Francisco, o Papa que desafia o mundo a caminhar em direção a um "horizonte seguro"
Alexandre Palma, bispo auxiliar de Lisboa, define o Papa Francisco como a grande voz da defesa dos pobres e os imigrantes junto da comunidade internacional.
O Bispo Auxiliar de Lisboa considera que a Igreja não se tornou mais universal, porque sempre o foi. Mas acredita que a forma como o Papa Francisco comunicou os valores católicos permitiu assumir um papel muito relevante no cenário geopolítico mundial. Alexandre Palma esteve à conversa com as nossas rádios para recordar a missão do Papa Francisco de chegar aos mais pobres e desfavorecidos.
Que mudanças trouxe o Papa Francisco?
Desde logo a condição de ser um primeiro Papa que vem do Hemisfério Sul, com tudo que isso representa. Diria que um primeiro traço do Pontificado do Papa Francisco foi uma universalização, ou tornar mais evidente a universalidade da própria Igreja Católica. Talvez isto me mereça aqui um esclarecimento que é, a Igreja Católica não se tornou mais ou menos universal que o Papa Francisco. O que possivelmente o Pontificado marca e, em certo sentido, se calhar de uma forma irreversível para o futuro, é uma representação dessa universalidade que mais ou menos sempre existiu. Mas, veio dar maior representatividade e dignidade, a essa universalidade da igreja.
Há uma abertura da Igreja, apesar de ter assumido posições, por vezes, polémicas dentro da Igreja.
Sim, a polémica é conforme o ponto de observação. Para alguns o Papa foi considerado demasiado revolucionário porque abriu a Igreja, mas noutros contextos é muito informativo de alguns pontos clássicos e tradicionais da Igreja.
O Papa Francisco, de facto, procurou inovar em termos comunicacionais. De alguma forma o Papa Francisco inverte a ordem dos fatores, quer dizer, o primeiro movimento é de abertura a todos e depois fazemos caminho juntos para um caminho conjunto de superação de conflitos, de esclarecimento de questões que sejam menos claras. Ou seja, o primeiro momento é do acolhimento, da abertura, do convite, do fazer parceria com a amizade. E um segundo momento, que o Papa Francisco nunca o escondeu, é também uma proposta exigente de conversão. Portanto, não é apenas a certificação já de um estado presente, mas é também o desafio de caminhar para um horizonte seguro.
O Papa teve um papel muito importante, junto dos desfavorecidos, dos que sofrem na guerra. É por esse papel de ajuda ao próximos que o Papa Francisco fica marcado?
Sim, o Papa enquanto ator político, e à escala global. O Papa não tem os meios tradicionais da geopolítica, nem as armas económicas, ou outros tipos de instrumentos que normalmente estão associados ao uso do poder, ou pelo menos ao reconhecimento do poder. Nesse sentido é curioso que Papa surja como um ator geopolítico relativamente pouco relevante, mas na prática é colocado na cena internacional, na cena global, porque todos reconhecem que não tem uma agenda económica, política ou geopolítica, mas é um autoridade muito particular quanto à presença diplomática. No perfil particular do Papa Francisco, vem muito a experiência de vida dele, como é inevitável.
Recordemos que o Papa Francisco veio de um contexto onde a fratura entre riqueza e pobreza pode ser em alguns casos muito escandalosa. O Papa Francisco foi a grande voz na comunidade internacional sobre questão da pobreza e os migrantes.
Como será o futuro da Igreja Católica?
O que a história nos ajudou a dizer ou a interpretar é que qualquer previsão na gestão dos processos não é muito certeira. É mais previsível esperar um imprevisível do que outra coisa. Quando é eleito um Papa Polaco, quando havia uma longa tradição de pontifícies italianos, quando surge um Papa Francisco do outro lado do mundo , há sempre uma imprevisibilidade. Há sempre aquele elemento de surpresa, ou tende a ver sempre aquele elemento de surpresa, que manda em boa análise reconhecer. É natural que vínhamos a encontrar ou a caminhar nas pistas abertas pelo Papa Francisco. Mas será difícil encontrar alguém como o carisma do Papa Francisco. Mas cada cardeal que é eleito para Papa traz consigo a sua personalidade, a sua maneira de ser, a sua maneira de falar.
