No "olho da tempestade", João Kopke angariou voluntários através do surf
O "surfista contador de histórias" é o impulsionador de um dos maiores grupos de voluntários que está a ajudar na reconstrução após a tempestade.
Quando a tempestade Kristin passou por Portugal, as redes de João Kopke, o surfista contador de histórias, encheram-se de pedidos de sensibilização e de divulgação do que estava a acontecer em Leiria. Depois dos surfistas, sobretudo da região, contactarem João, começou a aperceber-se da "escala dos estragos que estavam a acontecer" e decidiu que queria "ir ajudar com as próprias mãos".
Escolheu um ângulo: o da tempestade ter feito com que ao "largo da nossa costa o mar estivesse gigante e permitiu fazer surf em lugares que não é habitual"e decidiu rentabiliza-lo para chamar a atenção. Gravou vídeos a surfar perto da Torre de Belém e na Ribeira da Laje, em Santo Amaro.
"Sabia que esses vídeos iam viralizar, com milhões de visualizações, e que iam iam chegar a muita gente; usei-os para sensibilizar para o que estava a acontecer e para fazer um call to arms". Foi uma "espécie de surfistas do mundo, uni-vos, 'bora para Leiria todos, somos todos jovens, pessoas capazes de acartar com coisas e de trabalhar no terreno".
Com esta chamada de atenção, João esteve "no olho da tempestade" e reuniu cerca de cem pessoas nas primeiras horas, mas pelo final do dia já contava perto de mil: "Quando algum grupo de voluntários ia a uma aldeia nova, a uma junta de freguesia nova, dizia: 'Junta-te ao grupo para poderes mandar as localizações e as necessidades'". O crescimento foi tanto que, ao segundo dia, pediu ajuda para gerir um grupo de WhatsApp, já que se "com trinta pessoas é um caos, imagine-se com mil". O grupo, que começou focado na cidade, acabou por crescer "para todo o lado: norte, sul do país, agora centro interior". Aliás, "cresceu como cogumelos" e não "de uma forma centralizada", e mesmo com Marta a assumir a coordenação do projeto, ainda foi necessário haver "subcoordenares e subsubcoordenadores" a distribuir lugares.
"Um voluntário de Lisboa pode às vezes, num primeiro momento, parecer uma coisa que é 'uma visita de estudo' porque não nos aconteceu grande coisa aqui, mas depois chegas lá e vê uma velhota a dormir sem teto, um senhor com esquizofrenia que não tem o que comer há dias e está sem casa e começas a perceber a realidade disto que não tem nada de visita de estudo."
Admite que "foi uma sensação um bocado dúbia", por ser "maravilhoso que é quando a comunidade e a população se mobiliza", mas também "um bocadinho revoltante o Estado ter demorado tanto tempo a agir e ser uma ação muito difícil de chegar a toda a gente, mesmo no pós".
O surfista foi várias vezes até ao terreno, esteve sobretudo na região de Vieira de Leiria. Nos primeiros tempos estava um "pequeno caos, uma descoordenação muito grande onde se via, para cada carro da Proteção Civil, quinhentos voluntários". Nas aldeias e "lugares mais isolados", as pessoas afetadas "simplesmente ficavam sozinhas em zonas em que a população é extremamente envelhecida". Viu de perto pessoas que têm "vergonha ou não sabem pedir ajudar", e que ficaram sem internet e carro.
Entre os voluntários há quem tenha "experiência de gestão de crise", caso de profissionais como psicólogos, enfermeiros e quem tenha experiência de construção. Tiveram um papel fundamental em mapear os lugares que precisavam de ajuda. Estiveram em constante contacto com a plataforma SOS Tempestade, a Proteção Civil e as autarquias, mas admite que sente que os "voluntários taparam buracos, não conseguindo resolver nenhum problema estrutural".
Muitas das casas destas regiões precisam de ser reconstruídas por completo. João, que nunca "tinha posto telhas na vida", fez seis telhados. Numero que se for multiplicado pela quantidade de grupos no terreno transforma-se em "milhares de telhados" refeitos durante estes dias. Além disso, foi preciso "tirar árvores do meio da rua, desimpedir e desentulhar lugares", lidar com sinalética, "placas e postes", grande parte "refeita no meio de dias muito chuvosos, com ventos fortes e outras tempestades que se seguiram" e, por isso, obrigam a mais trabalho.
"Isto vai ser um pau de dois bicos, precisamos que o sol apareça para nós começarmos a tratar, mas quando o sol vier as pessoas vão esquecer-se e isto vai deixar marcas."
A normalidade pode "demorar anos a chegar" e é preciso "fazerem-se medidas que realmente funcionem e não mandar areia para os olhos, deixar as pessoas sozinhas ou à mercê de grandes burocracias e seguradoras", até porque "os concelhos não conseguem falar entre si e não têm meios para chegar a toda a gente e perceber quais é que são as necessidades". É preciso "ir à rua e falar, não deixar o assunto morrer", apela.
Com o fim da chuva, ainda há muitos grupos de voluntários a ir para o terreno e "agora com sol é que vai ser possível fazer trabalho a sério." Contudo, estes grupos de voluntários precisam de ser liderados "por pessoas que sabem o que estão a fazer, ou seja assistentes sociais, coordenação com juntas de freguesia, instituições locais e pessoas técnicas que realmente sejam capazes de fazer um telhado em condições".
Além do grupo de WhatsApp e do trabalho no terreno, foi criado um GoFundMe que já ultrapassa os cem mil euros e foi partilhado pelo surfista português Nic von Rupp, "um dos principais impulsionadores".
A destruição "não vai acabar agora" e é muito necessário que mais pessaos se voluntariem, diz Kopke, porque "neste momento é que as coisas realmente vão poder começar a ser reconstruídas".
