Nuno Markl: "Nunca pensei em meter-me num assado destes"

Nuno Markl estreia-se como realizador entre comboios e baleias explosivas.

"Está a levar-me à Loucura.” É com este desabafo em tom de brincadeira que começamos a conversa com Nuno Markl. O humorista que todas as manhãs nos traz O Homem que Mordeu o Cão já fez um livro, um mockumentary e um espetáculo ao vivo. Agora, a rubrica que se estreou há exatamente 27 anos na antena na Rádio Comercial vai dar origem a um filme. “É muito trabalho”, diz-nos preocupado. O guião já vai na 11.ª versão e Markl confessa ainda não estar “contente”. “Eu, claramente, começo o storyboard a desenhar muito melhor do que depois mais à frente… Os desenhos começam a ficar completamente asquerosos… mas pronto, as ideias estão lá todas”, assegura-nos. E nós acreditamos. A conversa faz-se num pequeno estúdio na Sampaio e Pina e a desculpa (como se fosse preciso) é o anúncio da estreia do filme: verão de 2025. As filmagens devem começar em janeiro, mas até lá, há que meter mãos à obra.

Como surge a ideia de fazer este novo filme?
Esta ideia, acho que já estava na minha cabeça há muito tempo, e estava pensada até para um aniversário mais redondo de O Homem que Mordeu o Cão. Porquê agora? Acho que vamos festejar para aí o 27.º aniversário, que é uma idade pouco redonda e para o ano será o 28.º, pronto… Se calhar fazia mais sentido esperar mais uns anos e celebrar isto nos 30 anos que é uma coisa mais redondinha, mas por outro lado, já estamos há tanto tempo a pensar nisto e a magicar o que é que poderia ser um filme de homem que mordeu o cão…
É verdade que demorou tempo até eu próprio perceber o que é que poderia ser este filme e agora acho que conseguimos afinar ali um conceito e um argumento e, portanto, estamos em condições de avançar. E é o que irá acontecer!
As filmagens vão arrancar no início do ano que vem, mas daqui até lá ainda tenho muito trabalho pela frente, porque estamos na pré-produção e eu nunca pensei que me ia meter num assado destes.


Há uns anos foi feito um mockumentary, do Homem que Mordeu o Cão...
Sim, eu hoje vejo esse mockumentary e fico cheio de vergonha… Aquilo não tem ritmo nenhum, é muito lento. Não sabíamos bem o que é que estávamos ali a fazer. Deu muito gozo na altura, mas agora estamos a juntar uma equipa mesmo para fazer uma coisa que pareça mesmo um filme que aquilo não parece bem, mas mesmo assim é uma cápsula do tempo. Há um lado em mim que adora ver esse esse mockumentary porque mostra aquilo era naquela altura a rádio (e também as coisas que havia na máquina de comida que eram mais duras do que as de hoje... hoje penso que é melhor a comida que há máquina do que naquela altura), mas sim este vai ser diferente do espírito de desse mockumentary que era mais sobre o making off.
O filme vai ser sobre as histórias, sobre um punhado de histórias que me lembro de terem resultado muito bem quando as contei no ar e de as pessoas terem gostado muito. O desafio vai ser agora vê-las com atores a interpretá-las.


E como é que em mais de 3000 histórias se consegue escolher assim um conjunto de oito?
São para aí oito, mas há easter eggs, ou seja, referências a outras histórias espalhadas lá pelo meio. Teve de ser um misto entre as inevitáveis, algumas inevitáveis clássicas de sempre e, depois, lembrar-me das mais recentes e de quais é que me tinham feito rir mais! E dessas, quais é que tinham feito rir mais as pessoas que ouviram e quais é que tinham mais potencial de serem transformadas em filme, porque algumas são engraçadas, mas se calhar não funcionariam se fossem transformadas assim em ficção e, portanto, custou menos do que o inicialmente acharia, porque são milhares e milhares e milhares de histórias.
Mas o facto de a minha mente me ter encaminhado para as que foram escolhidas, se calhar, foi bom sinal e tipo: ok estas, se calhar, vão resultar.

Foi instintivo?
Foi um bocado por instinto foi é verdade, sim.

O Homem que Mordeu o Cão continua a funcionar com a realidade. Claro que é uma realidade um bocadinho exagerada, mas é sempre a realidade e sempre o mais absurdo que há na verdade. O filme vai buscar aqui um bocadinho de ficção também. Como é que se traça essa linha?
Sim, claro. Eu tentei ser o mais fiel às histórias originais que foram deixadas por anónimos por essa net fora, histórias que aconteceram a anónimos.
A jigajoga que eu arranjei aqui para elas funcionarem foi, em vez de simplesmente serem umas curtas-metragens umas a seguir às outras, tentei criar um universo único em que todas aquelas histórias estão, mais ou menos, a passar-se ao mesmo tempo. E isso obriga, obviamente, a criar ali um lado mais ficcional para que tudo aquilo encaixe.
Eu fiz esta jigajoga toda de: ok, numa das histórias estamos a ver outra lá atrás em segundo plano, mas essa depois, mais à frente, passa para primeiro plano e vice-versa.
Depois, no outro dia estava a rever o Pulp Fiction, estava a mostrá-lo ao meu filho e estava a pensar: “Bolas, eu nem pensei no Pulp Fiction quando estava a juntar estas histórias todas, mas o filme faz tão parte da nossa vida e do nosso ADN que, de facto, há ali um certo lado que eu fui lá [ao Pulp Fiction] buscar”.
Aquilo de serem histórias separadas, mas ao mesmo tempo, haver uma ligação entre elas e de haver personagens secundárias numa, mas que são personagens principais das outras e, portanto, eu acho que o tal lado de juntar ficção à vida real foi no sentido de cozinhar todas estas histórias como se elas se passassem todas num mesmo universo e possivelmente até quase em simultâneo.


Neste filme, o segredo também é a alma do negócio? Há pessoas que conhecem tão bem OHQMC, que à mínima referência conseguem identificar as histórias…
Sim, sim! Eu ando a ter muito cuidado com as partes do storyboard que mostro precisamente por causa disso. Gosto que até o mais perto possível da estreia, as pessoas fiquem na expectativa de saber que histórias é que vão fazer parte disto que histórias… houve uma que eu já disse em alguns sítios que ia acontecer. Bom, é uma Loucura. As pessoas pediram muito essa que é Vai uma velha fora do comboio.
É terrível para uma para uma pessoa que se vai estrear a realizar… Como é que se faz aquilo? Mas já estamos a falar com duplos e com a CP para tentar ver como é que se vai fazer aquilo…
Já há uma atriz para fazer de velha! Também não posso dizer quem é, mas é uma atriz consagrada e que diz que não precisa de duplos e que vai agarrada ao comboio.
E eu pensei que não posso carregar em mim a responsabilidade de matar esta esta pessoa lendária… E pronto, é isso! Portanto, isto é lenha para me queimar, no fundo.


Os atores foram surgindo à medida que as histórias foram escolhidas ou foi um processo completamente separado da escolha das histórias?
Foi um misto, havia algumas personagens que eu já sabia que gostava que fosse determinado ator ou atriz a fazer e outras eram assim um bocado telas em branco e depois logo se veria a quem é que poderia fazer. Portanto, é um misto das duas coisas.
Depois vem a parte de, e eu que sou um tipo tímido, a parte de ligar para os atores… eu tentei escolher pessoas que eu já conhecesse e que me conhecessem a mim para não para não ir às cegas. E pronto, isso facilitou. Houve uma quebra instantânea de gelo, mas ainda assim eu estava cheio de receio que as pessoas desconfiassem… Então mas isto é uma rubrica de rádio, como é que isto passa a filme? Será que isto vai funcionar? Mas as pessoas mandaram-se de uma maneira super inconsciente todas, não tive uma única nega de todas as pessoas com quem falei até agora.
Houve uma só, mas foi por uma questão de calendário, mas fiquei super comovido e entusiasmado com isto. As pessoas cegamente atiraram-se muitas delas ainda sem terem lido nada só por eu ter resumido qual é que era a ideia da história.
E pronto, seja o que Deus quiser.

O Homem que Mordeu o Cão passa diariamente nas Manhãs da Comercial, às 08h50, e está disponível a qualquer hora em radiocomercial.pt e nas plataformas de podcast.