O que o mundo dá, o DocLisboa colhe
Arranca nesta quinta-feira o maior festival de cinema documental do país. Entrevista ao diretor Hélder Bessa.
Começa hoje uma das maiores maratonas cinematográficas do ano, o DocLisboa, o grande festival de cinema documental do país, que na prática é um DocMundo, com um íman às incidências passadas e presentes neste planeta vivo. “O que se passa no mundo, passa-se na TSF”, anunciava um icónico slogan radiofónico. Mas mal adaptado a este caso em particular: o que se filma no mundo, projeta-se no DocLisboa.
A praga das igrejas evangélicas no Brasil, o movimento terrorista FP-25, o reerguer do escritor Salman Rushdie após a tentativa macabra de homicídio, o passado repressivo nas Filipinas e os olhares a figuras como o músico João Aguardela (dos Sitiados e d’A Naifa), a cantora Kate Bush, a escritora norueguesa Siri Hustvedt, ou o guerrilheiro anti-colonialista Amílcar Cabral são só dicas de um programa bem mais vasto e com outras relíquias por descobrir.
Olha-se o que está à nossa volta, às vezes no que está à nossa frente todos os dias, às vezes nos cantos recônditos, muitas vezes no remexer paciente das gavetas do passado. O ouro não é só a matéria, mas também a sensibilidade com que se filma. É a arte de transformar um microscópio (a coisas que nos escapam) à dimensão da grande tela, num agigantamento humano e não humanoide. Aqui não há truques de IA ou AI. É um ai ai do mundo, às vezes um deslumbramento, de humanos para humanos. Eis o DocLisboa. Oiçamos o que nos tem para dizer o diretor do festival, Hélder Bessa.
Quais são os grandes destaques que fazes desta edição do DocLisboa?
O DocLisboa 2026 tem uma programação muito rica, quase duzentos filmes. Se tivesse de destacar alguns dos momentos da programação, começaria talvez pela [secção] Terra à Lua e por alguns apontamentos muito contemporâneos da programação: dois filmes de Miguel Antunes Ramos, realizador brasileiro que vai estar cá, um chamado “Dragões”, sobre a ascensão de Jair Bolsonaro, todo feito através de vídeos de YouTube de Jair Bolsonaro, desde o primeiro até à contemporaneidade; e outro chamado “A Voz de Deus”, que é um retrato das igrejas evangélicas brasileiras e do impacto que tem naquela sociedade. Em tempo de eleições no Brasil, acho que são dois momentos urgentes e importantes para perceber um pouco melhor aquele país. Depois, há também o filme sobre Amílcar Cabral, “Amilcar, de Miguel Eek, com o olhar de um espanhol sobre um retrato de uma figura muito importante da descolonização e das ex-colónias. Posso ainda destacar nesta mesma secção mais dois filmes: um de Edmundo Ribeiro dedicado ao pensamento de Bragança de Miranda [“Carta a José Bragança de Miranda”], um dos grandes intelectuais portugueses; e outro chamado “A Faca”, sobre o ataque de que foi vítima Salman Rushdie, e depois a forma como ele reage a esse ataque e se reergue enquanto escritor e intelectual, contra o extremismo.
Temos uma grande presença de filmes portugueses nesta edição, mais de 30. É um recorde?
É uma das edições em que temos mais filmes portugueses, não tenho a certeza que seja um recorde. Para a programação de cinema português, vivemos sempre um bocadinho ao sabor da colheita de cada ano. E este ano, de facto, por razões de calendário, também obviamente pela relação que eu acredito que temos conseguindo aprofundar com os realizadores e produtores portugueses, foi-nos possível ter este número enorme para a escala do país. Temos onze filmes em estreia mundial na competição portuguesa. Aí eu acho que deve ser um recorde de estreias mundiais. Não vou destacar um ou outro porque não seria justo, mas depois, fora da competição, temos momentos muito bonitos. Temos filmes importantes pelas instituições ou pelas realidades que retratam. Estou a pensar, por exemplo, no filme de Solveig Nordlund dedicado à Casa do Artista, mas também já noutra geração completamente diferente, o filme da Inês Alves e do André Xina sobre as batuqueiras cabo-verdianas chamado “Nhá Balila”. Depois temos um retrato maravilhoso, do João Aguardela [vocalista dos Sitiados e músico d’A Naifa], no “Vida de Marinheiro”, pelo Paulo Antunes, e por aí fora. Temos, de facto, uma grande diversidade de filmes. [Há] um filme da Marta Pessoa chamado “Carta a uma Jovem Escritora”, sobre escritoras portuguesas invisibilizadas.
Entre os filmes portugueses, há um que tem honras de sessão de abertura: “Guerrilha no Asfalto”, de Edgar Pêra. Porquê essa escolha? E já agora, qual é a razão da escolha para o filme de fecho, “Thanks for Coming, Merci d'être revenue”, do Alain Cavalier?
É um bom casamento falar destes dois filmes. Desde logo, são dois realizadores que mostraram muita obra no DocLisboa. Há esta relação histórica, diria mesmo, do festival com as cinegrafias do Edgar Pêra e do Alain Cavalier. Começando pela abertura, há alguns anos que não abríamos com um filme português. Esta oportunidade apareceu em conversa com o Rodrigo Areias, o produtor do filme, em Madrid, precisamente. Estávamos lá noutro festival e ele disse que tinha uma coisa para me contar, depois não me contou logo. Na noite a seguir lá me disse que o filme “Guerrilha no Asfalto”, do Edgar Pêra, estava prestes a entrar em Locarno, e se o filme entrasse em Locarno, gostaria muito que o pudéssemos considerar para o festival. Eu fiquei contente, conheço o trabalho do Edgar, que também já tinha passado aqui no festival desde que eu cheguei. Apesar de ser um cineasta que normalmente não é consensual, isso não é uma coisa má, quando o comité de seleção, eu incluído, vimos o filme, gerou um enorme entusiasmo para toda a gente, e pensámos logo na abertura. É um filme, para já, que cruza todos os géneros. Nós não gostamos muito de gavetas, e, portanto, não é um documentário, não é uma ficção, não é um filme-ensaio, é tudo isto e nada disto. E depois, é um filme com uma energia muito especial, porque sendo um filme sobre as FP-25 ou o desejo de fazer um filme sobre este grupo armado dos anos 80, é também um filme sobre a carreira do Edgar, sobre o gesto de fazer cinema, sobre essa resistência que é a carreira de um cineasta também um pouco marginal, ele próprio, mas que soube encontrar o seu lugar. Portanto, acho que vai ser assim um momento cheio de energia. Lá estaremos no Cinema São Jorge, dia 15 de outubro, às nove da noite. Depois, a fechar, no dia 24, na Culturgest, temos um cineasta absolutamente diferente, muito mais silencioso, calmo, contemplativo, que é o Alain Cavalier. É um filme diarístico do Cavalier, é um filme do nonagenário que tem esta possibilidade maravilhosa, como um pouco à maneira do David Bowie, de se despedir com um objeto artístico. E ele diz mesmo que este é o seu filme de despedida; portanto, não creio que haja um outro filme de Alan Cavalier depois deste. Ele já não estará connosco, porque já não viaja. É um filme muito íntimo, muito doméstico, mas de profunda beleza e apesar de ser feito por um homem de provecta idade, é um filme cheio de vida, e que nos faz também pensar um bocadinho naquilo que realmente importa no meio desta correria toda.
Como é que surgiu esta hipótese de retrospetiva ao Lino Brocka?
Estamos cheios de orgulho por poder apresentar esta retrospetiva. E é um orgulho cinéfilo, um orgulho enquanto festival, enquanto equipa de trabalho e parceria também com a Cinemateca Portuguesa e com o Khavn [De La Cruz], curador filipino que convidámos para se juntar às nossas equipas. Porquê? Porque de facto vai ser a mais importante retrospetiva alguma vez feita em todo o mundo, à obra do Lino Brocka, que era já uma ideia antiga, uma paixão antiga do festival, que a Cinemateca também acarinhava muito. Já há uns anos que vínhamos conversando sobre isto, e também sabíamos bem da dificuldade daquilo em que nos estávamos a meter. Portanto, foram passando uns anos e mais ou menos há doze meses, creio que logo em novembro de 2025, tivemos esta conversa e decidimos avançar. Foi um processo de autêntica arqueologia cinéfila fazer isto. Quero deixar aqui um enorme obrigado à nossa equipa de programação, à Cinemateca e ao Khavn, porque de facto foi extraordinário aquilo que conseguiram. Eu fui acompanhando sempre. Fizemos centenas de contactos, literalmente, entre as entidades filipinas, distribuidores e agentes internacionais, familiares. Isto foi uma loucura, mesmo uma coisa quase detetivesca. A verdade é que houve coisas que não conseguimos, mas houve muitas que conseguimos. E vamos mostrar pela primeira vez uma série de filmes nunca mostrados fora das Filipinas, nunca antes legendados ou traduzidos para qualquer idioma, só existiam em tagalog ou em filipino. E para mim, ainda por cima, que vivi na Ásia tantos anos, que já visitei as Filipinas, e que tenho um carinho muito especial pelo cinema do sudeste asiático, fico mesmo feliz de podermos fazer isto. E tenho a certeza que depois do DocLisboa, um pouco como aconteceu no ano passado com o William Greaves, o norte-americano a quem dedicámos a retrospectiva de 2025, tenho a certeza que estes filmes vão circular muito mais e esse é acima de tudo o nosso objetivo: ajudar os filmes a reencontrar o seu público.
Temos a secção do HeartBeat, que atrai documentários sobre Kate Bush, Siri Hustvedt, Orson Welles e até mesmo o João Aguardela. Tudo grandes figuras. Serão também grandes filmes?
Nós tentamos sempre que, às figuras retratadas, ou às obras de arte retratadas, por vezes correspondam também gestos cinematográficos fortes. Portanto, não temos o interesse apenas em trazer filmes sobre gente famosa. É claro que precisamos de filmes de grande público, qualquer festival precisa, mas não é isso que nos move apenas. E este ano, sim, eu diria que há aqui uma confluência bem interessante entre a qualidade dos objetos cinematográficos e as personagens por eles retratadas. Eu falava do William Greaves há pouco, posso referir desde já o “The Fight” sobre o Muhammad Ali, que nós já quisemos mostrar o ano passado e não foi possível. Cá está ele, e há também um filme muito bonito, que estreia aqui em Portugal, um filme que foi inacabado pelo William Greaves e agora terminado pelo seu filho David Greaves, chamado “Once Upon a Time in Harlem”, sobre este movimento renascentista do Harlem [bairro nova-iorquino da ilha de Manhattan] e da comunidade afro-americana. Depois, grandes figuras, [o artista plástico] Douglas Gordon, Kate Bush, o [compositor] Nino Rota, o [cineasta] Vittorio de Sica, o [cineasta] Orson Welles, são quase infinitas. Depois temos, como tu também dizias, a Siri Hustvedt, com este filme muito sensível, onde aparece também o seu marido Paul Auster, mesmo antes de falecer.
Há alguma relação entre este documentário e o livro biográfico de Siri Hustvedt, “Fantasmas”?
Sim, há uma relação entre o filme e o livro. Isto é quase uma espécie de adaptação do livro. Na verdade, a primeira coisa que nos ocorreu quando percebemos que era possível ter o filme, foi convidá-la para vir. E poucas semanas depois disso, a editora anunciou que ela vinha cá lançar o livro. Portanto, acabou por cair a hipótese de ela vir, não fazia sentido vir logo outra vez a Portugal uns meses mais tarde, mas fiquei muito feliz que a Siri Hustvedt tivesse vindo. Eu já conhecia bastante bem o seu pensamento, mais do que a sua ficção, que confesso não ter lido muito, mas é uma grande ensaísta. Tem um livro muito, muito bonito, que já agora recomendo, chamado “A Woman Looking at Men Looking at Women”. É maravilhoso esse livro, navega muito nas ciências exatas e nas ciências sociais. Ela tem esta crença profunda de que o encontro entre as duas, a convergência destas cabeças mais científicas e destas cabeças mais humanistas, é que nos podia levar a um lugar melhor. Portanto, recomendo esse livro. Queria ainda destacar do Heart Beat, a vinda do Jonas Trueba ao festival. O Trueba é um autor já conhecido em Portugal. Vem com o seu pai, Fernando Trueba, e temos aqui esta coisa entre pai e filho, dois cineastas de gerações muito diferentes, com muita qualidade, com um cinema espanhol diferente daquele a que estamos habituados.
Há algum tema que sobressaia nesta edição do DocLisboa?
Indo direto à tua pergunta, não posso deixar de falar, obviamente, do modo como conseguimos construir um pequeno foco nas imagens do arquivo palestiniano. É este conjunto de filmes que trazemos aqui, é um conjunto de filmes que vale enquanto objeto artístico, cada um destes filmes é muito interessante, são objetos de uma cultura que está a ser erradicada. Não é apenas um genocídio que está em causa, é também um culturcídio. Pareceu-nos muito importante, mais do que mostrar, obviamente, filmes que revelem os horrores da contemporaneidade naquela parte do mundo, também olhar para trás e perceber aquilo que este povo e esta cultura foram produzindo. Portanto, temos esse, esse foco chamado Recuperar as Imagens do Arquivo Palestiniano. Seguindo um bocadinho essa senda, eu acho que depois com os filmes do Miguel Antunes Ramos sobre o Brasil, que eu referi, este filme do Miguel Eek sobre o Amílcar Cabral, dois filmes em competição portuguesa, os filmes do Ico Costa [“Povo e Poder”] e do Pedro Neves [“Os Continuadores da Revolução”], que de alguma forma revisitam os temas coloniais ou pós-coloniais e uma relação ainda do cinema português com estes territórios africanos, que é uma relação tão complexa e da qual é preciso falar. Ao contrário do que algumas pessoas tentam dizer, é preciso falar e conversar sobre ela e continuar a produzir pensamento.
Ainda insistindo na pergunta geral que eu fiz, mas indo às alterações climáticas e à fragilização da natureza, que é um assunto também presente em alguns documentários, é outro tema nesta edição.
Nós temos essa conversa constante que é: não vamos programar pensando em temas. Mas, na verdade, o cinema reflete o mundo, não é? Ou seja, eu digo isso no texto que abre o catálogo. A diversidade do cinema é inseparável da diversidade do mundo. E o que nós procuramos, ao longo dos meses a ver centenas e centenas de filmes, é de facto que estes onze dias de DocLisboa sejam uma espécie de cápsula, ou encapsulem o que está a acontecer neste planeta tão convulso. Obviamente, as alterações climáticas são inseparáveis da nossa realidade hoje, como são também as megalopolis e esta pressão tremenda do que é viver nos grandes centros urbanos, como também são as questões do trabalho.
Pode consultar a programação completa do DocLisboa neste link do site oficial.
