O maior IndieLisboa de sempre arranca hoje

Diretor Carlos Ramos destaca retrospetiva de Jan Svankmajer e a nova secção do Cinema na Piscina.

Começa hoje a vigésima edição do IndieLIsboa, o maior festival de cinema do país que este ano bate o recorde de filmes na sua programação: 314 ao todo, em 15 secções, para graúdos e para públicos de idades menores.

O circuito cinematográfico do festival extende-se este ano por mais de seis quilómetros, abrangendo o Cinema Ideal (junto ao Bairro Alto), o Cinema São Jorge, a Cinemateca Portuguesa, a Culturgest e dois novos espaços mais distantes: a Piscina da Penha de França e o Cinema Fernando Lopes (na Universidade Lusófona).  

Há ainda as envolvências que alargam o festival para lá da sala escura: concertos, DJ sets, as oficinas para crianças, ou as conferências. Ao balcão, a uma mesa, ou numa pista, a cinefilia também se dança, também se imagina, também se conversa. 

Sempre com o olho para a arqueologia e para escavar no passado, o IndieLisboa continua com todos os radares que tem virados para a atualidade, para prenunciar qual o futuro do cinema. Uma missão une programação tão vasta: a divulgação. 

O programador e um dos diretores do festival, Carlos Ramos, contextualiza esta vigésima edição.

Como é que se podem resumir 300 filmes num destaque geral desta edição em apenas um minuto?
Rapidamente, a retrospetiva do Jan Švankmajer [na foto em cima]. É a primeira vez que fazemos uma retrospetiva de alguém da animação, mas que é super-influente e que vem de um universo absurdo, negro e surrealista. O Foco Silvestre é sobre o Trabalho e o Movimento Sindical, antecipando as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. 
O IndieLisboa é um festival generalista. Não é temático. Temos filmes experimentais, documentários ou ficções e temas muito diferentes como o colonialismo, questões de género, filmes sensoriais e sonoros. Há uma coisa nova este ano que é o Cinema na Piscina. No último dia, vai ser possível ver filmes dentro da piscina, na Penha de França, com um conjunto de curtas-metragens para um público familiar, e para adultos, à noite. 

 

Há também a novidade do Cinema Fernando Lopes.
Sentimos necessidade de aumentar a programação e então extendemos o festival no eixo das Avenidas Novas até à Universidade Lusófona, no Cinema Fernando Lopes. Vamos lá passar outras novidades do festival, que é um programa da Smart7, que deriva de uma rede internacional de que o IndieLisboa faz parte, com sete festivais europeus, e existe um filme de um novo realizador de cada um desses países, para um público mais profissional e não tanto para um público mais generalista. 

O circuito do IndieLisboa está demasiado disperso? Gostavam de o ter mais concentrado num determinado ponto do mapa?
Gostávamos que estivesse mais concentrado. Estamos a falar de um eixo que vai do Campo Grande, do Cinema Fernando Lopes, até ao Ideal [junto ao Bairro Alto]. Apesar de isto de fazer numa linha de metro, gostávamos que estivesse mais concentrado, em que [bastasse] 15 minutos a pé entre as salas. Mas para isso, precisamos de uma outra configuração das salas de cinema, que têm vindo a desaparecer. Agora apareceu o [cinema] Fernando Lopes. As salas que existem em Lisboa não permitem esse desenho de mais proximidade entre as salas. Apesar de haver uma sensação de festival, acaba por se perder o efeito se as pessoas forem ao Cinema Fernando Lopes e ao Ideal. Preferiamos que as salas estivessem mais próximas.

O IndieLisboa está com uma cada vez programação maior. Até quando o festival vai parar de crescer? Será que é bom essa programação estar cada vez maior, ou está a deixar de ser bom?
É uma pergunta e é uma reflexão que fazemos internamente. O festival já se expandiu, já contraiu um pouco, dependendo dos anos. Lembro-me que em 2012, estivemos próximos deste recorde. Houve a seguir uma retração do festival, porque se percebeu que seria melhor reduzir a escala. Depende das atividades. Queremos aumentar as atividades de indústria e isso implica mais ações em mais sítios. Por outro lado, o número de filmes aumentou bastante este ano, por causa da retrospetiva do Jan Švankmajer, que vai ser integral e ele tem cerca de 40 filmes. Aumentou também pela rede de que falei dos filmes da Smart7, mas também de uma rede de curtas-metragens em que estamos. É um programa de filmes em película que vai passar na Cinemateca, de super-8, 16mm e 35 mm. Há circunstâncias que fizeram aumentar o número de filmes. Eu diria que o ideal seria um pouco menos do que temos, porque isso obriga a passarmos uma só vez alguns destes filmes. Ou o festival dá um salto para uma coisa maior, com mais gente e produção, ou terá que reduzir algumas coisas, focando-se sempre na indústria, no cinema português e nas redes.    

Havendo tantos filmes e tantas secções, com vários festivais dentro do mesmo festival, qual é o elo em comum entre todos eles?
Como não somos um festival temático mas sim generalista, há alguns critérios que são comuns, como filmes recentes, uma atualidade transversal a todas as secções e uma competição assente nos novos realizadores. Temos um posicionamento de procura por novas formas e perspetivas, novas formas de contar uma histórias, novas estéticas. O festival foge da narrativa clássica, que procure uma abordagem mais experimental, embora não abandonemos formas narrativas clássicas, também as temos no festival.  Mas tentamos sempre outros caminhos. Temos secções que nos permitem trabalhas as curadorias de forma mais específica. Dentro da linha editorial do IndieLisboa de 2004, tentamos procurar o que há. São filmes que as pessoas só têm a oportunidade de ver no IndieLisboa, porque não estreiam no circuito comercial de Portugal. 

 

Qual é o documentário da secção do IndieMusic que, a teu ver, foge mais às convenções este ano?
No que respeita à música, é ainda mais difícil encontrar filmes que fujam ao formato clássico. A maiores dos documentários de música ainda usam esta estratégia de narrativas com pessoas sentadas a falar para uma câmara...

Como o caso do documentário sobre o Little Richard.
Como o caso do documentário sobre o Little Richard. Obviamente que usam muitas imagens de arquivo, o que enriquece o documentário do ponto de vista musical e estético. Eu diria que um filme é o "Even Hell Has Its Heroes", sobre uma banda de Seattle chamada Earth. É uma banda de culto talvez pouco conhecida, do Dylan Carlson, que ficou conhecida por uma espécie de drone-metal, porque é uma música muito assente na repetição de notas, mas que foi bastante influente na onda de Seattle. É um documentário que foge do formato tradicional. Por um lado, foi feita uma banda sonora original para o filme, foi todo feito em super-8 e é de ambientes. Tem a narração mas não o discurso direto elogioso para a câmara, que muitos filmes de música têm. Esse é um filme bastante diferente do normal. Depois há filmes como o "Mali 70", que acaba por ser um road movie, uma viagem de procura pelas big bands dos anos 70, quando o Mali saiu do jugo do colonialismo francês. Surgiram estas big bands em forma de orquestra, com muito orgulho nacional da evolução da própria música, e que entretanto ficaram esquecidas. Começaram lá músicos como o Salif Keita. São dois exemplos de documentários de música diferentes.

Achas que o "Even Hell Has Its Heroes" pode potenciar um novo culto aos Earth?
Acho que sim. Um dos filmes do IndieMusic que pode potenciar esse efeito de culto é o documentário sobre os Earth. Nós temos um equilíbrio entre pessoas ou bandas que toda a gente já conhece - Little Richard, mesmo a Miúcha toda a gente conhece - e outros documentários de descoberta. E os Earth estão muito nesse pólo. Há muita gente que não os conhece e penso que este filme pode criar esse culto. Há também outro filme que pode criar esse culto: The Elephant 6 Recording Co., um conjunto de pessoas que gravita à volta do estúdios onde gravam os Neutral Milk Hotel e todas as bandas à volta disto

 

Vão assinalar os 20 anos do IndieLisboa?
Não vamos fazer nenhuma atividade nostálgica dos 20 anos. Decidimos não fazer. Não é uma marca assim tão importante. Talvez quando fizermos 25 anos seja uma marca mais fundamental. Portanto, não criámos nenhum programa de comemoração dos vinte anos. Há realmente uma reflexão interna para onde o festival vai. Apesar de ser um festival muito grande e de ser o maior festival português a nível de público, estamos a falar de um público muito pequeno quando comparado com a cidade onde acontece. Lisboa tem 500 mil a 600 mil pessoas a viver, com dois milhões a gravitar. Nós temos um público de 35 mil espectadores, que não são 35 mil pessoas, porque há pessoas que vão a várias sessões. Apesar de ser um festival onde circulam dois milhões de pessoas, em 11 dias temos 35 mil e é o festival com mais público. Há exemplos de cidades mais pequenas que têm um público de uma dimensão muito maior. Nós temos vindo a aumentar de público. Evidentemente, com a situação de pandemia, a situação mudou. Mas é ainda muito pouco público para a dimensão da cidade.

Podem consultar no site oficial do IndieLisboa, neste link, todas as informações sobre a programação e sobre os bilhetes.