O hino à alegria dos Arcade Fire no NOS Alive
O fogo dos canadianos não se extingue. Win Butler, Régine Chassagne e companhia fecharam o palco NOS no primeiro dia do festival de Algés. Antes, o revivalismo bem vivo dos Smashing Pumpkins.
Festa anunciada, festa cumprida. Comunhão de vozes, saudosismo resplandecente e múltiplas explosões de alegria no reencontro dos Arcade Fire com o público fiel que têm em Portugal. Rosas brancas, a tradicional bola de espelhos, papelinhos coloridos e a guitarra erguida aos céus - com o coletivo de Montreal é o encanto do costume. Os Arcade Fire arrebatam as multidões assim que metem os pés no palco e o entusiasmo, de parte a parte, permanece até ao fim.
E, muitas vezes, a trupe Arcade Fire faz a festa antes ou depois dos concertos. Dois exemplos. Ontem, Win Butler, Régine Chassagne e Paul Beaubrun estiveram em amena cavaqueira com os fãs no bar Praia no Parque, em Lisboa. Os músicos ofereceram um DJ set a quem teve a sorte de aparecer naquele estabelecimento à hora certa. Em 2022, após o concerto no Campo Pequeno, a trupe canadiana saiu da arena e continuou a tocar na rua, alegre, airosa e mais perto dos fãs, tal como esta trupe gosta.
Conhecemos o efeito dos Arcade Fire desde o histórico concerto de estreia que deram no cenário bucólico de Paredes de Coura. O alvoroço que provocaram naquele cantinho minhoto em 2005 ainda acalenta a área das memórias dos que lá estiveram. E se é certo que cabe muita vida em quase 20 anos, também sabemos que o entusiasmo de outros tempos rejuvenesce-se nestas ocasiões.
Os Arcade Fire, que recentemente deram alguns concertos dedicados aos 20 anos do essencial "Funeral" (álbum de estreia), têm tudo para manter a chama acesa. É chama que arde, para já, sem probabilidade que se extinga.
Esta noite, "Funeral" teve apenas parte do corpo presente mas mereceu celebração à altura. 'Neighborhood #1 (Tunnels)', 'Neighborhood #2 (Laika)', 'Neighborhood #3 (Power Out)' e Rebellion (Lies)' foram as primeiras que se ouviram no recinto, mas do alinhamento também saltou a vida que os Arcade Fire têm feito desde então.
Canções como 'Age of Anxiety II (Rabbit Hole)', 'Reflektor', 'Afterlife', 'No Cars Go', 'Keep the Car Running', 'Ready to Start', 'The Suburbs', 'Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)' e 'Everything Now' foram também celebradas com a grandeza que merecem. O final foi ao som do glorioso 'Wake Up', outra que saltou de "Funeral" e da garganta de praticamente toda a gente que estava no recinto.
"Sentimo-nos em casa sempre que tocamos cá", disse a meio do concerto Win Butler, nessa altura já ensopado em suor mas sempre pronto para erguer a guitarra ou saltar para os braços do público.
Atuar em Portugal é sempre uma hipótese na agenda dos canadianos. Não só fazem questão de voltar como recomendam a experiência aos artistas com quem se cruzam. E, pelos vistos, não são os únicos porque também Billy Corgan, o frontman dos Smashing Pumpkins, disse hoje ao público de Algés que Portugal encabeça a lista de preferências em matéria de sítios para tocar.
Sorridentes, energéticos e luminosos, os Arcade Fire são irrepreensíveis a orquestrar cânticos. Milhares de pessoas cantaram, dançaram e ergueram os braços com os canadianos, que só saíram do palco depois de terem oferecido rosas brancas e uma mini sambada jam. Como se quisessem continuar a festa. Assim será no próximo reencontro.
Reincidentes no NOS Alive, onde atuaram em 2007 (edição de estreia) e em 2019, os Smashing Pumpkins entraram no palco NOS ao som do denso instrumental que abre Atum - a recente experiência ópera rock, dividida em três atos, que editaram entre 2022 e 2023.
Com os veteranos Billy Corgan, Jimmy Chamberlin e James Iha, subiram ao palco o baixista Jake Beats, Katie Cole, que deu uma ajudinha nos coros, e a simpática e aguerrida Kiki Wong, a recente e certeira aquisição do grupo norte-americano, recrutada no meio de cerca de 10 mil candidatos que responderam ao anúncio de emprego que os Smashing Pumpkins tornaram público.
O instrumental de Atum dá espaço para todos assumirem posições no palco. Billy Corgan, que chegou debaixo da habitual e circunspecta batina escura, comanda dramatiza a cena que antecede à primeira a ser servida ao público de Algés: The Everlasting Gaze, do álbum Machina/The Machines of God. Se dramatiza em alguns momentos, sorri - com o sorriso mais ou menos aberto - noutros. E adora tocar em Portugal. “Gosto deste país, gosto muito”, disse, lembrando a passagem do grupo pela Praça de Touros, em Cascais, em 1996. O concerto à chuva que Corgan não esquece. Não esquece mesmo.
Contou recentemente Billy Corgan à publicação Kerrang que o alinhamento para os espetáculos dos Smashing Pumpkins é “cosido” com um critério: canções que tenham garra emocional independentemente de serem novas, antigas, êxitos ou relíquias mais desconhecidas. Não há coerção ao jeito de discos pedidos, mas também não há nada que impeça o resgate dos temas que saíram, vezes sem conta, das colunas de quem cresceu na saudosa inquietação dos anos noventa.
Diz Corgan que o que realmente importa é que as canções tenham chama emocional. Qualquer coisa deste género. São estas as canções que o grupo de Chicago solta ao vivo. Houve espaço para algumas novidades de Atum, mas foram as glórias mais antigas que encheram o alinhamento que os Smashing Pumpkins desembrulharam no palco NOS. Houve visitas aos inevitáveis álbuns Siamese Dream, Mellon Collie and the Infinite Sadness, Adore e Zeitgeist e lá pelo meio uma versão mais pesada de Zoo Station, dos U2.
Today, Spellbinding, Tonight, Tonight, That Which Animates the Spirit, Ava Adore, Disarm, Bullet With Butterfly Wings, Empires, Beguiled, 1979, Jellybelly, Gossamer, Cherub Rock e Zero foram as restantes que ecoaram em Algés. No final, Billy Corgan demora-se no palco, agradece, com as mãos unidas em sinal de respeito, e sai de cena com um ar contemplativo, quase hesitante, como se não quisesse sair dali.





























































