O Carmo encheu-se de vozes para receber o 25 de Abril

Grândola ecoa no Carmo para celebrar o dia em que caiu a ditadura.

Milhares de pessoas juntaram-se no Largo do Carmo, em Lisboa, na madrugada deste sábado, para assinalar o começo do dia 25 de Abril. Miúdos e graúdos celebraram o dia em que caiu a ditadura, sem esquecer as preocupações e ameaças à liberdade dos dias de hoje. 

A meia-noite no Largo do Carmo

Matilde: "Não deixemos que os passos de trás comecem a ser cada vez mais"

A Matilde costuma ir até ao Largo do Carmo "praticamente todos os anos". Admite que é um "momento sempre bonito ver as pessoas todas juntas" a cantar o Grândola à meia-noite. Assinalar o 25 de Abril torna-se essencial "num mundo em que a democracia não é um dado adquirido". Apesar de não ter vivido a Revolução dos Cravos, sabe que "foram dados muitos passos em frente para chegar até aqui, para termos aquela que chamamos a liberdade, e temos que continuar a dar" para que "não deixemos que os passos de trás comecem a ser cada vez mais, ou seja, que haja falta dessa liberdade".

Nuno: "Tentam negligenciar um feriado que é o cerne da nossa democracia"

Nuno superou as "dificuldades com espaços com muita gente, apertados, com muito barulho, muitas luzes" para passar a meia-noite no Largo do Carmo. Veio a convite de amigas porque "a nossa cidade e o nosso governo tentam negligenciar um feriado que é o cerne da nossa democracia, da nossa identidade" ao "equipará-lo com outro dia que também tem a sua importância histórica, o 25 de Novembro", mas que contudo "não pode ser entendido como tendo o mesmo papel neste processo de criação democrática". A comemoração é uma forma de evitar "este branqueamento e revisionismo do Estado".

Sara: "Um bom sinal no meio de tantos maus"

Sara começou em "pequenina" a descer na Avenida da Liberdade no 25 de Abril, mas é uma estreante no Largo Carmo. Contente por vê-lo "cheio de gente", destaca a importância de continuar a celebrar "principalmente nos tempos em que vivemos hoje, em que há um ataque cada vez mais intenso a esta data". Essencial é que se tenha a consciência do que foi o Estado Novo e "continuarmos aqui juntos a fazer barulho". Quanto ao desfile, fica "muito comovida também ver que nos últimos anos há cada vez mais gente a descer a Avenida, é muito bonito e é um bom sinal no meio de tantos maus."

Rui: "As conquistas de Abril estão a desaparecer gradualmente"

Rui assinala a meia-noite de 25 de Abril em frente ao Largo do Carmo há quatro anos, trazido pela "manifesta necessidade de manter viva a memória do 25 de Abril, que está em vias de extinção". Acredita que ao longo dos anos as lutas pela liberdade e direitos estão a intensificar-se. Para Rui "as conquistas de Abril estão a desaparecer gradualmente porque não as manifestamos como devia de ser nos anos desde o 25 de Abril". Por esta altura torna-se "imperioso fazê-lo" porque "eventualmente já é tarde demais porque o poder está tomado".

Rosa: "A paz, a liberdade e a fraternidade cada vez mais fazem sentido"

Rosa já tinha passado pelo Carmo, mas nunca se tinha juntado para cantar "Grândola" à meia-noite. Vem acompanhada pela mãe e a filha, que apesar de ter 18 anos "já percebe a importância desta celebração". Nos dias que correm "valores como a democracia, a paz, a liberdade e a fraternidade, cada vez mais fazem sentido".

Lourenço:  "É um marco identitário da nossa sociedade, como o A.C. e o D.C."

Apesar de ser a primeira vez no Largo do Carmo, Lourenço costuma festejar a meia-noite do 25 de Abril. "É um marco identitário da nossa sociedade, como que o Antes e o Depois de Cristo", que tem cada vez mais de ser celebrado com "demonstrações pacíficas e democráticas como esta". Sempre com a comparação entre "o antes e o depois" em mente, para Lourenço poder "testemunhar este momento tranquilamente, sem qualquer espécie de repressão, sem qualquer espécie de lápis azul posterior, dignifica o momento por si".