Nuno Markl voltou a morder o cão

Regresso comovente à Rádio Comercial, no dia do 47.º aniversário da estação.

Já próximo das dez horas da manhã, Nuno Markl dá a novidade do arranque da rodagem do filme “O Homem Que Mordeu o Cão” em junho. “Estou em pulgas para fazer isto. O argumento levou uma grande volta e meti no guião o AVC. Acho que está melhor agora”, afirma o radialista no estúdio principal da Rádio Comercial, no programa Manhãs da Comercial. 

Só uma notícia supera este avanço da rodagem do filme “O Homem Que Mordeu o Cão”: o regresso de Nuno Markl à Rádio Comercial, de quem recebeu um abraço comovente de todos os profissionais com quem se cruzou.  

Acompanhado pela sua enfermeira, Raquel, Nuno Markl entra nas instalações às 8h30 da manhã. A rádio está engalanada por uma passadeira vermelha que se estende do hall de entrada ao mítico corredor que desemboca no estúdio maior da Rádio Comercial. 

“Estou quase a chorar”, desabafa imediatamente Nuno Markl, logo no hall. Antes do mítico corredor, há um corredor humano improvisado. Todos o mimam, o segurança Pedro, a Catharina e a Rita (da direção), o sonoplasta Mário Rui.

Ao fundo, aguarda-o a sua querida equipa das Manhãs da Comercial. Pedro Ribeiro está com o olhar desperto, à espera do velho amigo. São 8h30, mas Ribeiro pede à jornalista Ana Bernardino para dispensar o noticiário. A notícia é o próprio Nuno Markl, que entra no estúdio de pé.

Pedro Ribeiro dá-lhe um abraço com muitos anos. Outros abraços se seguem. Todos querem abraçar o Nuno. Todos adoramos o Nuno. “Eu já não vinha desde 20 de novembro”, comenta de imediato o regressado radialista, com a alegria de uma criança. “Parece que estou num sonho”, caem as palavras do Nuno, quase que caem as lágrimas. Vários pares de olhos humedecidos rodeiam Markl.

A animadora Vera Fernandes comenta a boa imagem de Markl, notando-lhe menos cabelos brancos e uma maior magreza. Vasco Palmeirim não prescinde da galhofa calorosa. “Ò Markl, continuas com o microfone todo cagado. As migalhas continuam aí”. Manuel Cardoso aparou a barba para a ocasião. Se não foi, faz de conta.

Microfones no ar, Nuno Markl dá o aviso: “ainda não estou de volta, mas começo a ver a normalidade ao fundo”. E faz um grande elogio à médica Maria João e à enfermeira Raquel, que está sempre de apoio ao Markl, a apenas dois metros do seu banco alto na mesa de estúdio. Foi da médica Maria João a ideia de Markl voltar hoje à rádio, em dia de aniversário, lembra Pedro Ribeiro, que a cita: “quando sugeri o regresso do Nuno à rádio, o seu rosto iluminou-se”. Nuno Markl reconhece que vai ter saudades da sua médica e da sua enfermeira. Mais adiante, volta aos elogios ao Hospital do Mar, na Bobadela, onde tem sido tratado. “Não me canso de elogiar o pessoal do hospital”, num agradecimento “à ciência e à medicina”, criticando esta vaga recente de negacionistas da ciência.

Em off, Nuno Markl não contém o seu entusiasmo com a história que descobriu para a sua rubrica “O Homem Que Mordeu o Cão”. Comenta com Vasco o processo de escrita com uma mão só, a da direita. Mais tarde, acontece o momento esperado: “O Homem Que Mordeu o Cão”. Markl narra a peculiar prenda que fora oferecida a um amigo de 28 anos: um serviço de acompanhante sexual para a sua primeira experiência carnal. A experiência desse amigo correu mal, num encontro sexual que se tornou um desencontro.

Com os microfones ligados ou não, continua-se a brincar com as peripécias do Nuno Markl, que sempre se considerou um desajeitado. “Agora tenho desculpa para deixar cair coisas”. Quando é paródia, César Mourão não é de ficar calado. “Ouve lá, magoaste-te?”, pergunta a Markl. “Eh pá, apanhei uma gripe tramada”, brinca o próprio. “Dantes cansava-me a subir as escadas. Agora faço bicicleta no ginásio e já não me canso. Não há nada como um AVC”, Markl volta a brincar consigo próprio. O ambiente é de crianças adultas. Nem sequer falta uma miniatura de carro da Lego no estúdio, daquelas construções que demoram dias. 

Já com o microfone iluminado, Nuno Markl sente que se transformou no coelho Tambor, a personagem cómica do filme de animação “Bambi”, com o tónus muscular [contração do músculo] na perna esquerda. E recorda mais peripécias, perante o ar humorado da sua enfermeira Raquel. Por exemplo, quando tentou estar de cócoras em casa e se estatelou na cama da cadela. 

Muita gente vai entrando em estúdio para dar um abraço ao Nuno: o técnico de emissão Gomes, o comercial Mário e até o senhor Martins (que na verdade é Luís mas é conhecido por um apelido que não tem) do café onde Markl toma religiosamente o pequeno-almoço. O café fica em frente ao liceu Maria Amália, a poucos metros da rádio. É do café Martins que é servido o pequeno-almoço em pleno estúdio ao Markl, pela Vera Fernandes, que tem ainda o cuidado de descer a temperatura do ar condicionado, depois da enfermeira Raquel ter sentido que o estúdio estava demasiado quente. 

As rotinas das Manhãs da Comercial mantêm-se - ou retomam-se, no caso de Markl. César Mourão inspira-se para a sua rubrica “Rebenta a Bolha”, personificando um tipo com a voz viciada em relatos de futebol, para recordar o romance com a sua mulher no Rebenta a Bolha. Manuel Cardoso representa o novo advogado de Sócrates a partir de 2045, com a participação de Markl nos diálogos na rubrica “Acepipe Aos Saltos”. Pensando bem, não são bem as mesmas rotinas, elas estão hoje de cores mais vivas. Por exemplo, a Vera lê a meteorologia e refere que “encomendámos um dia lindo” de sol, como se fosse mais uma prenda para o Nuno.

Sempre a fazer a mesa, Pedro Ribeiro está também uma criança eufórica e não pára de passar mensagens de ouvintes felizes pelo regresso do Markl. Muitas dessas mensagens também poderiam ser do pessoal do Hospital do Mar. Quem as recebe, mas em privado, é a enfermeira Raquel. Pelos vistos, os seus colegas estão “em polvorosa” com o seu paciente Nuno a ganhar forma na rádio, diz em off a Raquel.

Markl consegue ter arcaboiço para tantos mimos. E não esquece outros gestos durante esta baixa médica, como da atriz Daniela Melchior, que lhe passou uma mensagem direta do ator e comediante Jack Black a encorajar o Nuno. E do criador do programa televisivo "Taskmaster", Alex Horne, que homenageou Markl durante uma maratona a repetir a mesma canção. 

Não se param de contar histórias. Nuno Markl e Vasco Palmeirim recordam as tareias que sofrem de David Fonseca no jogo de tabuleiro  Scrabble. Quando César Mourão pergunta a Markl o que achou da derrota do Sporting na Champions, o autor do “Homem Que Mordeu o Cão” não sabe o que lhe responder. Markl é versado em "Star Wars" e em tudo o mais que se relacione com cinema e afins. Mas o futebol é algo que ainda lhe é estranho.

Já são quase dez da manhã, a hora de saída. Mas Markl vai a tempo de deixar uma promessa: “haverá um dia em que voltarei. A rádio é como respirar. Sem rádio, sinto uma ressaca”. À saída do estúdio, o corredor humano cresceu. Mais abraços comovidos de tanta e tanta gente. De todos nós. A Patrícia, da Rádio Comercial, a empregada de limpeza Alcídia, o sonoplasta Paulo Castanheiro. O mítico corredor ficou ainda mais mítico. À saída, estava lá o placard da Rádio Comercial comemorativo dos 47 anos: “a Rádio Comercial não é mesma sem ti”. A mensagem tanto pode ser para qualquer um de nós, como para o Nuno Markl. Porque o Nuno é um de nós. Ele e os ouvintes, todos nos misturamos.

Nuno Markl foi muito mimado. Mas a melhor prenda do 47.º aniversário da Rádio Comercial foi o Markl que a deu. Não poderia haver melhor notícia que o regresso do Nuno Markl à Rádio Comercial. Em breve, voltará em pleno.