O cérebro cansado é a nova normalidade e a culpa pode estar no nosso estilo de vida

Entrar numa divisão e esquecer ao que se ia, sentir um cansaço constante ou ter dificuldade em dormir são sinais que muitos encaram como normais. Mas podem ser sintomas de algo mais profundo. No livro "Cérebro (Des)Cansado", a nutricionista Ana Santos explica como o estilo de vida moderno está a inflamar silenciosamente o cérebro.

Num tempo marcado por excesso de informação, stress constante e noites mal dormidas, cada vez mais pessoas sentem que vivem permanentemente cansadas, não apenas fisicamente, mas mentalmente. No livro “Cérebro (Des)Cansado”, a nutricionista Ana Santos procura explicar as causas deste fenómeno e apresenta estratégias práticas para recuperar energia mental e bem-estar.

Segundo a autora Ana Santos, o chamado “cérebro cansado” não resulta apenas do envelhecimento, como muitas vezes se pensa. Embora a idade contribua para processos naturais de inflamação no organismo, são sobretudo fatores externos que aceleram esse desgaste. Entre os principais estão o stress e a alimentação moderna, marcada por produtos ultraprocessados. “Não é só uma questão de envelhecimento. Acima de tudo são fatores externos, nomeadamente o stress e uma alimentação bastante pró-inflamatória, muito rica em alimentos ultraprocessados”, explica. Estes produtos, geralmente identificados por listas extensas de ingredientes, tendem a ser ricos em gorduras saturadas, açúcar, sal e aditivos, contribuindo para processos inflamatórios no organismo, incluindo no cérebro.

No livro, a autora alerta para aquilo que designa como inflamação cerebral silenciosa, um processo que pode instalar-se gradualmente sem que as pessoas se apercebam. Entre os sinais mais comuns estão a fadiga constante, esquecimentos frequentes e dificuldades de concentração. Pequenos episódios do dia a dia, como entrar numa divisão e esquecer o que se ia fazer, podem ser indicadores de alerta.

“Aquele cansaço que sentimos e que não é justificado pelo que fazemos no dia a dia é um sinal importante”, sublinha. O mesmo acontece com o sono fragmentado ou com dificuldades persistentes em adormecer sem medicação.

Em fases mais avançadas, esta inflamação pode manifestar-se através de quadros como ansiedade, depressão ou burnout. “Tudo isso são sinais de que existe um processo de inflamação muito ativo”, refere.

Outro dos fatores centrais analisados em “Cérebro (Des)Cansado” é o impacto do estilo de vida digital. A autora defende que a sociedade atual vive num estado de estimulação permanente, em grande parte provocado pela tecnologia.

Notificações constantes, múltiplos ecrãs e o hábito de fazer várias tarefas ao mesmo tempo impedem o cérebro de descansar. “A hiperestimulação que advém das tecnologias está muito bem demonstrada pela ciência. O nosso cérebro precisa de pausas”, afirma.

Para a nutricionista, um dos sinais mais evidentes desta mudança é a dificuldade crescente em tolerar momentos de silêncio ou de tédio. “Hoje é raro ver alguém numa fila de supermercado simplesmente a observar. Estamos sempre a olhar para o telemóvel.”

Essa ausência de pausas tem consequências diretas na capacidade de foco. Com estímulos constantes, o cérebro perde a capacidade de concentração profunda, o que muitas vezes gera a sensação de que o dia passou sem que nada tenha sido realmente concluído.

Além de explicar as causas do problema, o livro apresenta um plano prático para recuperar a energia mental. Se tivesse de resumir a estratégia em três mudanças fundamentais, Ana Santos destaca três pilares simples.

A primeira é atividade física regular, preferencialmente ao ar livre. “Sem um corpo que se movimenta, o cérebro não funciona”, diz. A exposição à luz natural, sobretudo de manhã, ajuda também a regular o relógio biológico e a melhorar a qualidade do sono.

A segunda passa pela redução drástica de alimentos ultraprocessados. A autora aconselha privilegiar alimentos simples e naturais e recuperar o hábito de cozinhar em casa. “Um rótulo com mais de três ingredientes já não é para levar para casa”, afirma.

Por fim, destaca a importância de regular os ciclos de sono, garantindo momentos de descanso reais e diminuindo a exposição a estímulos digitais ao longo do dia.

Uma das ideias centrais defendidas no livro é que ainda existe uma grande tendência para separar saúde física e saúde mental algo que, na perspetiva da autora, não faz sentido.

“Tudo no nosso corpo está interligado”, explica. Problemas digestivos podem afetar o cérebro, alterações hormonais podem aumentar o stress e, por sua vez, níveis elevados de stress prejudicam o funcionamento de vários órgãos.

Esse ciclo tem também consequências sociais e económicas. Quando a fadiga mental se torna crónica, a produtividade diminui e o absentismo aumenta.

Para Ana Santos, um dos maiores riscos é a normalização do esgotamento mental. “Infelizmente, o cérebro cansado tornou-se a nova normalidade”, afirma.

Apesar de existir hoje mais informação do que nunca sobre saúde e bem-estar, muitas pessoas continuam a ignorar sinais precoces de desgaste cognitivo. Ao mesmo tempo, doenças neurodegenerativas e estados demenciais começam a surgir cada vez mais cedo.

Ao trazer o tema da inflamação cerebral para o debate público, “Cérebro (Des)Cansado” procura precisamente inverter essa tendência, lembrando que pequenas mudanças no estilo de vida podem fazer uma diferença profunda na saúde mental.