Nena sobre o novo álbum: "sinto-me cada vez mais confortável em pôr cá fora o que realmente estou a sentir"
Entrevista à cantora e compositora que está de volta aos discos com "Debaixo d’Água, Contigo".
Nena regressou aos álbuns com a edição de "Debaixo d’Água, Contigo" a 1 de outubro.
O novo disco, que foi lançado pouco mais de um ano depois da edição de "Um Brinde ao Agora", é o terceiro da discografia da cantora e compositora e resulta do impulso incessante de Nena para escrever.
O novo registo discográfico, que se funde com o fascínio de Nena pelo mar, é composto por dez faixas, uma das quais, ‘Nada é do Acaso’, com a participação dos Quatro e Meia. "São canções sobre aquilo que viveu e sobre tudo o que, por vezes, é mais fácil dizer através de uma canção", refere o comunicado de imprensa.
Começo pelo título, "Debaixo de Água, Contigo". Sei que surgiu na sequência de uma experiência que tiveste. Gostaria de saber qual é que foi essa experiência e como é que te impactou ao ponto de resultar no título de um disco.
Eu tinha este título guardado há algum tempo. O que aconteceu foi que há uns anos fiz um curso de mergulho com o meu namorado. Como íamos viajar para um destino em que podíamos fazer mergulho, fizemos um curso de PADI ao pé das Berlengas, em Peniche. E lembro-me que nos dias em que fomos fazer o curso eu estava desconfortável com a ideia de ir para debaixo de água e não saber muito bem o que poderia estar a acontecer à nossa volta. Não estava convencida que fosse a experiência mais confortável do mundo mas disse para irmos experimentar. E lá fomos para debaixo de água. Mas quando mergulhei tive uma sensação estranha. Senti um pouco de desconforto, mas, ao mesmo tempo, sentia-me muito calma. Foi uma sensação de calma no meio do desconforto. E acho que é uma forma muito bonita de pensarmos na nossa vida e no que queremos arriscar. Falo em aprender a coexistir com o nosso desconforto. E foi assim que surgiu a ideia do "Debaixo de Água, Contigo", sendo que o "contigo" pode ser qualquer pessoa, não precisa de haver uma ligação romântica. Podemos até ser nós próprios. Lancei um disco no ano passado que não tem nada a ver com isto. Mas para o "Debaixo de Água, Contigo" escrevi mais de 60 canções. Senti que tinha mais coisas para dizer e que queria muito lançar mais um álbum.
É uma bela metáfora. Quando nós mergulhamos e quando sabemos que está a controlar tudo sentimos uma calma apaziguadora. Sabemos que podemos ir ao de cima quando quisermos. E há um silêncio sem distrações, abre espeço à reflexão. Mas também percebo o contraste. Acaba por poder ser uma situação desconfortável porque não é propriamente o nosso habitat. Falas desta dualidade, certo?
Acho que uma coisa bonita do oceano é realmente o facto de haver por lá tantas espécies, habitats e tanta diversidade. O oceano é muita coisa, mas, ao mesmo tempo, é um só. E acho que nós podemos compará-lo às nossas vidas e às pessoas que somos. Há muita coisa que se passa dentro de nós. Temos vários humores. Humores que, às vezes, mudam de um dia para o outro. Faz parte. E, de certa forma, é o que nos faz funcionar. Faz parte de nós. Por isso, também quis ligar [o álbum] à ideia do oceano e ao que isso significa.
E qual foi a razão de ires mais a fundo neste álbum?
Acho que tinha muita coisa que queria dizer. E não só sobre mim, sobre as minhas histórias ou sobre tudo o que tem sido a minha vida até agora. Quis escrever sobre o que vou vendo à minha volta. As pessoas ouvem o disco e dizem-me: "parece que estás a dar um bocadinho mais de ti, que estás a ir mais a fundo". Eu acho que deve ser a perceção que têm porque eu tento dar o máximo de mim e dou a minha verdade a cada canção que escrevo. Acho que é a interpretação das pessoas. Ficam com essa sensação. Eu fico feliz. Quer dizer que estou a fazer bem o meu trabalho.
A que é que atribuis esse período tão fértil em matéria de composição?
Escrever é algo muito natural para mim. É quase uma necessidade. Na realidade, é terapia. Escrevo todos os dias porque tenho que escoar para algum lado o que sinto. E este disco é só uma reflexão e uma continuação disso. Ou seja, eu, por exemplo, acabei de lançar um disco mas continuo a escrever. Provavelmente não vou lançar nenhum álbum no próximo ano mas gosto de viver a minha vida assim, sabes? A refletir e pôr tudo no papel. E tenho a sorte de ter uma profissão em que realmente posso mostrar os meus pensamentos ao mundo.
Achas que quando cantas as tuas experiências ajudas outras pessoas que eventualmente possam estar a passar pelo mesmo ou a semtir as mesmas emoções?
Eu espero que sim. Gosto de pensar que nós, enquanto artistas, temos o papel de fazer companhia aos outros. Pelo menos, os meus maiores ídolos já me fizeram muita companhia. Espero também estar a fazer companhia a outras pessoas. Não estou a tentar dar ensinamentos de vida porque não é isso que procuro fazer com as minhas músicas. Estou apenas ali a processar. Mas espero estar a fazer companhia ou mudar a vida de alguém. E não há nada como, de vez em quando, conhecer pessoas que me dizem isso mesmo. E contam-me como é que a minha música lhes tocou particularmente. Espero, de certa forma, estar a fazer isso.
E achas que a cada álbum descobres mais sobre a tua composição, aprendes mais sobre a tua forma de estar na tua arte?
Acho que tenho aprendido a ter cada vez menos medo de dizer o que eu quero dizer. Por exemplo, quando estava a fazer este disco, às vezes, pensava, "vou mesmo dizer isto?". Mas depois chego à conclusão que tenho de dizer porque é algo que me está a deixar desconfortável. Eu acho que as pessoas que estão a passar pelo mesmo também precisam de ouvir. Tem de haver mais pessoas que pensam da mesma forma que eu ou que se sentem como eu. Se é algo que me deixa desconfortável, é porque tenho mesmo de dizer. Acho que tem havido essa transformação de disco para disco. Sinto-me cada vez mais confortável em pôr cá fora o que realmente estou a sentir. Não é que no início não tenha feito isso, sabes? Mas acho que é um processo durante o qual vou-me abrindo mais.
O distingue este disco dos outros?
Talvez seja um pouco mais imersivo. Com este álbum as pessoas ficam a conhecer um outro lado meu. Acho que o disco anterior, "Um Brinde ao Agora", era um mais do tipo: "vamos brindar, vamos para a frente. É o que é, temos pena". E também acho que, por vezes, é preciso ver a vida assim. Mas o novo álbum também aborda as fases em que não me sinto tão bem com determinadas coisas. Acho que dá para perceber quem sou na totalidade.
Incluíste uma canção com os Quatro e Meia, a 'Nada é do Acaso’. Creio que essa canção já tem alguns anos...
Exato.
O que é que te levou a incluir agora esse tema num disco?
Esta canção com os Quatro e Meia já tem, pelo menos, três anos. Podia ter saído no disco que lancei antes, mas senti que a história do tema não pertencia a esse álbum. Por outro lado, a 'Nada é do Acaso' está totalmente dentro do universo do "Debaixo de Água, Contigo". É um tema que fala sobre duas pessoas que estiveram afastadas durante muitos anos e que, ao fim de algum tempo, encontraram-se na rua, como se nada acontecesse por acaso. É sobre quando as coisas que é suposto acontecerem na nossa vida voltam para nós. E isto liga-se muito bem ao tema do disco. Nem sempre as coisas correm como nós queremos, mas o que queremos acaba por nos encontrar de outra forma. E tive a sorte de poder convidar os Quatro e Meia para participarem na canção. E eles aceitaram. Aceitaram há três anos e aceitaram agora que eu incluísse a faixa neste disco. Acho que é a canção perfeita. Eu gosto muito. Sou muito fã dos Quatro e Meia e sinto-me uma sortuda por podermos partilhar este tema.
E qual foi a razão de escolheres 'O Amor Existe' como single de apresentação do álbum? É um título muito esperançoso.
Sinto que é um single que resume muito bem o que queria contar com este álbum. É uma canção que fala sobre a nossa casa. Fala sobre todas as coisas que mostram que o amor ainda existe. O mundo está um pouco louco, não é? Nós temos a ideia do que está a acontecer mas não percebemos muito bem. Mas, por outro lado, fica ainda mais evidente quando as pessoas fazem coisas boas umas pelas outras, quando o amor existe. Essa ideia resume bem o que é este disco. É também sobre a sensação de voltarmos às nossas raízes, às nossas bases. É sobre o irmos para debaixo de água para descobrirmos quem realmente somos. E foi a canção perfeita para marcar o início desta era.
Abres o disco com 'Só Depois, Só Depois'. Senti que quiseste começar de uma forma muito acelerada, em tom de desabafo. Foi intencional?
Foi, sim. Pensei em abrir com esse tema para as pessoas perceberem logo o que é que quero dizer com o resto do álbum. É uma canção sobre o que adia a nossa felicidade. Fala do depois que nunca chega. Estamos sempre a dizer: "só depois é que eu vou dormir, só depois é que eu vou comer. Agora tenho mesmo de fazer isto porque tenho de dar cem por cento para conquistar todas as coisas que eu quero". É uma canção que acaba por falar deste "só depois que nunca chega" e acaba por mostrar que, se andarmos sempre neste ritmo, vamos acabar sozinhos. Acho que é uma canção que também mostra o que é o disco. É sobre a necessidade de às vezes pararmos para pensar sobre o que queremos fazer com a nossa vida.
A canção 'Tenho Saudades de Casa' é uma canção sobre o lado menos bom da fama, das digressões e de andar de um lado para o outro?
Não necessariamente. Tal como já disse várias vezes, acho que me sinto uma sortuda por ter esta profissão e por fazer o que faço. Não podia estar mais agradecida por poder andar em tantos palcos e sempre de um lado para o outro. Acho que, no fundo, é isso. Só que, de vez em quando, também há momentos em que temos saudades do nosso colchão e das nossas pessoas. Acho que é mais do que normal. Todos nós sentimos isso, independentemente da nossa profissão. Claro que a canção é uma reflexão sobre o que eu estava a sentir [quando a escrevi]. Mas sentir-me triste não significa que, ao mesmo tempo, não me sinta feliz. Acho que a canção começa com a ideia de dois sentimentos que podem coexistir ao mesmo tempo. Estou tão feliz, mas também posso sentir-me triste. E acho que é bonito uma pessoa poder dizer isso, sabes?
Claro que sim. E é libertador também. E por falar nas tuas pessoas, tens uma canção dedicada à tua avó…
É verdade.
É a talvez a mais pessoal do disco, não?
Sem dúvida. A minha avó faleceu em maio deste ano e a canção 'Não Foi Isto Que Combinámos (Para a Minha Avó)' foi a última canção a ser incluída no disco. Sentia que faltava algo no álbum. E o que faltava era mesmo uma canção que falasse deste luto. O máximo de nos "sentirmos debaixo de água" é mesmo quando temos tantas saudades de alguém que nunca mais vamos ver. É o luto. Acho que avó estará orgulhosa onde quer que esteja neste momento. É uma canção que resume muito bem a nossa relação. Certamente que há pessoas que vão pensar nas pessoas que perderam.
Estará sem dúvida orgulhosa. Mudando agora o tom, quero que me fales da canção Sexo e a Cidade. Sei que tem a ver com a famosa série "Sexo e a Cidade", certo? E aposto que mais virada para a personagem Carrie Bradshaw…
Exatamente, sim.
Encontrei uma frase que disseste sobre o final do disco que gostaria que comentasses. Disseste: "quis fechar o álbum com a procura de um final feliz, que não tem necessariamente de ser perfeito apenas sincero"…
Sincero, claro. Eu queria muito escrever uma canção sobre o "Sexo e a Cidade", porque já vi esta série para aí umas dez vezes em fases diferentes da minha vida. E sempre que vejo sinto que tiro conclusões diferentes, sabes? E isto acontece independentemente de já saber como acaba. Acho que aplicamos [o que vemos] à fase em que estamos. Pelo menos, foi o que me aconteceu. E esta canção fala sobre o quão libertador é viver numa cidade como Nova Iorque. É sobre sermos independentes e procurarmos a nossa felicidade da forma como queremos. É sobre um "final feliz" que pode não ser o final que esperamos ou que lemos nos livros ou vemos nos filmes. Podemos não acabar ao lado do homem perfeito. (risos) O que importa é que o final seja sincero independentemente do que isso possa significar para cada pessoa. Eu adoro a Carrie. Acho que é uma personagem icónica. Estou muito feliz que esta canção acabe o disco e que o álbum acabe com a ideia de que um final feliz é um final sincero.
Voltaste a unir o mesmo elenco para a produção do álbum….
Sim. Como tive tão pouco tempo entre o disco anterior e este álbum que simplesmente continuei a trabalhar com a mesma equipa. Gosto muito deles. É o João Só, o Feodor Bivol e o João André. Foram eles os produtores do álbum, em canções separadas.
Estou muito contente por poder partilhar isto com eles. São amigos e são casa. Acho que não há nada melhor do que trabalhar com os nossos amigos.
Vamos então aos concertos. Vais estrear-te em Londres…
Exatamente. No dia 13 de dezembro.
Quais é que são as tuas expectativas?
Estou a tentar não pensar muito nisso para não ficar nervosa. Mas estou entusiasmada. Vou a Londres no dia 13 de dezembro, que é o dia de anos da Taylor Swift. (risos) Talvez ainda me cruze com ela. Não sei se vai andar por Londres ou não. Mas quem sabe? Até pode dar-me alguma sorte para o meu concerto. Estou muito entusiasmada, porque é o meu primeiro concerto internacional. Provavelmente vou ter de falar inglês ao mesmo tempo em que falo português. Vai ser um concerto acústico, mais calminho, mas, ao mesmo tempo, vou dar-me a conhecer a outro público. Podem até ser portugueses, mas que nunca tiveram oportunidade de ir a um dos meus concertos. E também vamos andar em digressão, com o novo álbum, por Portugal. A 24 de novembro deste ano, atuamos no Teatro Tivoli, em Lisboa. Vamos atuar na Super Bock Arena [no Porto] a 13 de março e a 9 de abril no Multiusos de Guimarães. Estou muito entusiasmada, porque é uma nova era, é um novo cenário. Tudo é novo. Vai ser interessante as pessoas poderem ver este universo. É um universo de água, em que tudo é azul. Preparámos uma coisa muito bonita para toda a gente.
E em alguns concertos não vais estar sozinha. No dia 13 de março vais estar com os Quatro e Meia, certo?
Exatamente.
E em Guimarães com a Bárbara Tinoco e o David Fonseca.
Exatamente, sim.
Sempre muito bem acompanhada.
Com boas pessoas.
Além da digressão pelo país para mostrar o novo álbum, a artista, de 29 anos, vai estrear-se em Londres, Inglaterra, a 13 de dezembro.
Eis as datas da digressão "Debaixo d’Água, Contigo":
20 de novembro — Cine-Teatro Avenida, Castelo Branco
24 de novembro — Teatro Tivoli BBVA, Lisboa
11 de dezembro - a anunciar
13 de dezembro — Jazz Cafe, Londres
16 de janeiro — Espaço Vita, Braga
25 de fevereiro — Convento São Francisco, Coimbra
27 de fevereiro — Centro Cultural Olga Cadaval, Sintra
13 de março — Super Bock Arena, Porto
3 de abril — Teatro das Figuras, Faro —
8 de abril — Centro Cultural e Congressos das Caldas da Rainha, Caldas da Rainha
17 de abril - a anunciar
19 de junho — a anunciar
