acabei por aproveitar o tempo extra para estar com a minha família. Está a ser muito bom. Tenho estado a absorver ao máximo esses momentos em família, porque sei que se isto não estivesse a acontecer, estaria longe deles, em digressão. Essa parte tem sido muito agradável. Estou a dar lições de bateria aos meus filhos, algo que não poderia fazer se estivesse na estrada. Tem sido maravilhoso. O maior desafio agora é dar apoio aos miúdos que estão a ter aulas em casa. Tenho de estar constantemente a tirar o pó às minhas noções de matemática. (risos) Tudo o resto está a acontecer dentro da normalidade possível.
Durante essa espera, que durou sensivelmente um ano, aproveitaram para refletir sobre o disco que tiveram de guardar na gaveta?
Eu estive aproximadamente nove, dez meses sem ouvir o disco. Queria perceber se a sensação que tive nas primeiras audições seria a mesma. Fiquei muito feliz quando percebi que tinha exatamente o mesmo impacto. Quando ouvi o álbum de novo senti que continuava a ser refrescante. Mesmo depois de algum tempo sem o ouvir, senti que o som soava a novo. Não estávamos habituados a estar tanto tempo parados. Como tínhamos tempo, podíamos perfeitamente ter passado o ano a repensar o disco, a refazer algumas partes e a tentar melhorá-lo. Mas decidimos não fazer isso porque sabemos que quando começamos esse processo nunca há um fim à vista. Há sempre qualquer coisa para melhorar e refazer. Fiquei muito surpreendido quando soube que nenhum de nós ouviu o disco durante o período em que estivemos parados. E não o ouvimos exatamente pela mesma razão. Decidimos todos viver com o disco na gaveta durante esse período para depois vermos se o impacto seria o mesmo.
Tenho de perguntar sobre o título porque parece-me muito apropriado a toda esta experiência pandémica. Porquê este título?
O Caleb estava a trabalhar as letras e, a dada altura, eu e o Jared reparámos nessa frase. Achámos que tinha um sentido mais amplo, que ia além das palavras. O mais curioso é que nessa altura não fazíamos ideia do que estava prestes a acontecer no mundo. Agora, quando oiço o disco, acho incrível ouvir algumas letras. Fico espantado, sabendo que foram escritas um ano antes da Covid-19. Podemos facilmente aplicar algumas letras ao que estamos a viver. É incrível como coincidem com esta realidade, mas na altura não fazíamos ideia. A verdade é que ultimamente parece que só nos vemos a nós próprios. Isso acontece literalmente com quem vive sozinho, por exemplo. Temos de usar máscara sempre que saímos de casa. 2020 foi um ano que serviu para nos vermos a nós próprios. Além disso, todos os nossos discos têm cinco sílabas nos títulos. "When You See Yourself" pareceu-nos um excelente título, deixa uma marca e também é composto por cinco sílabas.
Li numa entrevista vossa que "a paz e a sabedoria da meia-idade estão no centro deste disco". É um álbum mais maduro, portanto. Mais sábio?
Ah, sim. É mesmo. Nós éramos muito novos quando começámos, especialmente o Jared e o Matt. Eles cresceram literalmente à frente do mundo. Eram adolescentes quando tudo isto começou. Do lançamento do primeiro disco até à edição deste - que já é o nosso oitavo álbum - é natural que haja crescimento. Há mais maturidade no que somos, na forma como nos comportamos e na música que fazemos. Isso também se reflete na relação que temos como irmãos e na relação com o nosso primo [Matthew]. Agora temos filhos. É uma boa sensação deixar as lutas para os miúdos. (risos) Por outro lado, apesar de estarmos mais velhos, acho que nunca nos sentimos tão jovens a fazer um álbum. Acho que isso deve-se ao facto de termos feito o disco em Nashville. Estávamos em casa. À noite podíamos dormir nas nossas camas e de manhã podíamos tomar o pequeno-almoço com os miúdos. Fizemos o disco ao mesmo tempo que fomos vivendo a nossa vida normal.
A energia que sentem entre vocês está parecida com a energia que sentiam quando começaram?
Sim, sem dúvida. Se olharmos para fotografias nossas a entrar para o estúdio no primeiro disco e depois para fotografias mais recentes, a gravar o oitavo álbum, vemos os mesmos sorrisos rasgados. A única diferença será talvez as rugas e alguns cabelos brancos.
O single 'The Bandit' é um exemplo dessa sensação de juventude?
Sim. Absolutamente. É um dos temas que nos faz sentir no pico da juventude.
Voltaram a trabalhar com o produtor Markus Dravs. Como foi voltar a trabalhar com ele?
Foi incrível. A primeira vez que trabalhámos com o Markus foi no disco anterior ["Walls"]. Nessa altura foi mais difícil porque ele não estava tão familiarizado com a nossa dinâmica que, além de ser uma dinâmica de banda, também é uma dinâmica de família. O Markus teve de entrar nesse ambiente familiar e adaptar-se num curto espaço de tempo. Quando começámos a trabalhar no "Walls" ainda demorou algum tempo até nos conseguirmos decifrar, mas no final ficámos todos a adorar o Markus. É uma excelente pessoa. Quando começámos a trabalhar neste novo álbum foi muito diferente. Já conseguimos encaixar as personalidades, sabíamos como podíamos trabalhar, tínhamos noção daquilo que o Markus podia esperar de nós e vice-versa. Isso teve um papel crucial para que este álbum fosse criado, de uma forma plena, na nossa zona de conforto. Fizemos o disco com um produtor com o qual estávamos muito à vontade para trabalhar. Ainda por cima, gravámos o álbum no estúdio Blackbird, onde já tínhamos gravado outros discos. Estávamos muito confortáveis e adorámos a energia positiva de toda a experiência. Acho que o disco ficou incrível. Foi muito bom fazê-lo. O Markus é aquele produtor que quer estar envolvido no processo desde o primeiro dia. Se tivermos uma demo de 15 segundos, com uma ideia apenas, ele quer ouvi-la. Parece ser uma pessoa rígida, mas é muito querido. Pode não estar sempre a sorrir, mas é uma pessoa muito doce.
E concertos? No meio desta incerteza global, têm alguma previsão de quando é que poderão voltar à estrada?
Temos algumas ideias. Estamos só a tentar perceber como é que as coisas podem desenrolar-se. Está a ser difícil planear a digressão porque as restrições variam de país para país. Até na América essas restrições variam de estado para estado. Em alguns estados, ainda é obrigatório usar máscara e noutros já não é. Vamos andar a navegar para perceber como é que vai ser a digressão. Eu creio que vamos voltar à estrada lá mais para o final do ano, se não mesmo no final do verão. Espero que sim. Tudo o que podemos fazer é ensaiar e estarmos preparados para a digressão. Assim que tivermos luz verde vamos para a estrada. Por enquanto, ainda estamos numa espécie de limbo de incerteza.
Como é que imaginas o primeiro concerto depois deste afastamento forçado dos palcos?
Acho que vou sentir muitas borboletas na barriga. Certamente que vou. Acho que vai ser estranho porque não tocamos há muito tempo. Creio que tanto nós como os fãs vamos ter de nos beliscar para ter a certeza de que o que está a acontecer é real. Vamos todos pensar: 'será que isto está mesmo a acontecer ou é um sonho?'. A verdade é que mal posso esperar pelo momento em que todos nós estejamos a ter consciência de que o que está a acontecer é mesmo real. Anseio pelo momento em que possamos voltar a fazer o que amamos, que é tocar para os nossos fãs. Mal posso esperar por voltar a ver a alegria nas caras das pessoas do público. Acho que a próxima digressão será ainda mais especial, embora saiba que também vai haver mais pressão em cima de nós. É algo que acontece sempre que lançamos música nova. Queremos que o material novo soe bem ao vivo. Uma coisa boa que nós temos é que ensaiamos muito. Somos todos muito perfecionistas e temos aquela competitividade de família. Todos queremos ser o melhor elemento da banda, o que, a longo prazo, acaba por ajudar-nos. Estou muito entusiasmado. Mal posso esperar. Só de falar nisso consigo sentir as borboletas. (risos)
